O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) colocou as favelas e o combate ao crime organizado no centro de uma das principais promessas de sua largada na campanha presidencial de 2026. Em São Bernardo do Campo, neste domingo (16), o candidato à reeleição prometeu ampliar a participação do governo federal na segurança pública e afirmou que pretende “libertar” comunidades e bairros pobres dominados por criminosos.
A proposta foi apresentada durante o primeiro grande ato da campanha, realizado no Estádio 1º de Maio, a histórica Vila Euclides, no ABC Paulista. O local foi escolhido pelo PT por ter sido palco das greves dos metalúrgicos que projetaram Lula nacionalmente no fim dos anos 1970.
Em um discurso de 36 minutos, Lula afirmou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública caso a PEC da Segurança Pública seja aprovada pelo Congresso. A nova pasta, segundo o presidente, serviria para ampliar a participação federal e dividir responsabilidades com os estados no enfrentamento à criminalidade.
— Se a PEC da Segurança Pública for aprovada, eu vou criar o Ministério da Segurança Pública para dividir responsabilidades com os estados e libertar o povo, prendendo todo mundo que acha que é dono de uma favela ou de um bairro pobre — declarou Lula.
Favelas entram no discurso eleitoral
A declaração coloca a segurança pública entre os temas de maior peso já no primeiro dia da campanha de Lula.
O petista defendeu maior participação federal no combate às organizações criminosas e também relacionou a estratégia de segurança a políticas capazes de evitar o recrutamento de jovens pelo crime.
A escolha do tema ocorre em um momento em que segurança pública ocupa espaço relevante na disputa presidencial. Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário de Lula nas pesquisas, também colocou o combate ao crime organizado no centro de seu primeiro ato eleitoral, realizado neste domingo em Copacabana, no Rio de Janeiro.
Assim, os dois candidatos que lideram a corrida ao Planalto iniciam a campanha disputando também a narrativa sobre como enfrentar facções, milícias e o domínio territorial exercido por grupos criminosos.
No caso de Lula, a principal novidade apresentada foi justamente a promessa de uma estrutura ministerial dedicada à segurança.
Lula se apresenta como peão
Apesar do destaque dado ao crime organizado, Lula usou boa parte do discurso para recuperar sua própria trajetória.
O presidente voltou ao estádio que marcou sua projeção como líder sindical e procurou estabelecer uma ligação direta entre o operário que comandava assembleias de metalúrgicos e o candidato que agora tenta conquistar seu quarto mandato presidencial.
Em um dos momentos mais fortes da fala, Lula se definiu como um “peão” e mencionou sua formação escolar.
— Vocês colocaram na presidência um peão, quase um analfabeto. Eu só tenho o primário e um curso do Senai. Mas eu conheço o coração e a mente de vocês. E eu tenho certeza que os outros que passaram por esse país não conheceram — afirmou.
O discurso reforçou o mote escolhido pela campanha para a largada, “Onde tudo começou”. A Vila Euclides recebeu grandes assembleias durante as greves de 1979, período em que Lula presidia o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.
Acenos a religiosos e mulheres
Lula também fez repetidas referências a Deus durante o pronunciamento, num momento em que sua campanha busca ampliar o diálogo com o eleitorado religioso.
Ao falar sobre sua trajetória pessoal, o presidente citou a morte de Marisa Letícia e a relação com a atual primeira-dama, Janja da Silva.
— Tenho que agradecer a Deus todo dia porque vir de onde eu vim, não morrer de fome até os cinco anos de idade e ser presidente da República três vezes só pode ser o dedo de Deus e a compreensão de vocês — afirmou.
A presença feminina também ganhou espaço no evento. Benedita da Silva, candidata do PT ao Senado pelo Rio de Janeiro, fez o primeiro discurso. Janja também falou e homenageou Marisa Letícia.
O protagonismo ocorre depois das críticas recebidas pelo PT pela ausência de mulheres entre os discursos inicialmente programados para a convenção nacional do partido.
Campanha começa com empate técnico
A ofensiva sobre segurança ocorre enquanto Lula inicia oficialmente a campanha enfrentando uma disputa mais apertada do que há quatro anos.
A Quaest divulgada na sexta-feira (14) apontou Lula com 43% contra 40% de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno. Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados.
O cenário é mais difícil para Lula do que no começo da campanha de 2022. Naquele momento, o petista tinha 51% contra 38% de Jair Bolsonaro em uma simulação de segundo turno, vantagem de 13 pontos.
Outro desafio está na avaliação do governo. A mesma Quaest mostrou 48% de desaprovação à administração Lula, diante de 46% de aprovação. Os índices também estão tecnicamente empatados pela margem de erro.
É diante desse cenário que o presidente entra na campanha procurando ampliar sua agenda para além das bandeiras econômicas e sociais tradicionalmente associadas ao PT.
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