Alta da Selic impulsiona recorde de recuperações judiciais no Brasil, diz levantamento

Com juros em 15%, número de empresas em crise cresce 20% desde setembro de 2024 e atinge quase 5.300 casos

Desde que o Banco Central iniciou, em setembro de 2024, um novo ciclo de aperto monetário, elevando a taxa básica de juros Selic de 10,5% para os atuais 15%, o cenário financeiro das empresas brasileiras se deteriorou de forma significativa. Um dos efeitos mais visíveis dessa política foi o salto no número de companhias que recorreram à recuperação judicial para renegociar dívidas e evitar a falência. O total chegou ao patamar recorde de 5.285 empresas, um crescimento de 20% em pouco mais de um ano.

Os dados constam no Monitor RGF, levantamento da consultoria RGF & Associados, e indicam que a escalada dos juros agravou dificuldades que já vinham se acumulando no setor corporativo, mesmo durante o período em que a Selic esteve em trajetória de queda. A reportagem é do portal UOL.

Recuperações já cresciam antes da virada nos juros

O aumento dos pedidos de recuperação judicial não começou com a alta recente da Selic. Entre setembro de 2023 e setembro de 2024, período em que o Banco Central reduziu a taxa básica de 13,25% para 10,5%, o número de empresas em recuperação já havia crescido 14%, alcançando 4.408 CNPJs.

Com a mudança na política monetária, no entanto, o movimento ganhou força. Segundo especialistas, nos primeiros meses de juros mais altos, muitas empresas ainda conseguem adiar decisões mais drásticas, recorrendo a soluções temporárias.

“Nos primeiros meses de elevação da Selic, muitas empresas ainda conseguem postergar decisões mais estruturais, recorrendo a renegociações com instituições financeiras, alongamentos informais de prazos com fornecedores e uso intensivo de capital de giro. Com a manutenção dos juros em patamares elevados por um período prolongado, entretanto, o custo financeiro segue crescente, a dificuldade de rolagem das dívidas piora, e aumenta a compressão das margens operacionais, tornando a recuperação judicial uma saída mais frequente”, diz Rodrigo Gallegos, sócio da RGF especialista em reestruturação.

Custos financeiros pressionam balanços

O avanço da Selic ao maior nível desde 2006 teve impacto direto sobre os balanços das empresas. Com juros mais altos, o custo para rolar dívidas e contratar novos empréstimos aumentou de forma expressiva, afetando o lucro líquido das companhias.

Levantamento da Elos Ayta mostra que as despesas financeiras cresceram 21,6% em 12 meses, totalizando R$ 85,8 bilhões até o fim de setembro deste ano. No mesmo período, o saldo financeiro das empresas analisadas piorou 20,4%, atingindo R$ 48,4 bilhões.

“Com Selic elevada, os balanços consolidados do terceiro trimestre de 2025 mostraram um mercado corporativo enfrentando pressões de custos, de despesas e de endividamento”, afirma Einar Rivero, sócio-diretor da Elos Ayta.

Justificativa do Banco Central e inflação persistente

O Banco Central sustenta que a elevação da Selic foi necessária para cumprir sua principal missão legal: conter o avanço da inflação. Quando o ciclo de alta teve início, o IPCA, índice oficial de preços, já estava acima da meta de 3% ao ano de forma recorrente desde 2019.

Segundo a autoridade monetária, a taxa básica de juros é o principal instrumento para frear o aumento generalizado dos preços na economia, ainda que o impacto negativo sobre a atividade econômica e o crédito seja reconhecido.

Serviços lideram em número de empresas em crise

Entre os setores da economia, o de serviços concentra o maior número absoluto de empresas em recuperação judicial. Em 30 de setembro deste ano, eram 1.207 companhias nessa situação, alta de 14,8% em relação a um ano antes.

Na sequência aparecem a indústria, com 1.168 empresas (crescimento de 6,2%), o comércio, com 1.086 CNPJs (alta de 18,9%), e o grupo formado por construção, energia e saneamento, que somou 1.014 empresas, avanço expressivo de 37,4%. O agronegócio contabilizou 443 companhias em recuperação judicial, alta de 67,8%, enquanto outros setores reuniram 367 casos.

Varejo e serviços sofrem com queda de vendas e crédito caro

No comércio e nos serviços, os juros elevados afetam tanto o lado da receita quanto o dos custos. Segundo André Sacconato, assessor econômico da FecomercioSP, as taxas altas reduzem as vendas a prazo, parcela relevante do faturamento do setor, ao mesmo tempo em que encarecem o crédito necessário para formar estoques e financiar os consumidores.

“A saída é reduzir as margens, mas, com juros elevados por tanto tempo, a operação vai ficando cada vez mais inviável”, diz André Sacconato, assessor econômico da FecomercioSP.

Agronegócio registra crescimento mais acelerado

Embora não lidere em números absolutos, o agronegócio é o setor com maior crescimento proporcional de empresas em recuperação judicial. De cada mil CNPJs do setor, 12,6 estão sob proteção da Justiça, contra uma média nacional de 2,04 empresas para cada mil.

“Juros elevados são um dos diferentes fatores que têm afetado a saúde financeira do produtor rural. Aqueles que já vinham, há algumas safras, enfrentando problemas climáticos ou mercadológicos encontraram grandes dificuldades para rolar suas dívidas diante do atual patamar da taxa Selic e do endurecimento das condições impostas por muitos agentes financeiros. Como resultado, muitos acabaram se tornando inadimplentes”, afirma Guilherme Rios, assessor técnico da Comissão Nacional de Política Agrícola da CNA.

Segundo a CNA, as propostas de renegociação oferecidas ao setor frequentemente incluem taxas de até 20% ao ano, o que inviabiliza a recuperação financeira de parte das empresas.

“Para os produtores com situação econômica mais equilibrada, que representam a maioria, o apetite por crédito, especialmente para investimentos, tem sido menor do que em anos anteriores. Muitos projetos têm sido adiados à espera de condições de financiamento mais adequadas”, diz Guilherme Rios, da CNA.

Cautela para 2026 e efeito retardado dos cortes de juros

Mesmo com a expectativa de que o Banco Central reduza a Selic ao longo de 2026 para algo entre 12% e 13%, analistas avaliam que o cenário seguirá desafiador. Empresas mais alavancadas, dependentes de crédito e de ciclos de investimento devem continuar sentindo os efeitos do aperto monetário prolongado.

“A Selic elevada por muito tempo agravou problemas de companhias que já tinham potencial de pedir recuperação judicial por conta de fragilidades estruturais, alto grau de endividamento, margens comprimidas e baixa eficiência operacional”, afirma Rodrigo Gallegos.

Além disso, a transmissão da política monetária ocorre com atraso. Mesmo após eventuais cortes, o impacto positivo no crédito demora a chegar à ponta.

“A Selic vai cair, mas, por causa do chamado ‘delay’, vai demorar uns cinco a seis meses para isso chegar às operações de crédito para empresas e famílias”, diz André Sacconato, assessor econômico da FecomercioSP.

Reflexos no mercado de trabalho

O avanço das recuperações judiciais também preocupa especialistas em mercado de trabalho. O aumento desses processos tende a afetar contratações, reajustes salariais e a estabilidade do emprego.

Segundo a economista Patrícia Pelatieri, diretora-adjunta do Dieese, a expansão desse tipo de medida judicial pode resultar em precarização das relações de trabalho.

“Processos de recuperação judicial tendem a resultar em precarização das condições de trabalho, com aumento da rotatividade, ampliação de jornadas e maior uso de contratos terceirizados ou temporários. E quem é demitido dificilmente consegue, sem entrar na Justiça, receber verbas rescisórias”, afirma Patrícia Pelatieri.

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