A liberação da licença ambiental para que a Petrobras inicie a exploração de petróleo na Foz do Amazonas provocou reação imediata de entidades ambientais e especialistas em clima. Organizações da sociedade civil e movimentos socioambientais anunciaram que vão acionar a Justiça para tentar anular a autorização concedida pelo Ibama, que permite a perfuração do bloco FZA-M-59, na bacia sedimentar da região, informa Miriam Leitão, em O Globo.
Licença vista como “sabotagem climática”
A decisão ocorre a menos de duas semanas da COP30, conferência climática das Nações Unidas que será realizada em Belém, e foi interpretada por ambientalistas como um contrassenso à política ambiental anunciada pelo próprio governo Lula.
“A emissão da licença para o Bloco 59 é uma dupla sabotagem. O governo atua contra a humanidade ao estimular mais expansão fóssil e, ao mesmo tempo, compromete a COP30. Lula acaba de enterrar sua pretensão de ser líder climático no fundo do oceano, na Foz do Amazonas”, afirmou Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima.
As entidades argumentam que o processo de licenciamento contém “ilegalidades e falhas técnicas” e que a decisão ignora alertas científicos sobre o risco de exploração em uma das áreas mais sensíveis do bioma amazônico.
Cientistas pedem abandono de combustíveis fósseis
Carlos Nobre, copresidente do Painel Científico para a Amazônia, declarou que o país precisa agir não apenas para conter o desmatamento, mas também para eliminar gradualmente o uso de petróleo. “Não há justificativa para novas explorações. Abandonar rapidamente os combustíveis fósseis é essencial”, disse.
Na mesma linha, Ilan Zugman, diretor da 350.org para a América Latina e o Caribe, criticou a insistência do governo em um modelo “ultrapassado e desigual”. Segundo ele, “a história do petróleo no Brasil mostra muito lucro para poucos e destruição para as populações locais. É urgente um plano de transição energética justa, com protagonismo dos povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos”.
Pressão sobre o governo às vésperas da COP30
A coordenadora da frente de Oceanos do Greenpeace Brasil, Mariana Andrade, classificou a decisão como “uma mancha de óleo sobre a política climática do país”. Para ela, expandir a exploração petrolífera “é insistir em um modelo econômico ultrapassado e ambientalmente destrutivo”.
Já o especialista em conservação do WWF-Brasil, Ricardo Fujii, avaliou que a medida representa um retrocesso e ameaça direta a uma das regiões mais biodiversas do planeta. “O Brasil não precisa abrir novas fronteiras petrolíferas para garantir segurança energética. O caminho é investir em energias renováveis e na bioeconomia”, afirmou.
Impasse entre desenvolvimento e preservação
A liberação da licença marca um novo capítulo da disputa entre o governo federal, que vê na exploração uma oportunidade de arrecadação e autossuficiência energética, e o movimento ambientalista, que considera a decisão um golpe na imagem climática do país. O embate promete se intensificar na COP30, quando o Brasil pretende se apresentar como liderança global na agenda ambiental.






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