Preparem as taças e encham os baldes de gelo. Está nascendo bem ali, entre as montanhas graníticas e o silêncio inspirador de Teresópolis, um espumante que pretende abrir o coração do Brasil (ou ao menos encher a cabeça de quem gosta de um redator de marketing caprichoso). A Vinícola Maturano, que se define quase poeticamente como “um território de permanência”, agora vai elevar o status da Serra Fluminense ou da Chardonnay plantada a mil metros de altitude.

A Maturano  será a primeira vinícola do Rio de Janeiro a produzir espumante integralmente com uvas plantadas ali mesmo, sem importar nada, exceto a expertise italiana da enóloga Mônica Rossetti. A ousadia está no fato de plantar Chardonnay numa encosta encoberta por granitos milenares, usando a técnica da “poda invertida” e sensores no vinhedo que monitoram dados como temperatura, vento, umidade do solo ou precipitação das chuvas e que provavelmente sabem mais sobre fotossíntese do que muita gente sobre regras gramaticais.

Os primeiros três hectares destinados ao espumante devem render algo como 12 mil garrafas, por volta de 2026, quando tudo estiver “operando com consistência” segundo cronogramas internos e expectativas familiares. Impressionante, considerando que o projeto visa produzir até 320 mil garrafas por ano — se tudo correr conforme o plano de inauguração em 2025 e a expansão nos anos seguintes.

Vinícola Mauritano, em Teresópolis | Crédito: Robson Oliveira / Divulgação

O que é a ‘poda’ invertida?

A chamada poda invertida é o pulo do gato do primeiro terroir fluminense. Nada mais é do que você fazer a colheita nas condições ideais para o nosso clima, que é o inverno, quando chove pouco, e a uva chega ao estado de maturação ideal para colher e ser transformada em um produto de qualidade.

Nada disso seria tão promissor sem o trabalho do agrônomo brasileiro Murillo Regina, mestre em viticultura pela Université de Bordeaux II, que introduziu com muito sucesso a tecnologia da “dupla poda” ou “poda invertida” em regiões antes condenadas a não terem êxito na viticultura, pelo fato, em particular, da alta pluviometria no verão, que coloca em risco o estado sanitário e a maturação das variedades de uva.

Neste caso, aborta-se o desenvolvimento dos frutos no verão, realizando-se uma poda por volta de fevereiro, além da poda usual pós-colheita, para que a videira recomece sua frutificação e realize a maturação no inverno. Como o nosso inverno é moderado e seco, a estação dá ótimos frutos. Convencionou-se chamar poda invertida porque, em vez de colher no verão, colhe-se no inverno.

Como tudo começou

Foi justamente a técnica da “poda invertida” que despertou a atenção do empresário Marcelo Maturano, que fundou a Vinícola Maturano em 2022, inicialmente com 29 hectares destinados as videiras, em Teresópolis. “Acho que eu e minha esposa, Fernanda, devemos ter visitado mais de 200 vinícolas pelo mundo”, conta Marcelo.

Em 2020, durante um ano sabático nos Estados Unidos, ele conheceu a “poda invertida”. “Na mesma hora eu avisei a Fernanda: já podemos produzir no Rio”, conta ele que pôs a mão na massa (ou nas uvas) e até o fim do ano vai lançar o primeiro espumante produzido no Rio de Janeiro.

Ele ainda descobriu uma cepa que leva o nome de sua família, e que já está sendo introduzida na região. A uva Maturano é uma variedade originária da região do Lácio, na Itália, cultivada por monges beneditinos por mais de 500 anos. “A vinícola tem previsão de abrir suas portas ao público em outubro, com uma produção anual de 320 mil garrafas, incluindo os vinhos da uva Maturano”, diz Marcelo.

O complexo que não quer ser só vinícola

Não bastasse a ambição de transformar terroir em branding, a Maturano planeja inaugurar um heliponto com hangaragem, um restaurante parrilla, um wine bar com vista panorâmica, um hotel de 61 quartos e até uma gelateria artesanal chamada “Dolce Vitis”, uma brincadeira com a doçura dos sorvetes e o terroir dos vinhos.

Um terroir com ‘presença’ (e energia solar)

O discurso de Marcelo celebra o solo franco-argiloso com quartzo e granito de Teresópolis como se estes fossem parte de sua equipe técnica. A energia solar usada na vinícola e a compostagem de cascas prometem transformar resíduos de uva em discurso de sustentabilidade com mais eficiência do que a maioria das garrafas que reverberam no Instagram ou no Vivino.

Logo da vinícola Maturano | Reprodução

Teresópolis no mapa gourmet nacional

Assim, à medida que o primeiro borbulhar do espumante Maturano sobe em direção ao céu da serra, você pode imaginar uma frase emoldurada num quadro meio brega-chique: “é um vinho feito com amor”. Ou será com sensores high tech, dupla poda e heliponto? Talvez todos eles. E enquanto o espumante amadurece em garrafas soterradas em silêncio e equilíbrio vegetal, quem sabe também amadureça aquele gostinho suave de ironia fina, servido gelado e com rolha francesa.

O espumante da Maturano não pretende ser apenas só uma bebida, mas sim um projeto romântico, tecnológico e ambiciosamente sustentável que catapulta Teresópolis ao olhar gourmet nacional. Resta saber agora se esse espumante vai borbulhar no paladar ou apenas nas expectativas de quem acompanhou o lançamento com ansiedade e uma taça em punho. De qualquer modo, Santé!

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