A juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro há mais de uma década, afirmou que a adolescência é atualmente a faixa etária com maior presença de comportamentos misóginos entre homens. A declaração foi feita durante audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito do Crime Organizado, realizada no Senado.
Responsável por julgar o adolescente investigado no caso de estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos em Copacabana, a magistrada explicou que não poderia comentar detalhes do processo específico. Ainda assim, destacou dados de pesquisas internacionais que apontam um aumento de atitudes de ódio contra mulheres entre adolescentes.
Segundo ela, estudos realizados por uma universidade inglesa indicam que, em 2025, o grupo etário com maior número de homens misóginos é justamente o formado por adolescentes — superando inclusive adultos e idosos. De acordo com a juíza, o fenômeno estaria relacionado principalmente ao acesso precoce à pornografia.
Juíza aponta influência da pornografia no comportamento de jovens
Durante o depoimento, Vanessa Cavalieri afirmou que casos de violência sexual envolvendo estudantes adolescentes não são raros na Vara da Infância e Juventude. Segundo ela, episódios de estupro coletivo entre jovens de escolas tradicionais de classe média aparecem com frequência nos processos analisados.
A magistrada ressaltou que, em muitos desses casos, os crimes são registrados em vídeo pelos próprios envolvidos, o que permite observar um padrão de comportamento semelhante entre os agressores.
De acordo com a juíza, as gravações frequentemente mostram adolescentes reproduzindo cenas semelhantes às vistas em conteúdos pornográficos, o que reforça a hipótese de influência desse tipo de material no comportamento sexual de jovens.
Primeiro contato com pornografia ocorre ainda na infância
Vanessa Cavalieri também mencionou pesquisas que indicam que o primeiro contato de crianças brasileiras com conteúdos de sexo explícito ocorre por volta dos 9 anos de idade. Em muitos casos, segundo ela, esse acesso acontece de forma acidental durante buscas por informações sobre educação sexual na internet.
A magistrada afirmou que, em poucos cliques, jovens podem acabar sendo direcionados a sites de pornografia. Como muitos ainda não possuem experiências afetivas ou sexuais na vida real, esse conteúdo passa a funcionar como referência equivocada sobre relações íntimas.
Segundo a juíza, a pornografia produzida industrialmente costuma retratar relações marcadas por misoginia, violência contra mulheres e situações degradantes, o que pode distorcer a percepção de adolescentes sobre o que seriam relações saudáveis.
Justiça mantém internação de adolescente investigado
O adolescente apontado pela investigação como possível mentor do estupro coletivo contra uma jovem de 17 anos em Copacabana teve a internação provisória mantida pela Vara da Infância e Juventude, segundo informações do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
O suspeito, que tem a mesma idade da vítima, é investigado pela 12ª Delegacia de Polícia de Copacabana como responsável por atrair a adolescente para um apartamento onde o crime teria ocorrido em 31 de janeiro.
Ele se apresentou à polícia na 54ª Delegacia de Polícia de Belford Roxo. Inicialmente, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro não havia solicitado a internação provisória do menor, medida equivalente à prisão no sistema socioeducativo.
Posteriormente, após novas informações apresentadas pela investigação — incluindo o surgimento de uma segunda vítima que também aponta a participação do adolescente — o Ministério Público mudou de posição e pediu a internação, que foi aceita pela Justiça. O jovem foi encaminhado para a Unidade de Acautelamento Gelso de Carvalho Amaral.






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