* Paulo Baía
O cenário político fluminense começa a se redesenhar com vistas à eleição de outubro de 2026, revelando uma disputa que promete ser das mais complexas e estratégicas desde a redemocratização. Três nomes despontam como postulantes ao Palácio Guanabara: Thiago Pampolha (MDB), atual vice-governador; Rodrigo Bacellar (PL), deputado estadual e e presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj); e Eduardo Paes (PSD), prefeito da capital fluminense. Cada um deles traz consigo capital político, redes de alianças e trajetórias que os qualificam como protagonistas no xadrez eleitoral estadual, tornando a sucessão do governador Cláudio Castro uma equação aberta e de múltiplas variáveis.
Thiago Pampolha, vice-governador eleito na chapa de Cláudio Castro em 2022, tem iniciado discretamente movimentos que visam à construção de sua candidatura. Filiado ao MDB, Pampolha tem buscado protagonismo na agenda ambiental, pasta que já comandou, e se articula para ampliar sua inserção em municípios do interior, tradicionalmente fundamentais nas disputas estaduais. Seu maior desafio, no entanto, reside dentro do próprio Palácio Guanabara: Cláudio Castro já deixou claro que pretende concluir seu mandato até o fim, em 31 de dezembro de 2026, o que impede Pampolha de assumir o governo e usufruir do prestígio da máquina estadual — vantagem histórica dos vices que se tornam governadores nos meses que antecedem as eleições. O fato de o governador apoiar outro nome, Rodrigo Bacellar, evidencia um racha na base governista e pode comprometer a viabilidade de Pampolha caso não consiga fortalecer sua imagem como liderança independente.
Rodrigo Bacellar, por sua vez, emerge como o nome preferido de Cláudio Castro para a sucessão. Com trânsito entre deputados estaduais e prefeitos do interior, Bacellar consolidou uma imagem de articulador político quando presidiu a Alerj. Sua força eleitoral, no entanto, depende da manutenção da base aliada do atual governo, que poderá se esfacelar caso haja disputas internas mais profundas. O apoio de Castro lhe confere legitimidade dentro do campo bolsonarista, ainda predominante em segmentos do estado, mas Bacellar terá de lidar com o desafio de ampliar sua visibilidade junto ao eleitorado metropolitano, historicamente decisivo. Além disso, a possível candidatura de Eduardo Paes tende a empurrar a disputa para um campo mais programático e urbano, exigindo de Bacellar um discurso que vá além da articulação legislativa e da ocupação de espaços institucionais.
Eduardo Paes, embora afirme reiteradamente que cumprirá seu mandato até o fim, é um nome cuja força eleitoral e capacidade de articulação são inegáveis. Prefeito pela terceira vez do Rio de Janeiro, Paes comanda uma das maiores máquinas municipais do país, tem trânsito entre partidos do centro democrático e mantém boa relação com o governo federal. Mesmo sem declarar sua candidatura, ele é estimulado por setores empresariais, lideranças políticas e quadros partidários que o veem como figura de equilíbrio em um estado historicamente marcado por crises políticas e escândalos de corrupção. A eventual entrada de Paes na disputa poderia reconfigurar completamente o tabuleiro político: atrairia forças da centro-esquerda e do centro pragmático, reposicionaria o PSD como ator-chave no cenário estadual e tensionaria o campo bolsonarista, dividido entre Bacellar e o próprio Cláudio Castro, caso este decida disputar uma vaga ao Senado.
A sucessão fluminense em 2026 será marcada, portanto, por uma dinâmica de disputa interna na base do governo atual, pela incerteza quanto à presença de Eduardo Paes no pleito e pela disputa simbólica sobre o futuro do estado. A crise fiscal, a violência urbana, os desafios da metrópole carioca e as demandas do interior — em especial da Baixada Fluminense e do Norte Fluminense — serão temas centrais na agenda dos candidatos. O eleitorado do Rio de Janeiro, historicamente volátil e sensível a fatores nacionais, estará diante de três figuras que representam caminhos distintos: a continuidade moderada com Pampolha, o pragmatismo político com Bacellar e a aposta no modelo urbano-administrativo com Eduardo Paes.
As movimentações ainda são iniciais, mas os bastidores já fervilham com alianças sendo costuradas, pesquisas qualitativas em campo e sondagens que testam cenários hipotéticos. A base de sustentação de Cláudio Castro, embora coesa no papel, pode se fragmentar à medida que os interesses individuais se sobrepuserem ao projeto coletivo. O MDB, o PL e o PSD se preparam para disputar não apenas uma eleição, mas o controle sobre os rumos do segundo maior colégio eleitoral do país. Nesse contexto, a política fluminense mais uma vez se afirma como um laboratório das contradições brasileiras, onde a luta pelo poder é intensa, complexa e imprevisível.
A disputa pelo Palácio Guanabara está oficialmente lançada, ainda que os atores se movam com cautela. O que se desenha no horizonte é uma eleição polarizada por projetos distintos, lideranças com níveis variados de popularidade e uma sociedade cansada de promessas, mas ainda disposta a apostar em soluções concretas para um estado que insiste em se reinventar.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ





