Violência na Terra Santa: cristãos da Cisjordânia ocupada enfrentam medo e incerteza às vésperas da Páscoa

Em meio a bombardeios de Israel e crise econômica, moradores temem o êxodo e esvaziamento da região: “Pode ser que não sobrem mais cristãos no país de Jesus”, lamenta um professor

No vilarejo de Zababde, norte da Cisjordânia, o som dos sinos das igrejas tem sido abafado por aviões de combate israelenses. Com cerca de 5 mil habitantes, a maioria cristã, o local mantém vivas as tradições da Páscoa, mas neste ano o clima é de tensão e insegurança. Escoteiros se preparam para as procissões, famílias fazem bolos típicos com tâmara, e o coral ensaia — mas o assunto dominante nas conversas não é a ressurreição de Cristo, e sim a guerra, que parece se aproximar das colinas onde está encravado o vilarejo.

— Certo dia desses, o Exército entrou em Jenin — relata Janet Ghanam, de 57 anos, referindo-se à cidade mais próxima. — As famílias correram para buscar os filhos na escola. Há um medo constante. Você dorme com ele e acorda com ele.

Os bombardeios genocidas de Israel à Faixa de Gaza, os ataques na Cisjordânia e o agravamento da crise econômica têm afetado diretamente a comunidade cristã da região, sob ocupação israelense desde 1967. O filho de Ghanam, que vive em Belém, não irá visitá-la na Páscoa. Teme os novos postos de controle israelenses ao longo do caminho.

Desde outubro de 2023, mais de 50 mil pessoas morreram na Faixa de Gaza, segundo o Ministério da Saúde local. O impacto emocional da guerra é profundo em Zababde.

— Muita gente se pergunta se ainda estará em suas casas dentro de cinco anos — diz o diácono episcopal Saleem Kasabreh. Segundo ele, o acompanhamento constante das notícias de Gaza mergulha os moradores em “depressão”.

Desde 21 de janeiro, Israel conduz uma ofensiva militar intensa no norte da Cisjordânia ocupada, especialmente em Jenin, considerada pelo estado sionista um reduto de grupos armados. O campo de refugiados da cidade foi devastado, e muitos deslocados buscaram abrigo em Zababde.

A região também enfrenta uma grave crise de emprego. Cerca de 450 trabalhadores perderam seus postos após Israel revogar autorizações para palestinos.

— Israel nunca havia nos trancado completamente na Cisjordânia antes desta guerra — afirma o agricultor Ibrahim Daud, de 73 anos. — Ninguém sabe o que vai acontecer.

A possibilidade de êxodo em massa, antes tema tabu entre os cristãos palestinos, agora é abertamente discutida.

— A longo prazo, pode ser que não sobrem mais cristãos no país de Jesus — lamenta o professor Tareq Ibrahim, de 60 anos.

Apesar da incerteza, o padre Elias Tabban, líder da maior paróquia local, resiste com esperança.

— Quando as pessoas vão embora [de Zababde], elas voltam, pois não vendem suas terras — afirma.

Ele aposta em projetos de formação e geração de renda.

— Precisaríamos até de mais bancos na igreja — diz, mantendo viva a fé em tempos de guerra.

Com informações de O GLOBO.

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