No alto de uma colina entre os bairros do Cachambi e Del Castilho, a Fazenda do Capão do Bispo resiste como quem esqueceu a própria idade. Erguida no fim do século XVIII, tombada pelo Iphan e de cansaço, é uma casa-grande com varanda de colunas toscanas que já viu um Império nascer, uma República tropeçar e o asfalto chegar ao redor — mas continua sem ver um restauro digno de sua relevância histórica.

Reza a lenda, e reza muito, que ali teria sido plantada a primeira muda de café do Brasil. Mas o causo não encontra lastro na realidade e a verdadeira verdade é bem menos romântica: o café entrou no país pelo Pará, em 1727, contrabandeado da Guiana Francesa graças à malandragem do sargento-mor Francisco de Melo Palheta. O Capão do Bispo foi importante para difundir mudas, o que é um grande mérito, mas não o “primeiro” a plantar café, como se Del Castilho fosse uma Paris da Botânica.  

No ano passado veio a notícia alvissareira: o imóvel foi incluído no Novo PAC para restauração. O dinheiro destinado até o fechamento deste texto, porém, é um troco de pinga de R$ 400 mil.

A ideia é instalar no local um Museu da Geodiversidade e um Centro de Estudos Arqueológicos ligado ao Instituto de Arqueologia Brasileiro (IAB), entidade que está correndo seu chapéu de Indiana Jones para fortalecer a grana necessária para todas as reformas. Entre discursos otimistas e a obra, no entanto, há o profundo abismo conhecido como “licitação” — uma especialidade arqueológica brasileira onde o tempo é medido não em anos, nem décadas, mas em inúmeros mandatos.

Local é considerado tesouro arqueológico | Crédito: Reprodução

A história da Fazenda do Capão do Bispo e sua importância

No cartório da memória carioca, o Capão do Bispo entrou por duas portas: a das sesmarias jesuíticas que moldaram o norte da cidade e a do século XVIII, quando a casa-sede tomou forma rural setecentista com varanda frontal e pátio interno. Em torno dela, formou-se um núcleo agrícola que dialogava com a Estrada Real de Santa Cruz e com a expansão urbana futura. E assim ela se tornou importante peça de xadrez no tabuleiro entre engenhos, chácaras e caminhos.

Sua importância é dupla: histórica, como um remanescente raro da arquitetura civil colonial; e pedagógica, um caso de estudo constante em levantamentos acadêmicos e guias oficiais da cidade. Importante? Sem dúvida. Rara? Mais ainda. É estudada por arquitetos, historiadores e guias turísticos que adoram contar essa história de que ela é “testemunho vivo” da época colonial. Mesmo que, pelo estado de conservação, o “vivo” seja mera licença poética.

Por que ela é considerada um exemplo raro da arquitetura colonial portuguesa?

Porque é praticamente um catálogo das soluções lusas para o calorão e a umidade do meio rural setecentista: varanda corrida de colunas toscanas, porão alto para ventilar bastante, pátio interno para organizar a circulação e escada lateral de pedra que já viu mais subidas de escravos e tropeiros que qualquer outro mirante turístico da região.

Lucio Costa e outros pesquisadores identificam o estilo como matriz luso-atlântica, mas o morador do século XVIII chamava mesmo de “fazer a casa não virar uma sauna”. Funciona até hoje, pena que o abandono também.

O que significa Capão do Bispo?

O termo capão é de origem tupi e pode significar tanto “mata redonda” quanto “ilha de mata”. Já o “bispo” em questão é D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco (1731–1805), carioca da gema e nada menos que o primeiro bispo nascido no Brasil. Ele comandou a Sé da Guanabara entre 1773 e 1805, um feito histórico e tanto, embora pouco conhecido fora dos círculos escolásticos.

Não era franciscano, nem beneditino, nem de qualquer outra ordem católica: pertencia ao clero secular, o que significa que seu hábito era apenas o da batina, sem votos monásticos. Ele comprou a fazenda e a batizou com seu título em um golpe de marketing que pela duração funcionou melhor que qualquer campanha de branding do século XXI.

Por que dizem que lá foi plantada a primeira muda de café no Brasil?

 Essa é uma das muitas lendas urbanas recorrentes, que vão e vem dependendo de quem conta o causo. Mas não, não foi. O primeiro cafezal brasileiro nasceu em Belém do Pará, em 1727 por obra do sargento-mor Francisco de Melo Palheta, que surrupiou as primeiras mudas da Guiana Francesa.  

O Capão do Bispo entra na história do café com outro papel: o de berço de difusão de mudas na Guanabara, contribuindo significativamente para o avanço da cultura pelo Sudeste brasileiro. É um crédito local digno e relevante, mas distinto do pioneirismo do Sargento Palheta. Mas a lenda persiste, porque afinal de contas um bom mito turístico sempre rende mais que a verdade no mercado selvagem dos guias de passeios.

Qual é a situação atual da fazenda?

O Capão do Bispo apanhou feio do século XX. Nas décadas de 1950 e 1960 ele foi ocupado por cerca de 30 famílias que causaram danos significativos à estrutura do casarão, que chegou a correr risco de desabamento.  Ainda não havia Guilherme Boulos, e em 1961 o governo da Guanabara pôs a turma para fora e conseguiu realizar a talvez única reforma significativa da vida do imóvel.

Em 1974 a sede foi inaugurada como Centro de Estudos Arqueológicos (CEA), fruto de um convênio entre o Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) e o governo do Estado da Guanabara. Ele funcionou na casa até 2012 e durante esse período, desempenhou papel importante na pesquisa arqueológica no estado do Rio de Janeiro, realizando estudos sobre a pré-história e a história dos povos originários da região.

Assim o casarão foi se deteriorando. Até finalmente ser incluído no mais novo PAC com previsão de restauro e readaptação como Museu da Geodiversidade e um Centro de Estudos Arqueológicos ligado ao Instituto de Arqueologia Brasileiro (IAB). O dinheiro é curto, mas o IAB e a Associação dos Amigos do Capão do Bispo têm mobilizado a sociedade e a comunidade acadêmica para que ele possa, enfim, trocar a condição de “ruína célebre” pela de equipamento cultural — como merece.

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