A três dias do primeiro turno, a eleição presidencial chega ao momento em que uma mudança de última hora pode alterar a distribuição dos votos. Com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatados em levantamentos recentes e os demais candidatos reunindo uma parcela relevante do eleitorado, o chamado “voto útil” entrou de vez na estratégia da reta final.
Pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira (30) mostrou Lula com 39,4% e Flávio com 38,4%, diferença dentro da margem de erro de 2,2 pontos percentuais. Já a Quaest de segunda-feira (28) registrou Lula com 39% e Flávio com 34% no primeiro turno. Em uma eventual segunda rodada, os dois aparecem numericamente empatados na Quaest, com 42% cada.
Na Quaest, os candidatos posicionados abaixo dos dois primeiros somam cerca de 12%. É justamente sobre uma parcela desses votos que recai a disputa final das campanhas, ao lado dos indecisos e dos eleitores que podem deixar de comparecer às urnas.
Flávio pede voto útil e Lula mira comparecimento
Flávio passou a pedir explicitamente que eleitores de outros candidatos antecipem para o primeiro turno um voto que considerariam dar a ele apenas em uma eventual segunda rodada.
“(Peço) àqueles que ainda estão considerando votar em Flávio Bolsonaro só no segundo turno para pensarem em dar uma oportunidade de votar já no primeiro turno, com todo o respeito aos meus concorrentes, porque o Brasil tem que começar a mudar rápido. Ninguém aguenta mais um dia desse governo”, afirmou durante compromisso em São Paulo nesta semana.
A estratégia busca principalmente eleitores hoje distribuídos entre candidaturas que disputam espaço político semelhante ao de Flávio, como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Isso não significa, porém, transferência automática: esses candidatos fizeram críticas ao senador durante a campanha e mantêm suas próprias candidaturas.
Do lado de Lula, uma preocupação destacada pela campanha é a abstenção. O petista tem desempenho mais elevado em segmentos que historicamente podem apresentar menor comparecimento, entre eles eleitores de menor renda e idosos. O voto é facultativo para pessoas com mais de 70 anos.
“Precisamos convencer as pessoas de 70 anos a votar. Levanta a bunda e vai votar, o Brasil precisa de você”, afirmou Lula no Rio na semana passada.
Eleição de 2022 mostrou virada nos últimos dias
O precedente mais recente ajuda a dimensionar o impacto potencial da reta final. Em pesquisa Datafolha divulgada três dias antes do primeiro turno de 2022, Lula aparecia com 50% dos votos válidos e Jair Bolsonaro tinha 36%. Ciro Gomes marcava 6%, Simone Tebet, 5%, e os demais apareciam com percentuais menores.
Nas urnas, o quadro foi diferente. Lula terminou o primeiro turno com 48,43% dos votos válidos, enquanto Bolsonaro chegou a 43,20%. A votação dos demais candidatos ficou em aproximadamente 8,4% dos votos válidos. Ou seja, Bolsonaro terminou quase sete pontos acima dos 36% registrados pelo Datafolha na reta final, embora pesquisas de intenção de voto sejam retratos do momento e não previsões do resultado.
A abstenção também teve peso expressivo naquele pleito: 32,7 milhões de eleitores não compareceram, equivalentes a 20,95% dos aptos a votar.
Indecisos completam equação
O cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV EAESP, avalia que a percepção de uma disputa concentrada entre dois nomes pode levar parte do eleitorado a antecipar uma escolha que faria apenas no segundo turno.
Segundo ele, existe uma crença de que o país será governado por Flávio ou Lula, e que o processo está muito conturbado, com muita gente com o desejo de exercer essa preferência já no primeiro turno.
De acordo com essa avaliação, uma campanha marcada por acusações e confrontos também pode estimular em parte do eleitorado o desejo de definir a disputa rapidamente. Ao mesmo tempo, a elevada rejeição dos dois principais candidatos impõe limites a esse movimento: na Quaest citada, Flávio registra 56% de rejeição e Lula, 54%.







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