Advogada influente no futebol é investigada por saques milionários de FGTS de técnicos e jogadores

Joana Prado de Oliveira é acusada de desviar valores que ultrapassam R$ 4 milhões, em um escândalo que mistura influência no meio esportivo, documentos falsificados e prejuízos milionários.

Uma advogada com carreira consolidada nos bastidores do futebol brasileiro tornou-se alvo de investigações da Polícia Federal por suspeita de aplicar golpes contra jogadores e treinadores por meio de saques indevidos de FGTS. Trata-se de Joana Prado de Oliveira, ex-diretora jurídica do Botafogo e atual membro da Comissão de Direito Desportivo da OAB-RJ. Ela é acusada de desviar valores que ultrapassam R$ 4 milhões, em um escândalo que mistura influência no meio esportivo, documentos falsificados e prejuízos milionários.

A PF conduz dois inquéritos principais, referentes aos casos do técnico Oswaldo de Oliveira, que afirma ter perdido R$ 3,1 milhões, e do zagueiro Christian Chagas Tarouco, o Titi, atualmente no Goiás, que teve R$ 440 mil sacados de forma fraudulenta. Ambos afirmam que os valores foram transferidos da Caixa Econômica Federal para contas da própria advogada, sem que tivessem autorizado qualquer movimentação.

A denúncia foi divulgada pelo RJ 2, da TV Globo. As investigações apontam para um esquema mais amplo. Segundo a reportagem, outras vítimas da mesma advogada incluem:

  • Juninho, zagueiro ex-Botafogo;
  • Paolo Guerrero, ex-Corinthians, Flamengo e Internacional;
  • Christian Cueva, ex-São Paulo e Santos;
  • João Rojas, ex-São Paulo (2018–2021);
  • Ramires, ex-Cruzeiro, Chelsea e Seleção Brasileira.

Todos relataram saques indevidos do FGTS e, em alguns casos, dificuldades para reaver os valores. Em resposta às acusações, a assessoria de Joana Prado declarou, por nota, que ela teria sido vítima de um golpe, e que “não houve má-fé ou intenção de causar prejuízo”.

Caso Oswaldo de Oliveira: estelionato e saque indevido de FGTS

A denúncia mais detalhada é a do treinador Oswaldo de Oliveira, nome consagrado do futebol nacional e internacional. Aos 74 anos, com passagens marcantes por Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco e Corinthians — clube com o qual conquistou o Mundial de Clubes de 2000 —, Oswaldo relata que contratou Joana após recomendação de um amigo, quando buscava cobrar pendências salariais do Corinthians (2017) e do Fluminense (2020).

Ele venceu as ações e a advogada recebeu diretamente os valores: R$ 2,3 milhões do Corinthians e R$ 220 mil do Fluminense, somando R$ 2,52 milhões. O montante, no entanto, nunca foi repassado ao treinador. Em acordo judicial firmado em novembro de 2024, a própria Joana reconheceu por escrito que “recebeu, reteve e deixou de repassar os valores”, comprometendo-se a devolver o dinheiro — compromisso que, segundo Oswaldo, não foi cumprido.

Além disso, Oswaldo relata um segundo golpe: o saque indevido de seu FGTS acumulado ao longo da carreira. Em um ano, foram dez retiradas fraudulentas, totalizando R$ 589,1 mil, com destaque para um saque de R$ 211 mil referente ao Vasco da Gama. Os saques, conforme documentação entregue à PF, foram feitos utilizando os dados pessoais do treinador, com repasses diretos da Caixa para contas controladas por Joana.

“Eu estou sem trabalhar há seis anos. Tenho economias, mas são limitadas. Trabalhei 50 anos no futebol e guardei esse dinheiro para a velhice. Fiz duas cirurgias recentemente, preciso de remédios e exames. E agora, de onde vou tirar?”, desabafou Oswaldo.

Titi e os demais jogadores

Outro caso sob investigação é o do zagueiro Titi, com passagens pelo Vasco e atualmente no Goiás. O jogador descobriu, ao tentar usar o FGTS para comprar um imóvel, que R$ 440 mil haviam sido sacados sem sua autorização, com transferência direta para a conta do escritório da advogada.

O zagueiro Juninho, ex-Botafogo e São Paulo, relata golpe semelhante: Joana ofereceu ajuda para sacar o FGTS em 2019, mas deu várias desculpas nos anos seguintes, alegando paralisações causadas pela pandemia. Anos depois, o jogador descobriu que o valor de R$ 102 mil havia sido retirado já em 2019, sem seu conhecimento.

Em todos os casos, a Caixa Econômica Federal abriu investigação interna e, diante das evidências de fraude, encaminhou os dossiês à Polícia Federal, que trata os episódios como crimes de estelionato, apropriação indébita e falsificação de documentos. A PF investiga, também, a participação de terceiros ou eventuais brechas no sistema bancário que possam ter facilitado os saques.

Perfil da advogada investigada

Joana Prado de Oliveira tem trânsito livre nos bastidores do futebol carioca. Trabalhou por 12 anos no Botafogo, onde chegou a ocupar o posto de diretora jurídica. Também foi auditora do Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro (TJD-RJ) e integra, atualmente, a Comissão de Direito Desportivo da OAB-RJ.

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