A palavra não mora na lama

Entre o silêncio e o confronto, a difícil escolha de preservar a palavra em tempos de degradação pública

Há frases que chegam ao mundo já gastas pelo uso dos indivíduos. Não pertencem exatamente a quem as escreveu. Tornam-se uma espécie de utensílio moral da experiência humana.

“Jamais entre em luta com um porco. Ambos sairão sujos, mas só ele vai se divertir com isso.”

A autoria imaginada oscila entre George Bernard Shaw, Mark Twain, Abraham Lincoln, José da Silva, José Sarney e o anonimato criativo das redes sociais desde os tempos do Orkut. Pouco importa. A frase sobrevive porque descreve algo antigo, recorrente e quase banal na vida pública e privada.

Todo tempo produz seus especialistas em lama.

São reconhecíveis. Não pela inteligência, nem pela eloquência. Reconhecem-se pelo prazer da degradação. Entram numa conversa como quem entra numa feira livre de carnes expostas, com barracas abertas em dia de calor em Bangu, na cidade do Rio de Janeiro. Precisam do odor forte, da desordem, do atrito inútil. A ofensa lhes serve como linguagem natural. O exagero, como método. E há sempre uma alegria mal disfarçada quando conseguem rebaixar o ambiente ao nível em que se movem com desenvoltura.

O curioso é que raramente procuram convencer alguém. Convencer exige paciência, escuta, composição. A lama dispensa tudo isso. Basta contaminar. Basta produzir o desconforto geral, embaralhar os sentidos, dissolver nuances. Num ambiente assim, a grosseria ganha a aparência de coragem. A estupidez veste o figurino da sinceridade. E o ressentimento, esse velho funcionário das relações humanas, passa a circular como se fosse lucidez.

Talvez por isso certas discussões terminem antes mesmo de começar. Não por falta de argumentos, mas por excesso de lama.

Há diálogos que lembram salas antigas de biblioteca. A voz naturalmente baixa, a pausa respeitada, o pensamento caminhando sem atropelo. E há outros que se parecem com mesa virada de botequim às duas da manhã. Garrafas quebradas, saliva no ar, frases ditas não para esclarecer, mas para ferir. Nenhuma palavra permanece limpa depois.

A experiência ensina, às vezes tarde, que existe uma forma elegante de recusa. Não responder também é linguagem. Um silêncio pode carregar mais inteligência do que páginas inteiras de indignação. Nem sempre vale a pena descer ao terreno onde a única regra é abandonar qualquer regra.

Os antigos compreendiam isso melhor. Havia entre eles uma certa pedagogia da contenção. Não essa contenção tímida dos que temem o conflito, mas a contenção refinada de quem percebe que algumas disputas degradam mais do que esclarecem. Um ser humano pode perder a razão por excesso de razão diante de quem fez da desrazão um ofício.

As redes contemporâneas, com sua fome de escândalo e velocidade, apenas ampliaram o fenômeno. O insulto tornou-se instantâneo. A lama ganhou fibra óptica. Há pessoas que passam o dia inteiro procurando um adversário eventual para justificar a própria amargura. Não desejam conversa. Desejam repercussão. O ruído lhes dá uma espécie de existência provisória.

Ainda assim, convém preservar a palavra.

Preservá-la do excesso, da vulgaridade, da tentação de transformar toda divergência em guerra pessoal. A palavra é uma das poucas formas de delicadeza que ainda restam na vida pública. Quando ela afunda na lama, algo da própria convivência humana afunda junto.

Talvez a maturidade consista justamente nisso. Saber que existem batalhas que diminuem quem vence. E que há silêncios capazes de conservar intacta a parte mais rara de um indivíduo: sua medida.

Paulo Baía, em 21 de maio de 2026, na cidade do Rio de Janeiro, no bairro do Flamengo.

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