Em 1981, o artista cearense Geraldo Simplício mudou para sempre a paisagem rural do circuito Terê-Friburgo ao iniciar, de forma despretensiosa, o que viria a se tornar o Jardim do Nêgo, um dos pontos turísticos mais bacanas da Região Serrana. São mulheres de barro com dez metros de altura, índias em trabalho de parto e sapos do tamanho de automóveis. Aberto diariamente, o museu a céu aberto atrai viajantes do mundo inteiro que buscam um cenário que parece saído de um conto de realismo fantástico.
O Jardim do Nêgo não é um parque temático, nem uma galeria de arte convencional, nem uma instalação de algum curador que usa óculos japonês colorido. É, literalmente, o quintal de um homem que um dia olhou para um barranco de terra e enxergou uma mulher onde os outros veriam apenas erosão. E se você vê maldade nisso sugerimos que procure urgente um analista.
Desde 1981, quando essa primeira visão o assaltou numa manhã comum do seu sítio no distrito de Campo do Coelho, Geraldo vem esculpindo o próprio chão com as próprias mãos, transformando quase 30 mil metros quadrados de Mata Atlântica numa das experiências estéticas mais singulares do Brasil, segundo o próprio jornal britânico The Guardian, que em 2014 incluiu o jardim numa lista de tesouros escondidos do país.
Qual a origem do Jardim do Nêgo?
Tudo começou em 1981, quando o artista plástico Geraldo Simplício passou a utilizar os barrancos existentes em sua propriedade como matéria-prima para suas esculturas. Em vez de transportar pedra ou construir estruturas artificiais, ele decidiu aproveitar as formas naturais do terreno e trabalhar diretamente sobre elas.
A iniciativa acabou crescendo de maneira espontânea. Uma obra levou à outra, e o que começou como uma experiência artística acabou se transformando em um grande museu a céu aberto. Atualmente, o espaço ocupa cerca de 30 mil metros quadrados e é reconhecido como uma das manifestações mais originais da arte popular brasileira.
Mas de quem se trata Geraldo Simplício?
Geraldo Simplício, mais conhecido como Nêgo, é um artista plástico nascido em 1945, em Aurora (CE). Em 1966, fez sua primeira exposição no município de Crato, no Ceará, e depois seguiu apresentando trabalhos em madeira em exposições em Fortaleza e Recife, abrindo um trajeto que seguia o mapa já conhecido de tantos artistas nordestinos daquela geração: o rumo da Guanabara.
Ao longo dos anos trabalhou com restauração de arte sacra e esculturas populares. Até que, por incentivo da crítica de arte Cecília Falk, decidiu dedicar-se apenas à escultura. Nêgo não pensou duas vezes e subiu as montanhas até fixar-se em Nova Friburgo.
Grande parte de suas esculturas iniciais em madeira foi, curiosamente, adquirida por colecionadores alemães, e algumas peças daquele período inicial estão expostas no Museu de Stuttgart, na Alemanha.

A técnica: dedos, barro e uma pitada de musgo
O método de trabalho de Nêgo não tem equivalente catalogado no mundo da escultura convencional. As obras são moldadas diretamente na terra, por meio de uma técnica que mistura argila, pedra e areia. Não há moldes industriais, não há ferramentas de metal. O artista esculpe tudo com as próprias mãos e, para os detalhes mais finos, usa apenas os dedos como ferramenta.
Depois da modelagem, as obras recebem uma camada de lama e são abafadas com plástico para estimular o crescimento de musgo, que além de conferir o característico acabamento verde-esmeralda funciona como proteção natural contra a erosão. O clima úmido da Mata Atlântica é cúmplice: leva cerca de um ano para que o musgo cubra por completo cada escultura. O resultado é um conjunto de figuras que parecem ter brotado do próprio solo, como se a montanha as tivesse gerado, e não o contrário.
Quantas peças existem no Jardim do Nêgo?
Atualmente, o Jardim do Nego abriga cerca de vinte peças monumentais espalhadas pela propriedade, embora o número exato possa variar devido aos restauros constantes e às novas intervenções do artista. Entre essas obras, destaca-se a imponência de figuras que ultrapassam facilmente os oito metros de altura, como representações de mulheres grávidas, guardiões e divindades que parecem vigiar o vale.
A principal característica do trabalho de Geraldo Simplício é o gigantismo e a integração absoluta da obra com a natureza, técnica frequentemente associada à land art. As esculturas não são trazidas de fora e fixadas no local, elas são esculpidas diretamente nos paredões de terra do sítio, fazendo com que a própria montanha seja o corpo das personagens.

Como chegar (a partir de Nova Friburgo)
Para quem está no centro de Nova Friburgo e deseja conhecer essa maravilha esculpida na lama, o acesso é relativamente simples e cênico. O motorista deve seguir em direção ao distrito de Conselheiro Paulino e acessar a estrada Terê-Friburgo. O Jardim do Nego está estrategicamente localizado no quilômetro 55 desta rodovia, no distrito de Campo do Coelho.
O trajeto de aproximadamente dezenove quilômetros a partir da Praça Dermeval Barbosa Moreira leva cerca de vinte e cinco a trinta minutos de carro, dependendo das condições do trânsito local. Placas indicativas ao longo da rodovia e informações da rota turística oficial de Nova Friburgo facilitam a localização do sítio, que conta com estacionamento próximo à entrada.


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