Há poucos dias foram identificados no Youtube 1.960 vídeos com mentiras sobre as eleições e as urnas eletrônicas, que somavam até então 58 milhões de visualizações.
Diante da denúncia, o que fez o Google? Anunciou ontem que retirou do ar apenas 22 vídeos criminosos.
Se a quatro meses da eleição, os canais disseminadores de fake news bolsonaristas e de extrema direita são tratados com tamnha condescendênca e impunidade, o que se pode esperar até outubro, quando a campanha se tornar mais acirrada?
Veja a reportagem do Globo:
O YouTube apagou nos últimos dez dias ao menos 22 vídeos contendo desinformação e mentiras sobre a urna eletrônica e as eleições. A limpeza é a maior já feita pela plataforma desde que as novas regras da empresa sobre desinformação eleitoral começaram a valer, em março, de acordo com monitoramento da Novelo Data.
A ação foi posta em prática dois dias após reportagem do GLOBO identificar 1.960 vídeos circulando na plataforma com mentiras sobre as eleições, totalizando 58 milhões de visualizações. O valor se reverteu em monetização de até R$ 1 milhão para youtubers bolsonaristas que produziram o conteúdo enganoso, segundo cálculo feito pela Novelo e agência Bites.
Somam 45 os vídeos com enganação sobre fraude eleitoral apagados pelo YouTube em menos de três meses, sendo quase 50% entre 31 de maio e 2 de junho — a empresa derrubou 11 deles em 1º de junho. A limpeza geral é maior. Houve a exclusão de outros vídeos acerca de temas que contrariavam as normas da plataforma, como bullying e Covid-19.
Um dos vídeos derrubados, do Canal Professor Bellei, afirmava que o segundo turno da eleição seria fraudado e pedia intervenção militar no país. Outro repercutia transmissão ao vivo de Jair Bolsonaro na qual o presidente prometia comprovar fraude nas urnas eletrônicas — o que ele mesmo assumiu posteriormente não ter em mãos.
O canal OPNews TV, do militante Walter Biancardine, com 10,5 mil inscritos, teve cinco vídeos excluídos em dois dias. Um deles afirmava que haveria “77% de chances de fraude” nas eleições. Há na leva também conteúdos dos canais bolsonaristas Folha Política e Jornal da Cidade Online.
A estratégia envolve jogar suspeição não apenas sobre o sistema eleitoral, mas também a respeito das pesquisas de intenção de voto — tidas por bolsonaristas como dados fraudados que corroborariam uma vitória falsa de adversários do presidente.
As teses se utilizam recorrentemente da descontextualização do noticiário. Um exemplo é a repercussão dada por bolsonaristas ao questionamento feito ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelas Forças Armadas, com a escolha de omitir a própria resposta do tribunal aos militares, reafirmando a segurança do sistema. Nunca houve fraudes desde que os equipamentos foram implantados.
Em sua política de combate à desinformação, o YouTube diz que não permite determinados tipos de informação incorreta que possam causar danos, incluindo conteúdo que interfere nos processos democráticos. “Conteúdo postado após a certificação dos resultados oficiais para promover alegações falsas de que fraudes, erros ou problemas técnicos generalizados mudaram o resultado de eleições nacionais anteriores”, diz a empresa.
A regra, no entanto, só se aplica às eleições americanas, às eleições federais da Alemanha de 2021 e à eleição presidencial do Brasil de 2018.
A iniciativa derrubou até um vídeo de Bolsonaro publicado em junho de 2021. Na publicação, o presidente abordava temas controversos (e que resvalam no limite das regras da plataforma) como tratamento precoce, Covid, lockdown, CPI da Covid e voto auditável — por isso, não é possível saber se o tema eleitoral foi o responsável pela exclusão.
Trata-se da 36ª punição feita pelo YouTube a Bolsonaro, e mesmo assim seu canal segue funcionando. A pandemia foi o assunto abordado pelo presidente que mais levou à derrubada de suas publicações. Em geral, continham desinformação e notícias falsas sobre o coronavírus e a hidroxicloroquina.
Os conteúdos com ataques às urnas explodiram em 2018, ano da vitória de Bolsonaro — três dos vídeos mais populares são daquele ano. Já sob a atual gestão, com a ofensiva propagada pelo presidente, a circulação entrou em patamar ainda mais elevado. Em 2020, quando ocorreram eleições municipais, o volume chegou a 197.
O número foi ultrapassado em larga escala pelos 1.212 vídeos de 2021, ano em que a proposta que previa o voto impresso, encampada por parlamentares bolsonaristas, foi derrotada na Câmara. Este ano, até o fim de maio, havia 128 vídeos endossando a desconfiança no pleito.
Em dezembro, O GLOBO mostrou que a plataforma de vídeos do Google funciona como o motor do ecossistema de páginas e canais da extrema-direita.
Um grupo de pesquisadores da UFBA e da UFSC coletou quatro milhões de mensagens publicadas em 150 chats (grupos e canais) bolsonaristas no Telegram, entre janeiro e outubro, e identificou uma avalanche de compartilhamentos de links da rede social de vídeos.






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