* Paulo Baía

Há livros que não chegam. Acontecem. Atravessam a porta sem pedir licença, reviram os móveis da memória, empurram para fora tudo o que fingimos não ver e abrem, no meio do chão doméstico, uma rachadura por onde escapa o Brasil que inventamos para dormir em paz. São livros que não se oferecem como companhia. São testemunhas. São demandas. São mundos que exigem que o leitor se levante do lugar onde sempre esteve para reencontrar aquilo que esquecera de propósito. Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, é um desses acontecimentos que desestabilizam séculos. Um livro que não se lê. Um livro que nos lê. Um livro que passa a mão sobre a pele do país e revela o corte antigo que ainda sangra sob a maquiagem nacional.

Na primeira página, a narrativa já põe o Brasil diante daquilo que mais teme: sua própria origem. Não origem como mito. Origem como violência. Como se Ana Maria Gonçalves abrisse uma porta escondida no fundo de um porão e dissesse: “Aqui está o que fizemos. Aqui está o que fomos. Aqui está o que continuamos sendo”. A história de Kehinde não é ficção que adorna o passado. É um espelho que devolve ao presente o rosto que tentamos evitar. Um rosto que grita. Que exige justiça. Que exige memória. Que exige coragem. E que exige leitura não no sentido literário, mas no sentido moral. Um Defeito de Cor é um julgamento. E cada leitor é chamado como réu e testemunha ao mesmo tempo.

Ao adentrar o território do romance, sente-se que ele não se apresenta como obra isolada, mas como casa ancestral, como templo desaprumado pelo vento da diáspora, como aldeia que se reconstrói nas palavras, como território sagrado onde os mortos caminham ao lado dos vivos. Há vozes nessa casa. Há cheiro de terra e de mar. Há cantos que vêm muito antes do alfabeto. A autora constrói a narrativa como quem organiza um ritual. Cada frase é tambor. Cada silêncio é cerimônia. Kehinde fala de dentro da história como quem fala de dentro do corpo do mundo. E assim nos conduz por salas onde a verdade respira.

A África que surge em Um Defeito de Cor é uma presença que desloca o olhar. Não a África miniaturizada pelos manuais coloniais. Não a África domesticada pelos discursos oficiais que ensinaram o Brasil a tratar o continente como sombra. Ana Maria Gonçalves devolve sua dignidade. Seu brilho. Sua complexidade política e espiritual. A infância de Kehinde no Daomé reabre, na literatura brasileira, um continente que a elite nacional sempre fingiu desconhecer. É uma África múltipla, organizada, pulsante, intelectualmente sofisticada, atravessada por disputas de poder, comércio, saberes ancestrais, cosmologias que se entrelaçam como árvores antigas. Uma África que, uma vez revelada, torna insustentável a mentira histórica de que o Brasil “civilizou” povos supostamente inferiores. A autora desfaz, com precisão e beleza, a fábula da superioridade europeia. E obriga o país a reverenciar aquilo que negou.

Mas então o mar chega. O mar como faca. O mar como ferida. O mar como corredor de morte. O mar que não banha. Engole. Há um momento no romance em que o Atlântico se abre não como passagem, mas como abismo. E é neste instante que a narrativa deixa de ser apenas literatura e se torna testemunho. O sequestro de Kehinde é mais do que episódio. É rito macabro que inaugura a diáspora forçada. A autora escreve a travessia com uma delicadeza brutal: homens empilhados como mercadoria. Mulheres violentadas como extensão natural do desejo branco. Crianças arrancadas dos braços maternos para abastecer o mercado escravista. Cada imagem atravessa a leitura como lâmina. A embarcação negreira é útero invertido. Um espaço onde nascer significa ser desumanizado. E, mesmo assim, sob as tábuas do sofrimento, nasce também resistência. Resistência que sussurra. Que cuida. Que tenta manter viva a humanidade arrancada.

Quando Kehinde chega ao Brasil, o romance desfaz, linha por linha, o mito da cordialidade. O Brasil que se apresenta é o país dos dentes brancos que sorri enquanto mata. O país que se diz pacífico, mas ergue sua própria riqueza sobre estupros, trabalho compulsório, tortura e a mais meticulosa crueldade cotidiana. Ana Maria Gonçalves não recorre à metáfora para suavizar nada. Expõe. Revela. Escancara. E, ao fazer isso, coloca o leitor em contato com a brutal engenharia emocional que sustentou o sistema escravista por séculos: a normalização da violência contra mulheres negras. O corpo feminino negro é tratado como território saqueado, como objeto de uso permanente, como extensão do poder masculino branco. Não há concessões. Não há ornamentos. O romance diz, com todas as letras: o Brasil nasceu do estupro. E o país, até hoje, se organiza sobre essa cicatriz.

Kehinde se move no mundo com uma inteligência que desconcerta. Não há passividade em sua trajetória. Há estratégia. Há negociação. Há fuga. Há criação. Há sobrevivência que é também invenção. Sua vida é escrita como espiral, não como linha reta. Um fluxo que recolhe e reorganiza experiências, que liga e desliga mundos, que cria um protagonismo radical onde a história tentou impor silêncio. O romance desfaz o estereótipo colonial que transformou africanos em sujeitos sem agência. Ana Maria Gonçalves restitui a Kehinde a condição de sujeito integral: mulher, comerciante, mãe, amante, peregrina, estrategista, filósofa intuitiva das dores e das inteligências do mundo. Sua força vem do fato de que ela nunca é personagem plana. É múltipla como toda história humana que sobreviveu ao impossível.

A maternidade no romance é abismo e altar. A perda de Luiz, vendido ainda menino, repõe na literatura brasileira a memória dos laços partidos pela escravidão. Não se trata apenas da dor de uma mãe. Trata-se da dor de milhares. De gerações. De séculos. A busca por Luiz é também a busca pelo que o Brasil decidiu apagar: a memória negra. Memória sequestrada. Memória rasgada. Memória que precisou ser refeita por mãos teimosas. Ao narrar essa busca, a autora denuncia o projeto político que silenciou as genealogias negras e transformou afeto em mercadoria. A ausência de Luiz é símbolo da ausência que assombra o país inteiro.

O romance percorre cidades como quem percorre feridas. Salvador e Rio de Janeiro surgem como organismos pulsando contradições. Ruelas, mercados, portos, disputas políticas, revoltas de africanos de diferentes etnias, tensões que atravessam o corpo urbano. A autora costura essas paisagens com precisão quase etnográfica. E o leitor percebe que o Brasil do século dezenove já era o país das desigualdades calculadas, da liberdade seletiva, da justiça para poucos e da servidão imposta a muitos. A cor da pele era passe. Era senha. Era sentença. Era geografia política. Era destino social. É impossível ler o romance e não reconhecer que muito do Brasil atual é apenas permanência.

A crítica ao racismo em Um Defeito de Cor não é discurso ideológico. É matéria orgânica. Cresce do chão da narrativa. Vive na pele das personagens. Surge na economia, na lei, na rua, nos costumes, no olhar branco que naturaliza hierarquias, no gesto banal que repete violências seculares. Ana Maria Gonçalves demonstra como o racismo estrutural brasileiro não é apenas herança. É sistema reproduzido, reinventado, aperfeiçoado ao longo do tempo. É instituição. É hábito. É formação nacional. O romance oferece aquilo que a sociologia brasileira nem sempre conseguiu: uma anatomia sensível, concreta, visceral das engrenagens afetivas e materiais da opressão.

E então vem o retorno à África. O retorno que não devolve nada ao lugar. O retorno que revela que não há retorno possível. A terra natal já não é a mesma. O corpo já não é o mesmo. A identidade se torna ponte. Um corpo dividido entre mundos. Um ser da encruzilhada. O romance mostra que a diáspora não é apenas deslocamento espacial. É ferida ontológica. É condição permanente de fronteira. Ao narrar esse retorno, a autora aprofunda uma reflexão rara sobre pertencimento, identidade e ancestralidade, produzindo certos dos momentos mais belos e dolorosos da literatura brasileira contemporânea.

Um Defeito de Cor exige coragem. Exige do leitor uma renúncia: a renúncia ao conforto da ignorância. Exige disposição para enfrentar o escombro sobre o qual se construiu o Brasil. Exige que a leitura seja também escuta das vozes silenciadas. Exige que a literatura cumpra sua função mais perigosa: demolir ilusões. O romance oferece ao Brasil um espelho que não adultera. Porém, ao devolver a verdade, oferece também uma possibilidade de cura. Um país só se refaz quando encara seu passado sem mentir para si mesmo. Ana Maria Gonçalves entrega ao país esse espelho duro e luminoso.

E o impacto é irreversível. A obra altera a paisagem interna do leitor. Atravessa fronteiras entre documento e ficção. Entre pesquisa e canto. Entre dor e lucidez. É impossível terminar o livro sendo a mesma pessoa que o começou. Um Defeito de Cor amplia o vocabulário ético da literatura brasileira. Reposiciona o passado. Reposiciona o presente. Reposiciona o leitor. E cria, para a população negra, uma personagem que é mais do que personagem. É ancestral reinventada. É memória restaurada. É gesto de reparação simbólica. O romance oferece ao leitor branco aquilo que quase nunca lhe foi oferecido: a oportunidade de deixar a ignorância voluntária e entrar, com humildade, no terreno da verdade.

Há um rigor estético na obra que a torna monumental. A escrita é generosa, madura, musical. A narrativa avança como rio profundo. A autora sustenta, com maestria rara, uma história longa sem perder densidade, sem ceder ao sensacionalismo, sem usar truques dramáticos fáceis. A força está na dignidade das vidas retratadas. Na grandeza do cotidiano. Na coragem de dizer o indizível. Ao narrar o que realmente fomos, Ana Maria Gonçalves ilumina aquilo que ainda precisamos ser.

Escrevo este ensaio como gesto de agradecimento. Agradecimento intelectual e político. Agradecimento afetivo. Agradecimento de quem reconhece que este livro devolveu ao Brasil uma parte essencial de sua memória. Agradeço a Ana Maria Gonçalves pela coragem de escrever o que muitos evitam. Pela entrega radical à verdade histórica. Pela generosidade de dar nome aos que foram privados do nome. De devolver voz aos que foram condenados ao silêncio. A autora nos lembra que a história é campo de batalha. E que a batalha pela memória é sempre luta pelo futuro.

Um Defeito de Cor não é apenas literatura. É gesto de amor radical. É chamado ético. É marco. É farol. É ponte. É memória insurgente. É convite, ou talvez convocação, para que o país assuma sua história sem tergiversações. Ler o romance é aceitar que a escravidão não é passado remoto. É estrutura. É sombra. É fantasma. É continuidade. Mas é também responsabilidade. Uma responsabilidade que só se transforma em justiça se for enfrentada.

Que este ensaio sirva para registrar meu respeito profundo, minha admiração sincera e minha reverência intelectual a Ana Maria Gonçalves. Seu livro honra a literatura. Honra o pensamento. Honra as vidas que resistiram para que pudéssemos existir.

    * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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