Nilópolis pode até ser a menor cidade do Rio de Janeiro, mas sua história é digna de uma novela épica. A história começa lá pelos anos 1530, quando Martim Afonso de Sousa distribuiu terras como quem reparte uma quentinha. Uma dessas porções foi parar nas mãos de Brás Cubas. Não o defunto-autor, mas um português de carne, osso e bigode militar que, séculos depois, seria confundido com o personagem machadiano. O Brás Cubas que mora no nosso coração jamais lembrou da Baixada, talvez por não ter vivido para ver o calçadão ou a Beija-Flor arrastando multidões.
Relevando esse equívoco histórico digno de uma redação do Enem mal revisada, a região evoluiu de “fazendão do século XVII” para “mini França tropical”, passando por capelas coloniais, ciclos econômicos exaustos e um loteamento que transformou o que era mato em endereço. Finalmente, no século XX, cansada de ser citada apenas de tabela, Nilópolis se emancipou em 1947 e o resto é história, com uma baita bateria de escola de samba ao fundo.
E antes que você pergunte: sim, o nome tem tudo a ver com Nilo Peçanha e nada a ver com Nietzsche, ou qualquer pensador niilista, e o fato desses dois personagens aparecerem numa mesma conversa é coisa que só acontece no Rio de Janeiro.
Nilópolis virou reduto de fé, trilha ecológica, samba de altíssima voltagem e até catálogo de passarinhos. Se você ainda não se convenceu, respire fundo: em apenas 9 km², a cidade entrega mais capítulos do que a novela das nove. E com personagens muito mais interessantes.

História
Tudo começou na década de 1530, quando a região fazia parte da capitania hereditária de São Vicente, pertencente a Martim Afonso de Sousa, que doou uma grande parte das terras a Brás Cubas, porém não personagem machadiano que você pensou, mas o militar português que depois fundaria Santos em 1546.
A confusão é normal, mas sem lastro na história. O protagonista de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, romance de Machado de Assis, publicado em 1881, considerado marco inicial do Realismo no Brasil, é apenas um homônimo que, segundo o livro, vivia no Catumbi e não registrou lembrança alguma da Baixada.
Já seu xará se tornou dono de uma propriedade que incluía as futuras cidades de Nilópolis, São João de Meriti, Nova Iguaçu e Duque de Caxias “constando três mil braças por costa do lombo do Salgado e nove mil braças para dentro do rio Meriti, correndo pela piaçaba de Jacutinga”, e batizou o colosso de Fazenda São Mateus.
Fatiou, passou
Em 1621, parte das terras da antiga sesmaria foi cedida a João Álvares Pereira, que ergueu uma capela em homenagem a São Matheus. Com o tempo, a fazenda chegou a se tornar uma das mais importantes da região dando início ao núcleo urbano.
Quando o ciclo do açúcar perdeu fôlego e o progresso trouxe a ferrovia, o povoado que havia surgido, chamado de São Mateus (em um arroubo de criatividade) e depois de Engenheiro Neiva assistiu as terras da antiga fazendona serem divididas em lotes e começarem a ser vendidas.
Aos poucos, a paisagem rural deu lugar à urbanização, e o que era mato passou a ganhar ruas, casas e sonhos de cidade. Em 21 de agosto de 1947, finalmente, Nilópolis se emancipou politicamente e nascia de forma oficial a cidade que conhecemos hoje.
O que esse nome significa?
Uma homenagem a Nilo Peçanha, primeiro presidente negro do Brasil, que governou apenas 17 meses, de 1909 a 1910, e é tido como o patrono do ensino técnico no país.
Tal qual um hippie fora de seu tempo, ele assumiu prometendo um governo de “paz e amor” e terminou como o criador do primeiro movimento de cunho personalista da política brasileira: o nilismo. De Nilo Peçanha mesmo, não da doutrina filosófica que fazia a cabeça de pensadores como Friedrich Nietzsche. O Rio não é para amadores.

A capela de São Matheus ainda existe?
Sim, embora careça de maior preservação oficial. A primeira construção de Nilópolis foi erguida em 1637 no alto de uma colina, por indígenas e negros escravizados a mando de João Álvares Pereira. Uma senzala da fé naquela terra ainda jovem.
A capela tem estilo colonial simples, paredes caiadas e altar barroco. É pequena, mas guarda séculos de fé. Visitá-la hoje é respirar a ancestralidade de Nilópolis.
É lá que fica o Parque do Gericinó?
O Parque do Gericinó está oficialmente dentro de Nilópolis, embora faça parte de uma área maior, a Área de Proteção Ambiental do Gericinó‑Mendanha (APA), que se estende por outros municípios da Baixada e Zona Oeste da Guanabara.
A área foi cedida ao município pelo Exército em 2008 e transformou-se no parque que hoje é um refúgio verde em meio à cidade mais densa do Brasil. Ele possui cerca de 100 hectares, o equivalente a quase 150 campos de futebol.
Gericinó é o point dos nilopolitanos que querem fugir do concreto. Tem trilhas ecológicas para caminhadas, áreas para piqueniques, ciclovias, pista de skate e, principalmente, onde se pode ouvir pássaros em vez de buzinas. Não à toa, um catálogo recente identificou 34 espécies de aves, além de mamíferos e répteis.

A cidade da Beija-Flor
Falar de Nilópolis sem mencionar a Beija-Flor é como não levar turista para conhecer o Pão de Açúcar. A Beija-Flor foi fundada como bloco em 25 de dezembro de 1948, por um grupo de amigos que se reunia que festejava o Natal.
O nome, as cores (azul e branco) e o símbolo (o beija-flor) foram escolhidos nessa reunião. Já em 1949, o bloco venceu seu primeiro desfile e acumulou títulos até 1953, quando se transformou oficialmente em escola de samba.
Seu crescimento foi lento até os anos 1970, quando passou por uma revolução estética e organizacional. Em 1976, conquistou seu primeiro título no Grupo Especial. A partir daí, tornou-se sinônimo de luxo e inovação nos desfiles.
Hoje, a Beija-Flor acumula 14 títulos do Grupo Especial. Essas vitórias consolidaram Nilópolis como um dos grandes centros do samba carioca, mostrando que a Baixada Fluminense também dita o ritmo da folia.
A história da Beija-Flor é a história de Nilópolis: uma cidade pequena em território, mas gigante em cultura. De bloco de esquina a potência do Carnaval, a escola transformou o samba em ferramenta de identidade e orgulho coletivo.

O que mais dá pra fazer em Nilópolis?
A cidade consegue harmonizar o samba da Beija-Flor e turismo religioso, com visistas à capela de São Matheus ou a Igreja Nossa Senhora da Conceição.
Há mercados de artesanato local, comércios de bairro, feiras, e um calçadão que quebra o galho no dia a dia. Para quem gosta de cultura e história, há também a lembrança da fundação da cidade e sua consolidação.
Como chegar?
Partindo da Guanabara, a viagem até Nilópolis leva cerca de 33 minutos por aproximadamente 35 km, seguindo pela RJ-071 (Via Dutra) e depois pela BR-101. Também é possível ir de trem (ramal Japeri) ou de ônibus intermunicipais, opções bem mais econômicas e bastante usadas.


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