Durante pelo menos dois séculos, boa parte da atual Zona Sudoeste da Guanabara era uma das maiores fábricas de açúcar do Brasil colonial. Não metaforicamente. Havia, literalmente, 11 imensos engenhos de cana-de-açúcar espalhados em Jacarepaguá. Eles funcionavam movidos a rio, a boi e à brutalidade da escravidão, produzindo riqueza que bancou igrejas, títulos de nobreza e, lá no século XX, até um hospício. 

Se isso parece distante demais da rotina de quem pega o BRT na Taquara para levar os filhos até a praia na Barra, é porque praticamente ninguém conta essas histórias. Jacarepaguá não é Ouro Preto, nem tem placas de turismo histórico em cada esquina. Mas suas ruínas estão lá. Algumas tombadas pelo IPHAN, outras quase demolidas por escolas que precisaram “modernizar a fachada” e uma delas recém-comprada pela Prefeitura depois de décadas de promessas. 

De Salvador Correia de Sá aos herdeiros dos antigos barões, passando por Dom Pedro II que veio tomar ares e despachar o governo longe da corte, a região, que já foi chamada de “Sertão Carioca” guarda segredos e construções seculares. Sem contar histórias deliciosas como a do pintor Cândido Portinari, que foi almoçar com um amigo e acabou imortalizando um dos mais misteriosos pontos da região. 

Escravizados nos canaviais de Jacarepaguá (Crédito: Reprodução)

Origem 

Muito antes de ser um dos bairros mais populosos, complexos e com um dos trânsitos mais temidos da cidade, Jacarepaguá era uma vasta extensão de terras banhadas por rios e lagoas, habitada pelos tupinambás. O nome é quase um poema geográfico: yakare’pá ou “lagoa dos jacarés” (de yakare, jacaré + kwa’pa, lagoa), uma clara referência à abundância dos tais répteis na Lagoa de Jacarepaguá. 

Em 1594, o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá, em um ato que hoje em dia culminaria numa CPMI estridente, concedeu vastas terras da região aos seus filhos, Martim de Sá e Gonçalo Correia de Sá, dando início à implantação de fazendas e engenhos. Essas sesmarias abrangiam praticamente toda a planície entre a restinga da Barra da Tijuca e áreas que hoje correspondem à Zona Norte da cidade. 

A partir daí, Jacarepaguá tornou-se uma fronteira agrícola estratégica. Canaviais, criação de gado e pequenas lavouras passaram a abastecer uma Guanabara ainda em formação, além de produzir açúcar para exportação. A região, formada por lagoas, rios e terrenos férteis, oferecia condições ideais para a instalação dos engenhos que estruturariam sua economia por quase dois séculos. 

Que história é essa de “Planície dos Onze Engenhos”? 

Entre os séculos XVII e XVIII, a Baixada de Jacarepaguá ficou conhecida como “Planície dos Onze Engenhos”, expressão que designava um número literal de propriedades agrícolas voltadas à produção de açúcar. A denominação é incontornável e aparece em registros históricos e estudos sobre a ocupação da região. 

Entre esses engenhos estavam: Engenho D’Água, Engenho da Serra, Engenho da Taquara, Engenho Velho da Taquara, Engenho Novo (posteriormente área da Colônia Juliano Moreira), Engenho de Fora, Engenhos do Rio Grande (atual condomínio Passaredo) além das fazendas do Camorim, Vargem Grande, Vargem Pequena (que pertenciam à ordem beneditina) e o Engenho da Restinga, Barra.  

O motor de toda essa produção era o trabalho escravizado. A Baixada de Jacarepaguá foi uma das maiores áreas escravagistas da cidade, o que também a tornou palco importante da resistência negra: vários quilombos se formaram na região, muitos deles situados onde hoje fica o Parque Estadual da Pedra Branca.  

Esses quilombos são considerados guardiões da cultura negra e parte do patrimônio imaterial do Brasil. A partir do século XIX, a cultura do café, mais rentável no mercado internacional, substituiu progressivamente a cana-de-açúcar, e os grandes engenhos foram se desfazendo, vendendo terras, parcelando sesmarias. O que a urbanização acelerada do século XX não engoliu, o tempo foi corroendo. 

O pioneiro Engenho D’Água 

O Engenho D’Água é, provavelmente, o mais antigo registro de atividade açucareira formal em Jacarepaguá. Segundo a historiadora Sílvia Peixoto, as terras começaram a ser cultivadas pelos Correia de Sá ainda em torno de 1590, sendo o Engenho D’Água construído aproximadamente nessa época, antes mesmo do Engenho do Camorim (1622).  A propriedade estava localizada nas terras de Martim Correia de Sá, filho de Salvador Correia de Sá, e deu origem ao topônimo que persiste até hoje: a Estrada do Engenho D’Água, na região do atual bairro do Anil. 

Três razões principais tornam o Engenho D’Água excepcional. A primeira é sua antiguidade: trata-se de um dos primeiros engenhos de cana-de-açúcar construídos no Rio, erguido ainda no período colonial inicial pelos fundadores da região. A segunda é sua vinculação a personagens históricos centrais; a família Correia de Sá governou o Rio por décadas e foi decisiva para a colonização portuguesa. E a terceira, e sinceramente talvez a mais importante, é que a edificação sobreviveu.  

Enquanto a maioria dos engenhos da baixada desapareceu completamente sob o asfalto e o concreto, a Casa da Fazenda do Engenho D’Água continua de pé e foi tombada pelo IPHAN em 30 de julho de 1938, um dos primeiros tombamentos da história do instituto. 

Como era e o que restou do Engenho D’Água? 

A edificação que chegou até nós é descrita com precisão na ficha do IPHAN (processo 85-T-1938): trata-se de uma casa de engenho de açúcar do século XVIII, constituída de construção térrea, com sobrado parcial formando mirante. Possui avarandados tanto na fachada frontal quanto na dos fundos, um recurso arquitetônico típico das construções rurais da região da Baía de Guanabara, que garantia circulação de ar e proteção das chuvas tropicais.  

À esquerda da casa fica a capela doméstica, que já perdeu sua decoração interior original, conservando apenas as esquadrias originais.  Um dos detalhes mais fascinantes da edificação são os tijolos do avarandado principal: muitos deles trazem estampada a marca antiga “Engenho d’Água”, uma identificação de fabricação que era comum nos grandes engenhos coloniais e que hoje funciona como uma assinatura arqueológica. 

Agora, o estado atual de conservação é outro assunto. Pesquisadores que o visitaram descrevem a sede do Engenho D’Água como um bem “silenciado”. É uma joia colonial cercada de prédios e invisível para a maior parte dos cariocas.  Apenas os jardins podem ser visitados, enquanto o interior do casarão não está aberto à visitação regular. 

Sede da Fazenda da Baronesa (Crédito: Reprodução)

Açúcar, café e D. Pedro II despachando na sala 

Na Estrada Rodrigues Caldas, existe uma fazenda que concentra mais história colonial por metro quadrado do que qualquer museu da Zona Oeste: o Engenho da Taquara, mais conhecido como Fazenda da Baronesa: um colosso que ia da atual Avenida Edgard Werneck, passando pelo Largo do Tanque, até o Maciço da Pedra Branca 

A família que deu nome ao lugar como conhecemos hoje foi a dos Telles de Menezes, que ao longo do século XVIII foi comprando engenhos até se tornar a maior proprietária de terras de Jacarepaguá.  O imperador Dom Pedro II concedeu ao seu proprietário o título de Barão da Taquara. Após sua morte, a propriedade ganhou o apelido de Fazenda da Baronesa, em referência à segunda esposa do Barão. 

Entre novembro e dezembro de 1843, Dom Pedro II hospedou-se na fazenda para que a princesa Januária pudesse se recuperar de uma enfermidade. Durante dois meses, o imperador despachava os negócios de Estado de lá.  

Uma fazenda de novela das nove 

Já o conjunto arquitetônico da Fazenda da Taquara é descrito pelo IPHAN como “um exemplo das construções rurais da região da Baía de Guanabara, com amplo avarandado e colunas toscanas de alvenaria”. A sede foi reconstruída em 1738 e existe até hoje. 

O complexo conta com armazéns, cavalariças, alpendre, cruzeiro, pátio principal com fonte e diversos pátios internos e externos. Nos fundos da fazenda, quase escondidas entre a vegetação, são visíveis as ruínas de construções citadas nos inventários históricos e fragmentos de objetos usados pelos moradores originais. 

Recentemente a fazenda ganhou notoriedade nacional ao ser escolhida como cenário da nova versão da novela Renascer, da TV Globo, em 2024, com cenas do personagem José Inocêncio, interpretado por Marcos Palmeira, gravadas em suas instalações.  

Hoje, a Fazenda da Baronesa não só está de pé como acaba de ganhar um capítulo novo em sua história secular. Em 31 de janeiro de 2026, a Prefeitura do Rio assinou o termo de aquisição da propriedade e anunciou a criação do Parque Taquara Fazenda Baronesa, um complexo público voltado ao lazer, à cultura e à preservação ambiental. 

O aqueduto do Engenho Novo da Taquara (Crédito: Reprodução)

A Colônia Juliano Moreira é o antigo Engenho Novo? 

Sim. Em 1664, o terreno da futura Colônia Juliano Moreira foi desmembrado da Fazenda da Taquara até que em 1778, seu herdeiro Francisco Teles Barreto de Menezes ordenou a construção de um novo engenho em uma parte mais baixa do terreno, que ficou conhecido como Engenho Novo da Taquara. O destaque foi a construção de um aqueduto para trazer água do Maciço da Pedra Branca e mover as engrenagens.  

Em 1903, o médico baiano Juliano Moreira tornou-se diretor-geral da Assistência a Alienados do Distrito Federal. Preocupado com a superlotação das colônias da Ilha do Governador, ele identificou o engenho como o local ideal para uma nova colônia agrícola: área ampla, com matas virgens, rios e cachoeiras. Em 1912, o governo federal iniciou a desapropriação das terras.  

Ao longo do século XX a história da propriedade foi controversa. Durante a Ditadura Militar, a colônia virou depósito humano chegando a abrigar cerca de cinco mil pacientes nos anos 1960, com lobotomias e choques elétricos como práticas rotineiras, e terminou o século em processo de desativação e municipalização. 

Grande parte de sua vasta área foi cedida para programas de habitação popular, criando bairros como a própria Colônia, e para projetos urbanísticos, como o Parque Linear do Rio Grande. É um território em profunda transformação social e urbana, carregando as marcas de um passado de isolamento e sofrimento. 

E o mais importante. Hoje, no Núcleo Histórico Rodrigues Caldas, o primeiro conjunto de pavilhões construídos, onde ainda há vestígios arqueológicos do antigo engenho, como o aqueduto do século XVIII, funciona o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea, dedicado à obra do paciente Arthur Bispo do Rosário, artista negro sergipano que viveu 49 anos internado e transformou sua cela em ateliê. O museu preserva seu acervo, tornando a Colônia um espaço de reflexão sobre exclusão, arte e resistência.   

O portão de Portinari 

O Engenho da Serra é o fantasma mais completo da lista dos onze. Fundado por volta de 1690 por Manuel Paredes, sua fazenda ocupava uma área generosa abrangendo partes da Freguesia, do Pechincha, do Barro Vermelho e da Covanca. Uma das vias que a cortava é a atual Estrada do Pau Ferro. Mas tudo o que se sabe dela é que foi desmembrada tantas vezes que só em 2024 foram feitas duas descobertas surpreendentes.  

Durante as obras de instalação de uma escola em um terreno na Estrada dos Três Rios, nº 1801, pesquisadores identificaram uma casa como uma das mais antigas construções de Jacarepaguá, datando da década de 1690. E ao que tudo indicava seu portão era exatamente o mesmo do antigo Engenho da Serra. 

O óleo sobre tela Chácara em Jacarepaguá, de Cândido Portinari (Crédito: Reprodução)

E não para por aí. No início do século XX, esta casa fazia parte de uma chácara que pertencia a José Mariano Filho, irmão do poeta Olegário Mariano, que tinha por hábito organizar badalados almoços dominicais. E um desses rega-bofes deixou marcas permanentes na história da arte brasileira: o pintor Cândido Portinari frequentador assíduo, imortalizou o portão da chácara em uma tela a óleo de 60 x 70 cm, intitulada Chácara em Jacarepaguá, assinada e catalogada no Projeto Portinari sob registro FCO-3380.  

O mais curioso é que todas essas descobertas só foram possíveis porque o projeto das obras previa a demolição da antiga casinha e a “reforma” da fachada. Os moradores se mobilizaram e o resultado foi positivo: o colégio recuou, o projeto de fachada foi revisto com a conservação do portão, e a escola assumiu publicamente o compromisso de mantê-lo no número 1801 da Estrada dos Três Rios, para que gerações de alunos entrem e saiam pela mesma porta que um dia enquadrou o olhar de Portinari.  

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