Entre 600 e 750 prédios históricos do Centro do Rio estão em situação de degradação ou abandono, segundo uma estimativa da ONG SOS Patrimônio. Para além da frieza (e alarme) dos dados, são construções que ajudam a compor a identidade da cidade para além dos famosos cartões postais, e enfrentam o avanço do tempo e a falta de manutenção. Em muitas delas, o risco não é visível a olho nu, especialmente em estruturas envelhecidas que apenas esperam pelo próximo colapso. Agenda do Poder ouviu especialistas para entender o cenário e o que pode ser feito para mitigar estes incidentes.
No bairro da Lapa, que integra o corredor cultural da cidade, um grande casarão amarelo com janelas brancas na esquina das avenidas Gomes Freire e Mem de Sá resistiu por mais de um século até pegar fogo no último dia 14. Durante décadas, o espaço abrigou um hotel, depois o antigo bar A Figueira, e, mais recentemente, o Sonho Lindo, ponto conhecido da boemia carioca.
No térreo, funcionavam pequenos comércios, entre eles: um chaveiro, uma ótica e uma farmácia com quase 40 anos de história. As janelas brancas do imóvel foram tomadas pelas cinzas da fumaça. Agora, uma faixa de interdição da Defesa Civil marca o perímetro do prédio.
“Estava trabalhando quando o meu entregador chegou me chamando. Quando cheguei aqui fora, já tinha muita gente, e o fogo estava pegando no segundo andar. Só deu tempo de voltar porque eu lembrei que a farmacêutica e a secretária estavam no escritório”, conta Ticiana Mendonça, de 38 anos, proprietária da farmácia destruída pelo incêndio.

Ninguém ficou ferido, mas o sentimento de luto toma conta da empresária: “Não temos ainda um valor fechado do prejuízo, mas foi muita coisa. Todos os módulos foram atingidos, e teve muita água. O isopor, os estoques, tudo foi perdido”, conta.
Segundo ela, as chamas começaram no restaurante e se espalharam rapidamente pelos andares superiores. A estrutura de madeira antiga favoreceu a propagação do fogo. O prédio foi interditado, e dezoito funcionários ficaram sem trabalho.
Seu marido estava à frente da farmácia há 40 anos, e ela, há 18. Angustiada, Ticiana tenta reorganizar o que restou.
Agora, o que resta é ter fé e tentar reconstruir. A gente está passando dia após dia com muita dificuldade, mas acreditando que vai conseguir se reerguer. Eram dezoito pessoas trabalhando aqui e está todo mundo muito abalado, desesperado, sofrendo junto”, lamenta.
Imóvel comercial em chamas
O mesmo cenário se repetiu nesta última quarta-feira (22), na Rua Luís de Camões, número 16, também no Centro. O imóvel, um sobrado de dois andares, pegou fogo durante a manhã.
No térreo funcionava um estacionamento de motos; no mezanino e no andar superior, um estoque com materiais inflamáveis como plásticos e cosméticos que ajudaram a espalhar as chamas.

O casarão fica a poucos metros do Real Gabinete Português de Leitura e em frente ao Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio (UFRJ). A Defesa Civil interditou o local após o controle das chamas para vistoria e avaliação estrutural. Ninguém ficou ferido.
Eventos seguem padrão
Segundo o professor Julio César da Silva, do Departamento de Engenharia da Universidade do Estado do Rio (Uerj), os incêndios que se multiplicam no Centro do Rio seguem um padrão. São construções erguidas há mais de um século, feitas com madeira, ferro e instalações antigas que jamais foram substituídas.
Desde 2015, a Norma de Desempenho exige que projetos contemplem também o uso, a operação e a manutenção. Antes disso, o planejamento de projetos se limitava apenas à execução:
Antes da Norma de Desempenho, a gente fazia projeto e execução. Hoje, fazemos projeto, execução, uso, operação e manutenção. Ou seja, os projetos atuais já pensam mais no desempenho e na durabilidade. Basicamente, toda edificação tem vida útil.
Júlio César da Silva, professor da Uerj

O que acontece, é que essa lógica ainda não chegou aos prédios históricos, a maioria sem plano de vistoria, registro de manutenção ou diagnóstico estrutural, explica o especialista.
São construções erguidas com materiais da época que resistem, mas envelhecem à sombra de improvisos. Quando o fogo aparece, ele não chega de surpresa, apenas encontra um terreno preparado.
“Um grande evento catastrófico nunca tem uma única causa: é sempre uma sequência de problemas que vão se acumulando até culminar numa grande consequência. Um prédio não pega fogo de uma hora pra outra. Geralmente há problemas elétricos, de vazamento de gás, recalque, afundamento, trincas, fissuras. Sempre há indícios, só que a falta de cuidado diante desses sinais é muito grande”, explica o professor.
Mosaico de prédios antigos
Segundo o professor Marco Aurélio Chaves Ferro, do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal Fluminense (UFF), o Centro do Rio se tornou um mosaico de edificações antigas, vulneráveis e interdependentes.
A umidade constante, potencializada pela proximidade do mar e pela falta de impermeabilização adequada, penetra nas paredes e corrói metais. As tubulações antigas, muitas vezes enterradas sob o calçamento, vazam e lavam o solo.
“A umidade elevada favorece o aparecimento de fungos e o ataque de cupins em estruturas de madeira, além de acelerar a corrosão de elementos metálicos, especialmente em regiões próximas ao mar, como exemplo os vergalhões de aço existente em estruturas de concreto armado e as próprias estruturas metálicas”, avalia.
Esse processo cria pequenos vazios subterrâneos que se transformam em deformações de piso e rachaduras. Nas áreas mais movimentadas, o trânsito intenso, as obras vizinhas e até as batidas de estacas de novos empreendimentos transmitem vibrações que fragilizam as fundações centenárias.
O quadro se agrava quando há sobrecarga, ou seja, um andar transformado em depósito, uma laje reforçada sem cálculo estrutural, um novo uso que o prédio nunca foi projetado para suportar.
“Sobrecargas decorrentes de uso inadequado ou modificações não previstas podem comprometer a estabilidade estrutural, enquanto alterações nas fundações, muitas vezes provocadas por escavações ou obras vizinhas, levam a recalques diferenciais”, explica.
Patrimônios históricos: o X da questão
O desafio, segundo Marco, é equilibrar a preservação de patrimônios históricos com as exigências de segurança. O tombamento protege o valor histórico, mas impõe limites técnicos à intervenção. Muitos prédios tombados não podem receber reforços visíveis ou alterações em seus elementos originais, o que torna a restauração mais complexa e cara.
Ainda assim, há soluções possíveis: reforços estruturais com fibras de carbono, microinjeção de resinas para consolidar paredes e fundações com estacas raiz, todos métodos discretos e compatíveis com o caráter histórico.
“Entre as possibilidades estão o uso de fibras de carbono para reforço de vigas e lajes, microinjeção de resinas em fissuras para consolidar elementos sem modificar sua aparência, além do emprego de estacas raiz para reforço de fundações sem a necessidade de grandes modificações”, acrescenta.
Sinais silenciosos e efeito dominó
Em muitos casos, os sinais de alerta estão nas paredes, mas passam despercebidos.
Os principais sinais estruturais que indicam risco de colapso incluem fissuras espessas e profundas em paredes, lajes e pilares, recalques diferenciais perceptíveis, como pisos desnivelados ou afundados, deformações visíveis em elementos estruturais, vigas e pilares, corrosão avançada de elementos metálicos, descolamento de revestimentos e infiltrações persistentes.
Marco Aurélio Chaves, professor da UFF
A proximidade entre os prédios também agrava o perigo. Nas áreas mais adensadas do Centro, um desabamento pode desencadear efeitos em cadeia, comprometendo imóveis vizinhos e até desabamentos secundários, como num efeito dominó:
“Além do risco de danos estruturais diretos por impacto, há possibilidade de propagação de vibrações e desestabilização das fundações, especialmente quando estas são compartilhadas entre os edifícios ou são muito próximas. Isso pode causar o aparecimento de trincas, recalques diferenciais e até desabamentos secundários”, explica Chaves.
Ainda segundo o professor, há outros exemplos emblemáticos de imóveis históricos em risco. São eles:
Antigo Automóvel Clube do Brasil — Localizado na Rua do Passeio, nº 90, o imponente prédio em estilo neoclássico estava abandonado há quase 20 anos. Segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura, o local já passa por obras de restauração.

Prédio na esquina da Avenida Marechal Floriano com a Avenida Tomé de Souza — Edifício centenário de quatro andares e 62 janelas, onde funcionou um hotel, está vazio e em risco de desabar, com árvores crescendo na fachada.
Palacete Imperial — Na esquina da Rua Visconde do Rio Branco com o Campo de Santana, o palacete de 1862 está abandonado há quase duas décadas.
Rua Senador Pompeu — Em março deste ano, um casarão abandonado na Rua Senador Pompeu, no Centro, desabou parcialmente e deixou uma vítima morta.
No mesmo dia do acidente na Rua do Pompeu, a representação do Itamaraty no Rio de Janeiro solicitou à Defesa Civil estadual vistorias em 37 endereços de imóveis que circundam a sede do órgão na região.
Segundo dados da Defesa Civil Municipal levantados pela Agenda do Poder, entre 2020 e 2025 foram realizadas mais de 4,5 mil vistorias nas regiões do Centro e da Zona Portuária do Rio. As inspeções incluíram análises técnicas em imóveis com rachaduras, danos estruturais, desabamentos e ocorrências pós-incêndio.
Nesse mesmo período, 217 prédios foram interditados por risco à segurança. Desses, 24 já foram liberados após reparos e obras executadas pelos proprietários, o que permitiu a reocupação dos imóveis.
A Câmara de Vereadores aprovou em primeira discussão, na terça (21), que dá à prefeitura o poder de intervir em imóveis particulares que apresentem risco estrutural. A medida, que ainda precisa passar por segunda votação, permite ao município realizar obras emergenciais, desapropriar ou até demolir prédios e casarões abandonados, cobrando a conta do proprietário.
De autoria do presidente da Casa, Carlo Caiado (PSD), e de outros quatro vereadores, o projeto busca criar uma ferramenta legal para agir nos casos em que a Defesa Civil constata o perigo, mas o dono do imóvel, mesmo notificado, não toma nenhuma providência.
A legislação engrossa o caldo das revitalizações da prefeitura, juntando-se às leis do Reviver Centro e da Reconversão de Imóveis, aprovadas na última legislatura.
Vazios urbanos
O abandono no Centro do Rio não é apenas questão de degradação física, mas também de lógica urbana, explica Andrea Borde, professora do Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ):

“Não adianta dar uma destinação de uso a um lote subutilizado ou vazio sem dar atenção aos lotes inteiros, à área de entorno, à própria quadra. Na área central, há quadras predominantemente ocupadas por vazios urbanos, ou seja, terrenos que perderam o uso, a ocupação, ou estão em ruínas”, detalha.
Na Avenida Passos, por exemplo, um terreno que deveria ter abrigado o Ministério da Fazenda, próximo ao Beco do Tesouro e da antiga Escola de Belas Artes, permanece vazio há anos. O espaço virou estacionamento do INSS, e a renda vinda dos carros estacionados supera qualquer uso que pudesse devolver o terreno à cidade, denota a especialista.
Parte desses vazios se formou quando antigos prédios foram demolidos ou deixados em ruínas. “Na área central, há quadras inteiras onde os lotes estão sem uso ou em ruínas. E quando se fala em revitalizar, a prefeitura e o mercado costumam olhar apenas o terreno, sem considerar o entorno. Não se revitaliza um lote: revitaliza-se o tecido urbano”, pontua.
A arquiteta defende que a ocupação desses espaços precisa ir além da restauração estética. Há ainda exemplos de reaproveitamento simbólico, como o Parque das Ruínas, em Santa Teresa, onde o trabalho de recuperação manteve o diálogo entre o antigo e o novo.
“Foi mantido sem o revestimento, mas o trabalho com recuperação da estrutura foi significativo. A gente quer preservar os conjuntos urbanos, os sobrados que compõem o centro histórico das cidades mas esquece que eles só chegaram até hoje porque as pessoas continuaram morando ali. Foram essas pessoas, esses pequenos núcleos, que fizeram esses sobrados chegarem até o dia de hoje”, analisa a professora.
Nessa linha, a revitalização deve articular cultura, habitação e sustentabilidade, e isso passa pela reinterpretação do que se entende por patrimônio, já que nem tudo que é antigo também é histórico.
Às vezes uma edificação não tem um valor de excepcionalidade do ponto de vista da arquitetura ou do jardim, nem da paisagem, mas é fundamental para a identidade daquela área. É por isso que a gente chama de patrimônio cultural, patrimônio histórico, ambiental, imaterial. É a cultura, o modo de vida.
Andrea Borde, professora da UFRJ
Manutenção preventiva X corretiva
A sucessão de incêndios e desabamentos faz parte de um ciclo que a cidade ainda não conseguiu romper: o da reação tardia. A maior parte das manutenções são as chamadas “corretivas”, executadas basicamente quando o estrago já está feito.
Conforme recomenda o professor Julio César da Silva, existem alternativas práticas que unem prevenção e formação técnica. Uma delas é que o município aproveite o programa Crea Júnior, do Conselho Regional de Engenharia, para criar um mapeamento permanente das edificações em risco através de estudantes de engenharia que formariam um tipo de “força-tarefa”, inspecionando imóveis e sinalizando às prefeituras.
“Os alunos poderiam fazer levantamentos prévios em toda a cidade, criar uma matriz de prioridades e permitir que a prefeitura atuasse nos locais mais críticos”, sugere.
Ainda segundo o engenheiro, o custo de uma obra emergencial pode ser até cinco vezes maior do que o de uma ação preventiva.
“Hoje, o poder público trabalha muito mais com gestão de crise, ou seja, reage depois do problema, do que com gestão de risco, que é preventiva. Só que a prevenção exige planejamento, projeto e monitoramento”, conclui.
Recomendações importantes
Atente-se a sinais de alerta na edificação
- Rachaduras novas que se alargam ou mudam de posição.
- Deslocamentos visíveis de paredes, pisos ou tetos.
- Estalos, vibrações ou barulhos incomuns que não eram habituais.
- Infiltrações graves ou água escorrendo em locais estruturais.
Suspenda o uso do imóvel ou da área afetada até avaliação técnica
- Em caso de risco visível, interrompa o acesso à área ou prédio.
- Mantenha distância da edificação até que um profissional habilitado avalie.
- Em prédios com múltiplas unidades, informe imediatamente síndico ou responsável.
Acione imediatamente a Defesa Civil
- Ligue para 199 para comunicar abalo estrutural ou risco iminente.
- Forneça endereço completo, referências, descrição dos sinais observados.
- Não confie apenas em “esperar para ver” — a prevenção salva vidas.
Evite interferências e modificações severas sem autorização
- Não realize escavações, cortes de vigas ou remoção de elementos estruturais sem projeto e supervisão técnica.
- Evite remover vegetação ou camadas de proteção em encostas ou imóveis adjacentes.
- Qualquer obra ou intervenção deve ser comunicada ao síndico ou proprietário e, se necessário, à Prefeitura.
Organize a documentação do imóvel e a vistoria preventiva
- Tenha em mãos: laudo de engenharia, termo de responsabilidade técnica, alvarás.
- Síndicos/proprietários devem contratar engenheiro ou técnico para vistoria periódica.
- Registre relatórios, fotografias e histórico de manutenções — facilitam fiscalizações e ações emergenciais.
Mantenha um plano de evacuação ou retirada de emergência
- Defina rotas de saída seguras, pontos de encontro e responsáveis.
- Oriente moradores ou usuários do imóvel sobre o que fazer caso o abalo se agrave.
- Mantenha luzes de emergência, lanterna, kit com documentos importantes.
Acompanhe alertas meteorológicos e de risco da cidade
- Em casos de chuvas intensas, ventos fortes ou deslizamentos, o imóvel pode sofrer danos adicionais.
- Acesse o site ou app do Sistema Alerta Rio para checar alertas no município.
- Em situações de aviso, evacue a zona de risco ou imóvel vulnerável.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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