A chegada do ministro Antonio Carlos Ferreira ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) altera o equilíbrio de forças no plenário da corte. Ele substitui Raul Araujo, que, em 2023, votou a favor de Jair Bolsonaro em ações que resultaram na inelegibilidade do ex-presidente. Naquela ocasião, Araujo foi acompanhado apenas por Nunes Marques, que também foi indicado por Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal (STF) em 2020.
A colunista do UOL, Carolina Brígido, lembra que a composição do TSE é constantemente renovada, já que os mandatos dos ministros duram dois anos, com possibilidade de renovação por mais dois em alguns casos. Após a votação que definiu a perda dos direitos políticos de Bolsonaro, a corte passou por mudanças em sua formação, e uma nova tendência mais conservadora começou a emergir. Esse movimento se intensificou com a posse de André Mendonça, outro nome escolhido por Bolsonaro, que ingressou no STF em 2021.
Agora com Antonio Carlos no plenário do TSE, a maioria bolsonarista fica ameaçada. A expectativa é que o novo ministro, indicado para o STJ em 2011, pela então presidente Dilma Rousseff, vote de forma alinhada com a presidente da Corte, Cármen Lúcia, e os ministros André Ramos Tavares e Floriano Marques Neto, ambos vindos da advocacia. Do outro lado, ficariam Nunes Marques, Mendonça e Isabel Gallotti, do STJ.
Paulistano de 67 anos, Antonio Carlos nunca frequentou os holofotes. A discrição, porém, é inversamente proporcional à influência que amealhou perante membros do Judiciário de diversas alas. Discreto, o ministro prefere atuar nos bastidores. Conquista amizades reunindo na sala de seu apartamento, em Brasília, advogados e ministros de tribunais superiores para tocar violão e cantar.
Embora representem ideologias díspares, Antonio Carlos e Nunes Marques costumam formar uma dupla assídua nas festas. O ministro dedilha as cordas do violão para o colega emprestar sua voz a canções antigas brasileiras — em especial, clássicos da Bossa Nova.
Os dois se conheceram em 2010, quando eram advogados. Na época, Antonio Carlos concorria a uma cadeira no STJ e Nunes Marques queria ir para o Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, em Brasília. Ambos foram nomeados. Antonio Carlos frequenta a casa de Nunes Marques, que também é anfitrião de festas animadas.
Mendonça costuma ir às reuniões musicais promovidas por Antonio Carlos. São amigos também desde antes de chegarem às cortes superiores, quando Mendonça era concursado da Advocacia-Geral da União (AGU). Durante a campanha para chegar ao STF, o amigo do STJ chegou a pedir votos aos senadores para ajudar na aprovação de Mendonça.
Outro convidado desses encontros é Dias Toffoli, do STF, que assumirá uma cadeira no TSE em agosto de 2026, às vésperas da próxima eleição presidencial. Antonio Carlos conheceu Toffoli quando ele era subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil, cargo que ocupou entre 2003 e 2005, no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.
Antonio Carlos chega ao TSE com seu maior diferencial: o perfil diplomático. Com amigos em diversas alas do Judiciário, ele deve contribuir para o aprimoramento do diálogo e o melhor entendimento de integrantes da Corte — ainda que haja divergência nas votações em plenário.
No discurso de posse, proferido no tribunal no dia 19, o novato disse: “Muito me alegra encontrar, entre ministros, advogados e servidores, muitos amigos fraternos”. Ele ficará por dois anos no cargo.
Antes de chegar ao STJ, Antonio Carlos era advogado concursado da Caixa Econômica Federal, onde chegou a assumir a diretoria jurídica. No cargo, costumava avalizar as políticas defendidas pelo governo Lula — segundo interlocutores, não por aliança com o partido de Lula, mas por afinidade ideológica. Em votações no STJ, costuma divergir de Isabel Gallotti, identificada com uma ala mais conservadora do Judiciário.
Na semana passada, Cármen Lúcia comemorou a chegada do colega, que já atuava como juiz substituto na Corte — e, agora, deve compor o time da ministra. “Desejo que seja um período de muito trabalho — como é o trabalho aqui —, porém de muitas alegrias também e de muitos aprendizados. Principalmente, sabemos que podemos contar integralmente com a competência e a segurança que Vossa Excelência demonstra em todas as decisões que tem tomado em todos os julgamentos de que tem participado e que já nos tem ajudado”, disse Cármen.





