Acidentes com carros de luxo deixam famílias sem receber indenizações em São Paulo

Casos envolvem mortes, atropelamentos e disputas judiciais; familiares relatam dificuldades enquanto processos seguem sem pagamento de valores determinados pela Justiça

Famílias de vítimas de acidentes de trânsito envolvendo carros de luxo em São Paulo enfrentam uma longa espera por indenizações. Em diferentes casos, processos judiciais avançam sem que os valores determinados ou buscados pelos familiares sejam efetivamente pagos.

Um dos episódios mais recentes envolveu o coletor de lixo Diego da Silva, de 19 anos, segundo levantamento fito pelo Fantástico. Ele morreu durante o trabalho após ser atingido por um veículo que trafegava em alta velocidade. Diego deixou uma filha de apenas um ano e a esposa grávida.

O delegado responsável pelo caso revelou que o empresário chinês Guofang Huang, de 53 anos, apresentava sinais de embriaguez após a colisão. A defesa afirmou que ele prestará assistência aos familiares da vítima. Dados do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) apontam que o consumo de álcool ao volante esteve relacionado à morte de 13.075 brasileiros em um ano.

Policial morreu após ser atingido na contramão

Três dias antes da morte de Diego, o sargento Fábio Pereira de Souza, de 50 anos, também morreu em um acidente. O policial militar foi atingido por um carro de luxo que trafegava na contramão em uma das principais avenidas de São Paulo.

O veículo era conduzido por Bruno Yasuo Shimizu, de 22 anos, que foi preso e denunciado pelo Ministério Público por homicídio qualificado. A defesa declarou que apresentará sua versão no momento adequado. O caso também chamou atenção porque, em 2020, quando tinha 16 anos, Bruno havia se envolvido em outro acidente fatal.

Os episódios fazem parte de um levantamento que reúne casos de famílias que aguardam reparação após acidentes graves. Em algumas situações, mesmo quando há decisões judiciais favoráveis, a execução dos valores se transforma em uma nova batalha para os parentes das vítimas.

Acidente com Porsche também terminou em disputa

Outro caso envolve o influenciador Samuel Sant’Anna, conhecido como Gato Preto, que dirigia um Porsche envolvido em uma colisão após avançar o sinal vermelho na Avenida Faria Lima, em 2025. O veículo atingiu um carro onde estavam Edson e o filho dele, que sofreu ferimentos na mandíbula.

Segundo a polícia, o influenciador havia consumido álcool e usado drogas. Imagens obtidas na investigação também registraram movimentações após a batida. Samuel foi detido e liberado para responder ao processo em liberdade, mas posteriormente acabou preso por uma questão relacionada ao não pagamento de pensão alimentícia.

A família busca indenização, enquanto o Porsche permanece apreendido e deve ser levado a leilão. A expectativa é que o valor arrecadado possa ser destinado à reparação dos danos. Os advogados de Samuel não responderam aos contatos. A defesa de Bia Miranda, que estava no banco do passageiro, afirmou que ela não tem responsabilidade pelo acidente.

Diarista morreu após ser atropelada por Porsche

Em 2019, a diarista Audenilce Bernardina, de 65 anos, morreu após ser atropelada por um Porsche na Rua Augusta, em São Paulo. O veículo era conduzido pelo empresário Fábio Alonso, que, segundo a investigação citada no caso, havia passado a madrugada em uma balada onde houve consumo de bebidas alcoólicas.

A Justiça determinou o pagamento de R$ 60 mil para cada familiar, mas os parentes consideraram o valor insuficiente. A defesa afirmou que tentou chegar a um acordo e apresentou uma proposta de R$ 450 mil, que teria sido recusada pela família.

Na esfera criminal, Alonso responde por homicídio doloso e tem julgamento pelo Tribunal do Júri previsto para outubro. O advogado da família também afirma que o empresário já havia se envolvido em outro acidente fatal, em 2014.

Racha na Imigrantes deixou duas mulheres mortas

Outro episódio ocorreu em 2018, quando, segundo a polícia, uma Mercedes e um Camaro participavam de um racha na Rodovia dos Imigrantes. Um dos veículos atingiu um carro que transportava uma família que retornava da praia. Duas mulheres morreram no local.

O motorista sobrevivente ficou paraplégico, assim como o filho de Wesley Bispo, que tinha menos de dois anos na época. Atualmente, Wesley trabalha como motorista de aplicativo e afirma enfrentar dificuldades financeiras para cuidar do filho e arcar com os custos do tratamento e dos equipamentos necessários.

O empresário André Micheletti, apontado como condutor da Mercedes, foi condenado em segunda instância a dez anos de prisão por crime de trânsito, além do pagamento de R$ 2,6 milhões em indenizações às famílias. Ele recorre em liberdade.

Famílias enfrentam dificuldades para receber valores

Segundo o advogado de Wesley, a família ainda não recebeu os valores determinados pela Justiça. A defesa afirma ter localizado imóveis e veículos que foram bloqueados ou identificados em nome de terceiros durante a tentativa de executar a dívida.

Um Porsche registrado em nome de Micheletti também foi bloqueado. Embora ele tenha alegado desconhecer o paradeiro do veículo, foram encontradas multas recentes relacionadas ao automóvel.

Enquanto isso, Wesley relata que sua vida ficou paralisada após a tragédia. Ele afirma que precisa cuidar sozinho do filho e que enfrenta dificuldades para comprar itens essenciais, enquanto o responsável pelo acidente mantém uma rotina de alto padrão.

O caso evidencia uma dificuldade recorrente em processos de indenização por acidentes graves: mesmo quando a Justiça reconhece o direito das vítimas e estabelece valores, o pagamento pode não ocorrer imediatamente. Para as famílias, a busca por reparação acaba se prolongando por anos, enquanto as consequências das mortes e das lesões permanecem presentes no cotidiano.

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