No coração da Baixada Fluminense, entre as ruas movimentadas e os bairros densamente povoados de Nova Iguaçu, resiste um fragmento raro do Brasil colonial: a antiga Capela de Nossa Senhora de Guadalupe, em Marapicu. Pouco sinalizada, quase invisível ao olhar apressado, ela guarda em suas paredes simples mais de dois séculos e meio de história. Construída no século XVIII por um poderoso senhor de terras, a capelinha dorme a quase três séculos num silêncio que seria digno de admiração, não fosse o fato de que ele é produto do mais puro abandono.
Quem passa pela Estrada de Madureira e não sabe onde olhar jamais vai encontrá-la. Não há placa, não há monumento, não há sequer um papelzinho colado no portão. O Brasil tem um talento singular para preservar no papel aquilo que abandona de fato. Mas a boa notícia é que a capelinha sobreviveu a este, digamos, talento nacional.
Mas nem o abandono apaga o que ela representa: uma das mais antigas construções religiosas da Baixada Fluminense ainda de pé, testemunha silenciosa de um tempo em que estas planícies eram perfumadas pelo melaço de cana-de-açúcar, ecoavam rezas em latim e carregavam, nas costas de pessoas escravizadas, a riqueza de uma colônia.

Engenhos, rios e muita cana
A Baixada do século XVIII não era a região periférica e densamente povoada que conhecemos hoje. Era, antes de tudo, uma vasta planície de terras férteis e úmidas, atravessada por rios que serviam de estrada, correio e meio de sobrevivência. Pelos rios que cortavam a região a ocupação portuguesa foi se consolidando, e dezenas de engenhos de açúcar, capelas e pequenos povoados foram surgindo
As bacias dos rios Meriti, Sarapuí, Iguaçu, Inhomirim, Estrela e Magé foram as primeiras a serem ocupadas. Em suas margens nasciam os portos de embarque — bastante movimentados com a presença de tropeiros e de embarcações que subiam e desciam levando mercadorias da Europa para os engenhos e destes com seus produtos para a cidade do Rio de Janeiro.
Nas estatísticas realizadas pelo governo do Marquês de Lavradio, na segunda metade do século XVIII, havia dois engenhos e 70 escravos em Iguaçu, e sete com 236 escravos em Jacutinga. Esses números frios escondem uma realidade de trabalho brutalmente violento: foram mãos escravizadas que derrubaram a mata, plantaram a cana, alimentaram as caldeiras dos engenhos e, não raro, construíram as próprias capelas onde seus senhores rezavam. Sem elas, não haveria açúcar. Sem açúcar, não haveria fazendas. E sem fazendas, não haveria capelas.
Um Império de Terras Às Sombras da Serra
Para entender a Capela de Nossa Senhora de Guadalupe, é preciso primeiro entender quem mandava naquelas terras. E quem mandava era o capitão-mor Manuel Pereira Ramos de Lemos e Faria. As terras tinham origem antiga: a fazenda passou nas mãos de diversos proprietários, até chegar nas mãos do capitão no princípio do século XVIII.
Era uma propriedade colossal para os padrões da época. As terras eram extensas, confrontando com o Engenho de Maxambomba (atual centro de Nova Iguaçu), Engenho da Posse (atual bairro da Posse), e seguia em direção ao Engenho do Piranga e Engenho de Cabuçu, alcançando a localidade que depois seria chamada de Morgadio de Marapicu. O capitão ainda possuía o Engenho de Nossa Senhora de Guadalupe, nome que, não por acaso, também batizaria a pequena capela que ele mandaria construir.
A sucessão desse conjunto imenso de terras, engenhos e escravizados durou gerações. Um império construído sobre cana, fé e sofrimento alheio, como era o padrão da colônia.

A capela: barroco, lioz e um altar desaparecido
A Capela de Nossa Senhora de Guadalupe apresenta características típicas da arquitetura religiosa rural do período colonial: planta simples, fachada sóbria e proporções modestas. Construída provavelmente em alvenaria de pedra e cal, ela reflete mais a funcionalidade do que a ostentação, diferentemente das igrejas urbanas barrocas.
Seu estilo reúne marcas de diferentes épocas, predominando um gosto barroco, com provável influência jesuítica. Acoplada à nave, do lado esquerdo, há pequena sineira. Destaca-se a portada lavrada em lioz, uma pedra calcária portuguesa muito utilizada em construções coloniais e símbolo do prestígio e da ligação com a metrópole. A sua presença na portada da capelinha indica que o capitão não poupou recursos.
Totalmente depredada, não há mais nada no interior da histórica capela, integrada a um terreno de escola estadual. Os saqueadores não pouparam nem o altar. Hoje, para visitá-la, é preciso pedir autorização à escola em cujo terreno a capela foi incorporada. Um patrimônio nacional tombado, acessível mediante boa vontade de um porteiro.
Fé, pompa e política no Sertão Fluminense
A capela foi consagrada com uma procissão solene em 4 de março de 1750. No contexto da colônia, uma procissão de consagração não era apenas um ato de fé, era um acontecimento político e social de primeira ordem. Reunia senhores de terras, autoridades eclesiásticas, agregados, tropeiros e, quase certamente, pessoas escravizadas que serviam nos engenhos da região.
Nosso capitão Manuel Pereira Ramos já havia passado por esse ritual antes, quando da construção da Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Marapicu, em 1736. A capela de Nossa Senhora de Guadalupe seria, portanto, a segunda grande construção religiosa do capitão na mesma região. O que sugere um homem que entendia a fé como instrumento de poder, além de convicção pessoal. A procissão de 1750 foi o capítulo de abertura de um livro que ainda levaria três anos para ser concluído.
Por que ela foi construída em uma elevação?
A escolha não é acidental ou supersticiosa. A Baixada Fluminense, como o próprio nome indica, é uma região de terras baixas sujeita a inundações frequentes. Construir uma capela numa elevação, mesmo que modesta, protegia a estrutura das cheias que regularmente cobriam as planícies de várzea.
Mas havia também uma razão simbólica e de poder: a capela erguida acima do nível das demais construções afirmava visualmente a presença da Igreja e, por extensão, do senhor que a havia financiado. Era possível vê-la de longe, do caminho, do engenho, do rio. Ela dominava a paisagem como seu capitão dominava as terras.

O que sobrou da Fazenda da Posse?
Este é um dos episódios mais lamentáveis na história da preservação do patrimônio histórico da região. Em 1971, enquanto o INEPAC finalizava o tombamento da propriedade, a sede foi demolida e só a capelinha sobreviveu.
A perda foi irreparável e é um retrato cruel da relação do Brasil com sua memória: enquanto templos sobrevivem pela fé, as casas-grandes, símbolos do poder oligárquico e da escravidão, muitas vezes são varridas do mapa para dar lugar a loteamentos ou conjuntos habitacionais.
A capelinha é hoje uma ilha solitária do que já foi um império do açúcar.
O mistério do cemitério atrás da capela
A prática de enterrar os mortos nas imediações das igrejas era universal no período colonial. Um decreto do governo proibiu a partir de 1840 que quaisquer sepultamentos fossem realizados dentro dos templos. Por isso foram criados os primeiros cemitérios públicos, os chamados “campos santos”.
E aqui mora uma questão. Apesar de inúmeras ossadas terem sido localizadas no terreno dos fundos da capela, não existe um único registro de quem ou quantas pessoas foram sepultadas por ali. Parentes de senhores de engenho, escravizados, indigentes e dizem, até o capitão Manuel Pereira Ramos encontrou ali seu descanso eterno.


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