O velório e o enterro da atriz mirim Millena Brandão, de 11 anos, comoveram familiares, amigos e fãs na tarde deste domingo (5), no Cemitério Campo Grande, na Zona Sul de São Paulo. A menina, que chegou a atuar como figurante em novelas do SBT e sonhava em se tornar uma atriz famosa, morreu na sexta-feira (3), nove dias após o início de um quadro súbito de dores de cabeça, sonolência, perda de apetite e desmaios. A causa exata da morte ainda é desconhecida.
Com mais de 180 mil seguidores nas redes sociais, Millena integrava a companhia artística En’cena e participou de produções como “A infância de Romeu e Julieta” e “A Caverna Encantada”, além da série “Sintonia”, da Netflix. Em outubro de 2023, celebrou o início da carreira na televisão com uma postagem emocionada: “E o sonho se tornou realidade… Quem acredita sempre alcança”.
A comoção pela morte da menina foi acompanhada por questionamentos sobre a condução do atendimento médico. Segundo os pais, Millena procurou três unidades de saúde da rede pública, sendo inicialmente diagnosticada com suspeita de dengue e, depois, com infecção urinária, mesmo apresentando sintomas neurológicos graves.
— Os médicos ainda não disseram o que realmente minha filha teve e o que a matou — afirmou a mãe, Thays Brandão, em entrevista ao g1.
De acordo com ela, o atestado de óbito traz como causa “morte a esclarecer (aguardando exames complementares)”. O laudo definitivo, com os resultados da biópsia cerebral, pode demorar até três meses.
Cronologia de atendimentos e agravamento do quadro
A primeira unidade a atender Millena foi o Hospital Geral de Pedreira, na Zona Sul de São Paulo. A menina sentia fortes dores de cabeça, mas, segundo a mãe, o médico suspeitou de dengue, não realizou exames e prescreveu dipirona. Dias depois, com dores na perna e dificuldade de andar, Millena voltou à unidade, mas os exames de sangue não mostraram alterações. Recebeu alta novamente.
Na segunda-feira (29), após desmaiar em casa, foi levada à UPA Maria Antonieta, desacordada. Exames descartaram dengue, Covid-19 e H1N1, e os médicos indicaram infecção urinária. Ela foi medicada, mas as dores continuaram intensas. Segundo a mãe, uma enfermeira chegou a zombar da menina: “Falou para ela não gritar que não ia passar”.
No dia seguinte, Millena sofreu a primeira de 13 paradas cardiorrespiratórias. Foi entubada, e seu estado se agravou. Só então foi transferida para o Hospital Geral do Grajaú, onde uma tomografia revelou uma massa de 5 cm no cérebro. Sem neurologistas disponíveis e com a menina instável, os médicos decidiram não transferi-la para o Hospital das Clínicas.
— Se a UPA tivesse transferido ela para o HC, teriam especialistas em neurologia lá. Tanto que o Hospital do Grajaú quis transferi-la para o HC — lamentou a mãe.
Millena permaneceu em coma e sem sinais neurológicos por dias. Na sexta-feira (3), exames confirmaram a morte encefálica. Os pais optaram por autorizar o desligamento dos aparelhos, diante do quadro irreversível.
— Eu falei que, se fosse para deixar o coraçãozinho dela parar de bater sozinho, a gente sofreria mais, e ela também — relatou Thays, emocionada.
Apurações e comoção
Diante das denúncias da família, as secretarias municipal e estadual de Saúde divulgaram notas afirmando que vão apurar possíveis falhas nos atendimentos. Até o momento, não responderam oficialmente sobre o diagnóstico da paciente nem sobre a causa da morte. Veja abaixo a íntegra:
Secretaria Municipal da Saúde:
“A Secretaria Municipal da Saúde (SMS), por meio da Coordenadoria Regional da Saúde (CRS) Sul, lamenta profundamente a perda da paciente M.M.B. e informa que será aberta sindicância para apuração e esclarecimento detalhado no atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Dona Maria Antonieta.
O atendimento à paciente foi realizado na unidade, às 21h do dia 28 de abril. Conforme protocolo de Manchester, foi classificada com prioridade urgente, sendo encaminhada para observação, realizando exames (como o teste de dengue, que deu negativo) e medicação. Sem apresentar melhora clínica, foi solicitada às 07h59, do dia 29 de abril, a transferência via Sistema Informatizado de Regulação do Estado de São Paulo (SIRESP).
Após sinalização da equipe para a regulação sobre gravidade do caso, às 10h54, a vaga foi concedida pelo Hospital Geral do Grajaú e a paciente foi transferida. A direção da Unidade permanece à disposição para o que for necessário.”
Secretaria de Estado da Saúde:
“O Hospital Geral de Pedreira lamenta o ocorrido, se solidariza com a família da paciente M.B. e está à disposição para prestar informações sobre o caso. A unidade apurará a conduta médica adotada durante o atendimento.
O hospital informa que, durante a permanência da paciente na unidade, o atendimento, que ocorreu em 26 de abril, foi realizado conforme sua condição clínica. Ela foi avaliada pela pediatra de plantão e medicada de acordo com os sintomas relatados.”
E, a respeito do Hospital Geral do Grajaú, a pasta estadual da Saúde informou o seguinte:
“O Hospital Geral do Grajaú informa, com profundo pesar, que foi confirmada, às 16h55 de hoje (02), a morte encefálica da paciente Millena Brandão, que deu entrada nesta unidade em estado gravíssimo no dia 29/04/2025, transferida da Unidade de Pronto Atendimento Maria Antonieta (UPA).
Desde a sua chegada, a paciente recebeu cuidados intensivos e todo o empenho da equipe médica e assistencial, que não mediu esforços para preservar sua vida.
A confirmação do diagnóstico ocorreu após rigoroso cumprimento do protocolo estabelecido para esses casos.
A família esteve acompanhando cada etapa do cuidado, sendo mantida informada com respeito, acolhimento e todo o apoio necessário neste momento de profunda dor.
Nos solidarizamos com os familiares e reafirmamos nosso compromisso com um cuidado digno e humano.”





