A Ilha da Boa Viagem, em Niterói, cabe inteirinha em um quarteirão, mas transborda história. Separada do continente por poucos metros de mar, ela é um desses lugares que “todo mundo conhece”, mas quase ninguém de fato sabe do que se trata pra valer. Pequena, branca, fotogênica e cheia de camadas, do ponto de vista jornalístico, os fatos são claros: a ilha abriga uma capela dedicada à Nossa Senhora da Boa Viagem, estruturas defensivas erguidas no período colonial, e esteve envolvida em episódios sanitários, militares e políticos decisivos para a história fluminense.

Vista de longe, a capelinha branca parece inocente. Mas sua fachada austera esconde um passado repleto de dramas épicos, histórias de fé que calculavam o dízimo por milha náutica e um teto que, segundo relatos, não apontava para o céu, mas para o fundo do mar, pintado com cenas de naufrágios. 

Mas, convenhamos, chegar lá exige um pouco de fé e não apenas do tipo religioso. A subida, embora pavimentada e bonita, cobra seu preço em suor sob o sol impiedoso de Niterói, lembrando ao visitante moderno que a penitência faz parte do pacote turístico. É curioso pensar que aquele pedaço de terra, hoje cenário perfeito para selfies com o Pão de Açúcar ao fundo, já foi o último ponto de esperança para marinheiros apavorados e, séculos depois, alvo de canhões furiosos que não queriam saber de reza nenhuma.

Mas o que torna a Boa Viagem especial, porém, não é apenas o que aconteceu ali, mas como essas histórias sobreviveram: em relatos de estrangeiros impressionados, em tradições orais de pescadores, em ruínas adaptadas ao tempo e em restaurações que tentam, até hoje, equilibrar passado, turismo e preservação.

Vista da Ilha de Boa Viagem | Crédito: Reprodução

Origem

Segundo a história oficial, corroborada por registros do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a ocupação da ilha começou de fato em meados do século XVII. O ano de 1650 é frequentemente citado como o marco inicial da construção da capela de Nossa Senhora de Boa Viagem, embora o processo de edificação tenha se estendido por anos.

Por trás da empreitada estava Diogo Carvalho de Fontoura, um provedor da Fazenda Real que, movido por uma promessa ou pura devoção, decidiu erguer ali um santuário. A escolha do local não foi aleatória: a ilha ficava na entrada da baía, sendo a última visão dos marinheiros que partiam e a primeira dos que chegavam. Convenhamos, um ponto estratégico para o marketing divino.

No entanto, tijolo e cal não se pagam apenas com Ave-Marias. Para manter a capela e garantir sua construção, Fontoura e seus sucessores contaram com um modelo de financiamento que hoje chamaríamos de crowdfunding corporativo.

Segundo registros da Arquidiocese de Niterói e do pesquisador Nireu Oliveira Cavalcanti em seus trabalhos sobre o Rio colonial, os pescadores locais teriam contribuído financeiramente para a obra de uma maneira peculiar: sua doação era proporcional ao sucesso de suas pescarias.

A cada viagem bem-sucedida, um percentual do valor obtido com a venda do peixe era destinado à construção. Desta forma, a distância percorrida e o volume da pesca indiretamente calculavam a contribuição. Esse sistema revela uma profunda simbiose entre a fé, a profissão e o território: N.S. de Boa Viagem era a padroeira que protegia suas jornadas no mar, e eles retribuíam garantindo que ela tivesse uma morada digna.

Como era a capela?

A descrição da decoração interna da capela primitiva é um de seus aspectos mais lamentavelmente perdidos. O inventor e viajante Thomas Ewbank, em seu livro Life in Brazil; or, A Journal of a Visit to the Land of the Cocoa and the Palm (1856), fornece o testemunho mais vívido: ele descreveu o interior como forrado de azulejos azuis e brancos, típicos do período colonial português.

No entanto, o elemento mais extraordinário era a pintura do forro. Ewbank relata que, em vez de cenas celestiais ou gloriosas, o teto era adornado com representações de navios em angústia, lutando contra as tempestades. Essa iconografia única fazia todo o sentido para uma capela dedicada a uma santa protetora das travessias marítimas, servindo como um lembrete dramático dos perigos do mar e da necessidade da intervenção divina.

Castelo da Ilha de Boa Viagem carrega histórias de fé do passado colonial | Crédito: Reprodução

Por que esses elementos decorativos se perderam?

A capela passou por sucessivas reformas, descaracterizações e períodos de abandono ao longo dos séculos XIX e XX. Os valiosos azulejos coloniais foram removidos, as pinturas do teto se perderam e o patrimônio móvel (imagens, altares) foi saqueado ou transferido.

O que se vê hoje é uma estrutura simples, essencialmente as paredes da nave e da capela-mor, com poucos traços de sua antiga ornamentação. O tombamento pelo Iphan ajudou a conter a degradação, mas não restaurou o esplendor original. O que resta é a “casca” histórica, a arquitetura básica que testemunha, em sua própria nudez, a passagem do tempo e a perda de parte de sua história material.

Quando a capela ganhou a companhia de um forte?

Enquanto a fé ocupava o topo, a guerra ocupava a base. O Fortim da Boa Viagem começou a ser erguido ainda no final do século XVII, mas foi no século XVIII, especificamente a partir das invasões francesas a posição estratégica da Ilha da Boa Viagem ganhou importância militar.

O forte tinha a função de cruzar fogos com as fortalezas de Santa Cruz (em Jurujuba) e São Luís (na Praia da Imbuí), criando uma linha de defesa para a entrada da Baía de Guanabara e para o acesso ao porto de Niterói. A capela foi mantida dentro do perímetro da fortificação, que também incluía baterias de canhões, quartéis e um depósito de pólvora.

A ilha já foi usada como local de quarentena?

Em 1810, o Rio de Janeiro foi assolado por uma epidemia de febre amarela. Diante da crise sanitária e da falta de instalações adequadas na cidade, as autoridades, à época da Corte Portuguesa no Brasil, buscaram locais de isolamento, especialmente para marinheiros ingleses e escravizados que chegavam com doenças contagiosas ou escorbuto.

A Ilha da Boa Viagem, por ser de fácil controle de acesso (especialmente na maré alta) e distante dos centros populacionais, foi um dos locais escolhidos para servir como uma espécie de lazareto ou hospital de isolamento temporário. Doentes, principalmente entre as populações mais pobres, foram levados para a ilha numa tentativa desesperada de conter o contágio.

O episódio, registrado em crônicas de saúde pública da cidade, marca um capítulo sombrio da história da ilha, transformando momentaneamente um local de fé e defesa em um espaço de segregação e sofrimento durante uma crise epidêmica.

Ilha serviu como ponto de isolamento durante a crise sanitária da febre amarela | Crédito: Reprodução

Niterói bombardeada

Sem sombra de dúvida, fora o posterior abandono, o pior momento da ilha viria durante a Revolta da Armada em 1893. Neste conflito, onde a Marinha, sob o comando do Almirante Custódio de Melo, se rebelou contra o governo do Presidente Floriano Peixoto. A Baía de Guanabara virou um tabuleiro de guerra e Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro, foi um dos principais cenários dos combates.

As forças legalistas (florianistas) ocuparam a Ilha da Boa Viagem, utilizando o antigo forte como ponto de artilharia. Em retaliação, os navios rebeldes, fundeados na baía, bombardearam intensamente a ilha e a cidade de Niterói entre setembro de 1893 e março de 1894. A capela ficou em ruínas por anos. O santuário que protegia os marinheiros das tempestades não conseguiu se proteger da artilharia dos próprios compatriotas.

O renascimento

Após décadas do bom e velho “chove não molha” burocrático, onde a ilha alternou períodos de abandono com manutenções tímidas, uma intervenção definitiva começou a tomar forma em 2021.

A Prefeitura de Niterói, em parceria com o Iphan, investiu cerca de R$ 5,5 milhões na restauração completa do complexo. As obras envolveram a recuperação estrutural da capela, a estabilização das ruínas do fortim e a melhoria da acessibilidade (incluindo a ponte e as escadarias).

A ilha foi reaberta para visitas guiadas e eventos religiosos, devolvendo à cidade um de seus cartões-postais mais complexos. O restauro não tentou “inventar” um passado novo, mas preservar as cicatrizes do tempo, como as marcas de bala da revolta da Armada. Hoje, ao subir as escadas, o visitante pisa sobre camadas de história que foram, finalmente, tratadas com o respeito que a “Boa Viagem” sempre mereceu.

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