* Paulo Baía
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dispunha de todos os sinais, de todas as informações, de todos os indícios consistentes de que a indicação de Rodrigo Pacheco preservaria, ainda que de forma precária, a integridade de sua base no Congresso Nacional. Uma base rarefeita, tensionada, estruturalmente vulnerável, mas ainda funcional. Sobretudo diante da proximidade das eleições e de um horizonte que já se delineava com nitidez. De um lado, o avanço de Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência da República. De outro, o vigor crescente das candidaturas oposicionistas na renovação das 54 cadeiras do Senado Federal.
Não lhe faltaram advertências. Tampouco lhe faltaram vozes experientes. Interlocutores diversos, munidos de leitura acurada do jogo político, indicaram o caminho da prudência. Entre eles, com especial ênfase, o líder do governo no Congresso, o senador Randolfe Rodrigues, cuja atuação se ancora precisamente na interpretação das correlações de força no Parlamento. O diagnóstico era claro. A sustentação governamental dependia menos de movimentos de afirmação e mais de operações de equilíbrio fino, típicas de sistemas multipartidários fragmentados, nos quais o custo de cada decisão extrapola o imediato e projeta efeitos sistêmicos.
Ainda assim, Lula escolheu o risco. Optou por tensionar o Senado em um momento no qual a Câmara dos Deputados também se encontrava alinhada àquela Casa e ao seu presidente, Davi Alcolumbre. E, nesse movimento, indicou Jorge Messias. A decisão não se limitou ao plano administrativo. Inseriu-se no campo mais amplo da disputa por poder, prestígio e capacidade de coordenação institucional, no qual cada gesto redefine posições relativas e altera a gramática das alianças.
Não se tratou apenas de uma aposta. Tratou-se de uma escalada. Arriscou o capital político acumulado, estreitou margens de negociação e ampliou sua exposição. Dobrou a aposta quando o cenário já recomendava contenção. Em termos analíticos, deslocou-se de uma estratégia de manutenção para uma lógica de confronto, sem que as condições estruturais assegurassem vantagem nesse movimento.
Perdeu.
Perdeu o que tinha. Perdeu, sobretudo, o que ainda poderia preservar.
Os efeitos foram imediatos e, ao mesmo tempo, difusos. Anteciparam-se, em cadeia, as articulações pró Flávio Bolsonaro em escala nacional. Nos 26 estados da federação e no Distrito Federal, redes políticas passaram a se reorganizar com maior nitidez e menor dissimulação. A oposição ganhou densidade, musculatura e horizonte. Não apenas no plano eleitoral, mas também no plano simbólico, no qual a percepção de viabilidade costuma anteceder a própria consolidação dos fatos.
Há, contudo, um elemento mais sutil, ainda que decisivo. Os candidatos que hoje orbitam o lulismo, especialmente nas disputas para os governos estaduais e para o Senado, poderão, uma vez eleitos, recalibrar suas alianças. A política brasileira conhece bem esse movimento pendular, no qual a adesão não se ancora em identidades estáveis, mas em expectativas de poder. Caso Flávio Bolsonaro se consolide como polo de gravitação em 2026, tais migrações deixarão de ser hipótese para se converter em prática recorrente, redesenhando a composição das bases de apoio no pós-eleição.
O núcleo da decisão, portanto, revela mais do que um erro tático. Expõe uma inflexão estratégica. Lula, por decisão própria e em sintonia com um grupo palaciano que o incentivou a sustentar o confronto contra Davi Alcolumbre, contra o chamado Centrão e contra a oposição declarada, reconfigurou o tabuleiro antes do tempo. Antecipou tensões, encurtou horizontes e deslocou o eixo de gravidade do jogo político em favor de seus adversários. Em sistemas políticos complexos, o tempo é variável decisiva. Antecipar movimentos sem controle das consequências equivale, frequentemente, a abrir mão da capacidade de coordenação futura.
O que vinha sendo sussurrado nos bastidores começa agora a adquirir forma visível. O rearranjo político, antes insinuado, emerge com contornos mais definidos e tende a se projetar ao longo deste mês de maio com crescente clareza, favorecendo diretamente Flávio Bolsonaro. A visibilidade pública dessas movimentações tende a produzir um efeito cumulativo, reforçando percepções, consolidando expectativas e retroalimentando o próprio processo de deslocamento político.
Ao fim e ao cabo, a imagem que se impõe é simples e severa. Em um jogo já adverso, Lula não apenas encontrou dificuldades. Interveio contra si mesmo. Marcou um gol contra quando a equipe já atuava mal. E, ao fazê-lo, não apenas comprometeu o presente, mas redesenhou, de maneira voluntária, as condições de disputa do futuro próximo.
É Lula e os palacianos trabalhando pró Flávio Bolsonaro; a oposição está em festa.
A sociedade brasileira, perplexa.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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