A eleição para o Senado Federal no Rio de Janeiro em 2026: fragmentação, potencial e o vazio como campo de disputa

Pesquisa revela cenário fragmentado na disputa pelo Senado no Rio em 2026, com alta indecisão, rejeição elevada e ausência de lideranças consolidadas entre os eleitores

* Paulo Baía

A eleição para o Senado Federal no estado do Rio de Janeiro em outubro de 2026 apresenta-se, à luz dos dados da pesquisa Genial Quaest realizada em abril de 2026, como um campo político em aberto, marcado por dispersão, elevada taxa de indecisão e ausência de hegemonia eleitoral. Serão duas vagas em disputa. Dois assentos que, em condições normais, tenderiam a produzir movimentos de consolidação em torno de nomes com maior densidade política e reconhecimento público. Não é o que os números indicam. Ao contrário, o que emerge é um quadro rarefeito, instável, em que o eleitorado parece suspenso entre a memória política e a recusa ativa.

A pesquisa foi realizada entre os dias 21 e 25 de abril de 2026, com 1.200 entrevistas presenciais, margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. O levantamento foi devidamente registrado na Justiça Eleitoral, seguindo os protocolos do Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se de um instrumento auditável, passível de escrutínio público por qualquer cidadão, instituição ou ator político interessado. A metodologia segue padrões consolidados da pesquisa quantitativa, com amostragem em múltiplos estágios e ponderação estatística por variáveis sociodemográficas. O dado, portanto, não é opinião. É medida. E toda medida, quando bem feita, revela estrutura.

O primeiro elemento que salta aos olhos é a magnitude do não-voto potencial. Em todos os cenários testados, a soma de indecisos com branco, nulo ou eleitores que afirmam não votar ultrapassa a metade do eleitorado. Em alguns cenários, aproxima-se de 60%. Este não é um detalhe técnico. É o dado estrutural central da eleição. O vazio não é ausência. É presença ativa de uma recusa, de uma suspensão da escolha, de uma espera. E nesse espaço, paradoxalmente, reside o verdadeiro campo de disputa.

No cenário I, que inclui um conjunto mais amplo de candidaturas, Cláudio Castro, do PL, aparece com 12% das intenções totais de voto. Benedita da Silva, do PT, surge com 10%. Felipe Curi, também do PL, e Marcelo Crivella, do Republicanos, registram 6%. Márcio Canella, do União Brasil, aparece com 4%. Alessandro Molon, do PSB, e Waguinho, do Republicanos, com 3%. Mônica Benício, do PSOL, alcança 2%. Luciana Boiteux, também do PSOL, Pedro Paulo, do PSD, e Helio Secco, da Missão, aparecem com percentuais residuais.

Cláudio Castro lidera. Mas lidera pouco. Sua vantagem é estreita. Sua posição decorre mais da fragmentação dos demais do que de uma força eleitoral avassaladora. Há um dado adicional que tensiona sua presença na disputa. Caso venha a formalizar candidatura, ela será objeto de contestação jurídica, uma vez que decisão recente do Tribunal Superior Eleitoral o tornou inelegível. Este fator introduz uma variável de incerteza institucional que atravessa todo o cenário. Castro é, ao mesmo tempo, o nome mais votado nos cenários em que aparece e um candidato cuja viabilidade jurídica é questionada. Força eleitoral combinada com fragilidade legal.

Benedita da Silva, por sua vez, ocupa o segundo lugar com consistência. Seu desempenho revela uma base sólida no campo progressista, especialmente entre eleitores identificados com o lulismo. Sua vantagem é a densidade histórica, o reconhecimento acumulado, a identificação ideológica clara. Sua desvantagem reside na rejeição elevada. Uma parcela significativa do eleitorado declara conhecer e não votar. Trata-se de uma candidata com identidade forte. E toda identidade forte produz adesão e rejeição.

Marcelo Crivella apresenta um perfil distinto. Seu desempenho melhora na ausência de Cláudio Castro, chegando a 8% no cenário III. Há um eleitorado disponível no campo conservador que o acolhe. Mas seu principal obstáculo é a rejeição extremamente elevada. Mais de metade dos eleitores afirma conhecê-lo e não votar nele. Trata-se de um teto eleitoral visível. Sua vantagem é a capilaridade em segmentos religiosos e conservadores. Sua desvantagem é a resistência consolidada em amplas camadas da sociedade.

Felipe Curi surge como um nome com potencial latente. Seus números são estáveis, entre 6% e 7%. O dado mais relevante não é o voto atual, mas o desconhecimento. A maioria do eleitorado não o conhece. Isso pode ser lido de duas formas. De um lado, ausência de capital político consolidado. De outro, ausência de rejeição estruturada. Campo aberto para crescimento, dependendo da capacidade de construção de imagem e associação política.

Márcio Canella ocupa posição semelhante. Percentuais entre 4% e 6%, alto desconhecimento, rejeição moderada. É um candidato em estado de possibilidade. Não está rejeitado. Também não está afirmado. Sua trajetória eleitoral dependerá de inserção, visibilidade e alianças.

Waguinho apresenta um perfil intermediário. Não é desconhecido como os nomes anteriores, mas também não possui uma base consolidada. Sua rejeição é relevante, o que limita sua expansão. Sua vantagem é a presença em determinados territórios políticos. Sua desvantagem é a dificuldade de transbordar esses limites.

Mônica Benício e Luciana Boiteux representam o campo do PSOL. Seus percentuais são baixos, mas o dado decisivo é o desconhecimento. A rejeição é relativamente pequena. Isso significa que há espaço potencial de crescimento. Mas crescimento exige tempo, exposição e capacidade de construção narrativa.

Alessandro Molon aparece apenas no cenário I com 3%. Seu perfil é conhecido em segmentos politizados, mas com alcance restrito no conjunto do eleitorado. Pedro Paulo e Helio Secco permanecem em níveis residuais, com baixa presença e alto desconhecimento.

No cenário II, a estrutura geral se mantém. Cláudio Castro continua com 12%. Benedita com 10%. Crivella e Felipe Curi com 6%. Márcio Canella sobe para 5%. O dado mais expressivo é o aumento do branco, nulo e não voto, que alcança 38%. A retirada de alguns nomes não reorganiza o campo eleitoral. O voto não migra automaticamente. Ele se dissolve. Isso indica fragilidade de vínculos políticos.

No cenário III, sem Cláudio Castro, ocorre uma reorganização parcial. Benedita assume a liderança com 11%. Crivella sobe para 8%. Felipe Curi alcança 7%. Márcio Canella chega a 6%. Waguinho e Mônica Benício aparecem com 4%. O dado central, novamente, é o vazio. Indecisos e não voto chegam a 60%. A ausência do principal nome não produz transferência direta de votos. Produz dispersão.

Este comportamento sugere uma hipótese sociológica relevante. O eleitorado fluminense, neste momento, não está estruturado em torno de lideranças para o Senado. Está estruturado em torno de rejeições, memórias fragmentadas e identidades políticas difusas. A escolha ainda não se cristalizou. O voto é fluido. A decisão é reversível.

Outro dado importante é o grau de definição do voto. A pesquisa indica que a maioria dos eleitores afirma que sua escolha ainda pode mudar até a eleição. Isso reforça a ideia de volatilidade. Não se trata apenas de indecisão inicial. Trata-se de instabilidade contínua.

A análise de conhecimento, potencial de voto e rejeição aprofunda essa leitura. Cláudio Castro possui alto conhecimento, razoável potencial e elevada rejeição. Benedita apresenta padrão semelhante, com menor desconhecimento. Crivella concentra a maior rejeição entre os principais nomes. Felipe Curi e Márcio Canella aparecem como candidatos com baixa rejeição e alto desconhecimento, portanto com espaço potencial. Mônica Benício e Luciana Boiteux compartilham essa característica em grau ainda mais acentuado.

O campo político, portanto, organiza-se em três tipos ideais de candidatura. Os conhecidos com alta rejeição. Os conhecidos com base consolidada e rejeição relevante. Os desconhecidos com baixo índice de rejeição e potencial de crescimento. Cada tipo carrega vantagens e limitações.

Os primeiros possuem visibilidade, mas enfrentam barreiras de expansão. Os segundos têm base fiel, mas dificuldade de ampliar além dela. Os terceiros possuem espaço, mas carecem de estrutura para ocupá-lo.

A eleição para o Senado no Rio de Janeiro em 2026 não será decidida apenas pela soma de intenções de voto captadas neste momento. Será decidida pela capacidade de cada candidatura de transformar desconhecimento em conhecimento positivo, de reduzir rejeições e de ocupar o espaço aberto deixado pela indecisão massiva.

Há, ainda, a dimensão institucional. A presença de Cláudio Castro na pesquisa, combinada com sua situação de inelegibilidade, introduz um elemento de incerteza jurídica que pode reconfigurar o cenário. Sua eventual retirada ou substituição produzirá efeitos. Mas os dados indicam que esses efeitos não serão automáticos. O eleitor não transfere voto mecanicamente. O voto precisa ser reconstruído.

Em síntese, a eleição para o Senado no estado do Rio de Janeiro em 2026 revela um sistema político em estado de suspensão. Nenhum nome ultrapassa 12%. Mais da metade do eleitorado não está vinculada a nenhuma candidatura. As rejeições são elevadas. O desconhecimento é amplo. A decisão é fluida.

É nesse terreno instável que a política se fará. Não como repetição do passado, mas como disputa pelo sentido do presente. A eleição, mais do que escolher dois senadores, expõe uma sociedade que ainda não decidiu quem quer ser representada. E talvez essa seja a informação mais valiosa que os números oferecem.

* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

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