Bandeirinhas verdes e amarelas cruzam a rua de um lado ao outro. No chão, taças, bolas de futebol, jogadores e símbolos populares estampam o asfalto em cores e formas. Quem passa pelas ruas enfeitadas reduz o ritmo da caminhada apenas para observar o trabalho. Alguns chegam de bairros distantes para fotografar. No imaginário popular, a cena funciona como um anúncio: a Copa do Mundo está mais perto que nunca.
Em diversos endereços do Rio de Janeiro e de cidades da Região Metropolitana e da Baixada Fluminense, o fenômeno da Copa do Mundo voltou a colorir as ruas. Nas edições de 2018 e 2022, a prática aparecia de forma mais tímida. Mas moradores e especialistas ouvidos pela Agenda do Poder apontam por que o ano de 2026 tem se diferenciado quando o assunto é vestir as ruas para torcer pelo Brasil.
Uma história de tradição
Na Rua Pereira Nunes, trecho conhecido que conecta os bairros da Tijuca e Vila Isabel, na Zona Norte, essa tradição ocupa o espaço urbano há quase cinco décadas. É ali que, desde 1978, moradores transformam a via em uma grande tela a céu aberto. Neste ano, os preparativos começaram em 1º de abril. Os primeiros desenhos ficaram prontos poucos dias depois, dando início a uma mobilização que atravessa os meses que antecedem o Mundial.

O responsável por coordenar a decoração desde 1994 é Celso Mendes. O planejamento da ornamentação atual começou há três meses, diz ele. Mas o das próximas edições já está em andamento. Segundo o representante, os projetos para a Copa do Mundo Feminina de 2027 e para o próximo Mundial masculino já estão praticamente definidos.
“O planejamento da rua dura três meses, mas o planejamento do projeto dura quatro anos. O projeto da próxima Copa do Mundo feminina, por exemplo, a gente já está fazendo. Quando terminar tudo aqui na Pereira Nunes, ele já vai estar pronto”, contou em entrevista à Agenda do Poder.
A dedicação também é traduzida em números. Conforme Celso, a decoração já consumiu cerca de R$ 22 mil e deve ultrapassar R$ 27 mil até o fim dos trabalhos. O recurso vem principalmente de doações e da mobilização dos próprios moradores.
Segundo ele, também houve alta nos produtos em razão do aumento no preço do petróleo durante o conflito entre Irã e Estados Unidos. Isso refletiu diretamente no valor dos materiais utilizados. “O petróleo valorizou e tudo que é feito de plástico também aumentou de preço. O rolo de plástico que custava R$ 30 foi para R$ 66. Mais que dobrou. E a gente compra rolos de cem metros, não tem como comprar um ou dois metros. Tudo aqui é em grande proporção”, conta.

Neste ano, a ornamentação ganhou também um novo significado. A proposta traz referências ao autismo e à inclusão. Um dos desenhos foi pintado por pessoas autistas e familiares, que participaram da construção da iniciativa. “Este ano nós colocamos o tema do autismo, da inclusão. Temos a bandeira sensorial e uma imagem que foi pintada pelos autistas. Desde abril, logo após o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, eles vieram aqui à noite e pintaram o desenho.”
A Rua Pereira Nunes é recordista de premiações. Em 2006 venceu o campeonato “Minha Rua é Louca Pelo Brasil”, organizado pela Coca-Cola. Em 2010 recebeu o prêmio “Rua Gente Boa”, promovido pela Antártica. Em 2014 conquistou o campeonato “Entre no Clima”, da Band Rio. Já em 2022 ganhou o título “Ruas da Torcida”, da Brahma.
Para Celso, uma das razões para manter a iniciativa está na tentativa de estimular os encontros presenciais e a convivência entre diferentes gerações. “Eu acho que a tradição está acabando e um dos motivos da gente fazer isso é tirar a criança de dentro de casa. A minha maior vontade aqui na rua é fazer algo que assuste a rotina e faça a criança sair do quarto”, diz.

E não para por aí. Além da pintura, o clima de Copa impulsiona outras atividades. Aos domingos, moradores realizam encontros para troca de figurinhas. Os cães também participam da programação e recebem brindes. Há ainda atividades físicas voltadas para os moradores.
“Agora temos uma professora, a Kelly, que vai promover outra atividade física aqui às sete horas da manhã. Então isso vai além do futebol. O futebol já une naturalmente as pessoas, mas a gente procura criar outras atividades”, conta.
Mão na massa
Entre os responsáveis por transformar as ideias em desenhos está o publicitário Rodrigo Habib, desenhista desde os cinco anos. Morador da rua desde 2022, ele passou a participar da decoração após conhecer Celso. Hoje é um dos principais responsáveis pelos traços que tomam conta do asfalto.
As ilustrações surgem das conversas entre moradores, ganham forma no papel e depois seguem para a rua. Algumas são executadas coletivamente. Outras exigem horas de dedicação individual. É o caso dos retratos de Pelé e Marta, que consumiram quase um dia inteiro de trabalho de Rodrigo.
“A do Pelé e da Marta, que chegaram agora no fim de semana. Eu fiquei de onze da manhã até dez horas da noite. Mas eu fiz tudo sozinho, desde o risco até a pintura. Geralmente eu faço o risco e outras pessoas pintam, mas aquele ali especialmente eu fiz todo. Deu trabalho e dor nas costas”, brinca.
Ao longo da via, os desenhos fazem referências à Seleção Brasileira, a ídolos do futebol e a elementos do cotidiano nacional. Entre os mais fotografados está o cachorro caramelo com uma canaleta na cabeça. A inspiração veio do filho de Rodrigo e acabou incorporada ao projeto deste ano. Para ele, participar da decoração produz uma sensação semelhante à terapia.
“Eu costumo dizer que é terapêutico. Estou em casa cheio de problemas, venho para cá, esqueço os problemas e convivo com o pessoal daqui. A gente forma uma grande família.”

O início da tradição
Mas de onde surgiu a prática de pintar e decorar as ruas para a Copa do Mundo?
Segundo o jornalista e doutorando em Comunicação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Marcelo Resende, autor do livro “7×1 nos jornais do Brasil“, a tradição remonta à década de 1970.
“A cultura brasileira de pintar as ruas para a Copa do Mundo começa na década de 70. No trabalho da pesquisadora Simone Guedes e de Dedisson Márcio da Silva, intitulado ‘O Segundo Sequestro do Verde e Amarelo: Futebol, Política e Símbolos Nacionais’, eles já demarcam, já evidenciam, que na Copa do Mundo de 1970, no tricampeonato, já existiam pinturas de ruas para o Mundial”.
Marcelo Resende, jornalista
Conforme o pesquisador, mesmo em um contexto de instrumentalização dos símbolos nacionais pela ditadura militar, a população se apropriava dessas referências para manifestar apoio à Seleção Brasileira.
A prática se fortaleceu durante os anos 1980, ganhou ainda mais intensidade nos anos 1990 e alcançou novas dimensões nos anos 2000, recupera o jornalista. O movimento ajudou a consolidar uma cultura de torcida coletiva que associava o desempenho da Seleção a sentimentos de pertencimento nacional.
“Pintar as ruas é uma expressão cultural muito importante. É um processo que acontece por meio do futebol e por meio da Copa do Mundo, pela intenção da população em apoiar a Seleção Brasileira.”
Segundo ele, a nostalgia também aparece como elemento importante nesse processo. Afinal, é impossível passar por esses lugares sem lembrar das copas anteriores, como a de 2014, que as cidades pulsavam verde e amarelo.



“A pintura das ruas envolve um sentimento principalmente de tradição e de nostalgia. A tradição porque, se você for pegar o relato das pessoas que estão envolvidas agora em 2026, a maioria delas vai falar que é um processo que vem desde os seus pais, dos seus tios, dos mais velhos, que faziam isso nas Copas de décadas atrás.”
Neste ano, ainda segundo o pesquisador, as redes sociais têm ampliado a visibilidade dessas iniciativas. São vídeos e fotografias das pinturas que circulam amplamente pelas plataformas digitais e ajudam a impulsionar novas mobilizações. Algumas ruas retomaram tradições antigas. Outras aderiram ao movimento pela primeira vez.
Alguns vêm de longe apenas para tirar fotos e se sentir contagiados pelo clima da Copa. Outros têm a oportunidade de ver o movimento através das redes e dos conteúdos produzidos por aqueles que comparecem presencialmente.
‘Festa da cidadania’
Para a professora titular do Departamento de Urbanismo da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), Fernanda Sanchez, coordenadora do Laboratório de Pesquisa Grandes Projetos Urbanos (GPDU) e autora do livro A Copa do Mundo e as cidades, a relação entre Copa e espaço urbano vai além da torcida.

“Ao fazer essa apropriação do espaço da rua, ela passa a ser um lugar que não é apenas de passagem ou de entrada e saída de carros, mas sim um lugar de encontro, um lugar de congraçamento, um lugar de vida pública”.
A pesquisadora aponta que os megaeventos historicamente despertam diferentes formas de ocupação das cidades. Em alguns momentos, elas aparecem na forma de celebração. Em outros, por meio de reivindicações sociais e políticas. É o caso da Copa de 2014, que ocorreu um ano depois das jornadas de junho, em 2013.
“Houve também outros momentos em que, nas cidades brasileiras, as ruas e os espaços públicos foram usados para protestos. Antes da Copa de 2014, quando aconteceram grandes jornadas em cidades brasileiras como São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, as pessoas também iam para a rua para se manifestarem pedindo políticas públicas.”
As manifestações daquele período reuniam reivindicações por melhorias em áreas como saúde, educação e mobilidade urbana. Para a pesquisadora, essa característica reforça o papel da rua como espaço democrático e de expressão coletiva.
“Isso mostrava que os cidadãos gostam de comemorar, adoram torcer, adoram preparar suas ruas e seus espaços públicos, mas adoram também a rua como espaço da cidadania, como espaço da expressão popular.”
Nessa lógica, a retomada das pinturas também pode ser associada ao processo de recuperação das formas de convivência afetadas pela pandemia. “É um momento de expressão da cidadania, que ficou muito contida, muito silenciada também pelo medo. A última Copa foi em 2022, a gente ainda estava saindo da pandemia.”

Reconquistar as ruas
Nesse movimento, a Rua Pereira Nunes não está sozinha. A poucos metros dali, uma outra referência em decoração para Copa também se apronta para o campeonato. A famosa Rua Jorge Rudge, localizada em Vila Isabel, é historicamente conhecida como pentacampeã de decorações de Copa do Mundo.
Em Laranjeiras, a tradicional Rua General Glicério retomou a decoração coletiva. “Houve três artistas que são moradores também da Rua General Glicério que coordenaram os trabalhos. É uma rua onde há muitos professores, estudantes, artistas. Durante três domingos houve a pintura coordenada, organizada, muitas crianças e adolescentes se envolveram e a gente pode ver um resultado bonito”, contou a professora Fernanda Sanchez.
Na Rocinha, moradores voltaram a ornamentar a famosa Via Ápia. Em Duque de Caxias, mulheres e crianças também participaram da pintura da Rua Chuí. Além de outras ruas em Madureira, Irajá, na Zona Norte e bairros da Zona Oeste.
Segundo o pesquisador Marcelo Resende, a retomada das pinturas também ajuda a produzir novas narrativas sobre territórios frequentemente associados apenas a problemas sociais. Em alguns locais, as ruas decoradas passaram a atrair visitantes e se transformaram em pontos de interesse durante o período da Copa.
“O futebol e a Copa do Mundo sendo usados como um instrumento para mostrar que a cultura favelada também tem seu valor, em contraponto ao que é visto costumeiramente nas redes sociais, na mídia e no jornalismo, que muitas vezes exibem a favela apenas como sinônimo de pobreza ou de violência.”

Para o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Alexandre Pessoa, a retomada dessas iniciativas ajuda a recuperar vínculos coletivos que foram enfraquecidos nos últimos anos. “A rua é o lugar de encontro por excelência, é o espaço público que permite que a sociedade se veja, discuta ideias. Uma cidade com a rua sem vida, sem uso, destrói essa possibilidade.”
Segundo o urbanista, manifestações populares como Copa do Mundo, Carnaval, festas juninas e celebrações de fim de ano cumprem papel importante na construção da vida urbana e da cidadania. “O ato de pintar as ruas é a domesticação do espaço público, a transformação do espaço hostil em um lugar amigável. O clima político e esportivo induz a esse comportamento, democrático e plural.”
O Rio nas Cores do Hexa
Neste ano, a cultura ganhou também reconhecimento institucional. A Prefeitura do Rio criou o Concurso Carioca de Decoração de Rua para a Copa do Mundo de Futebol, intitulado “Acreditar é uma Arte – O Rio nas Cores do Hexa”.
A iniciativa vai premiar as três ruas mais bem decoradas da cidade. O primeiro lugar receberá R$ 50 mil. O segundo colocado ganhará R$ 30 mil e o terceiro, R$ 20 mil. Além disso, as 20 ruas finalistas receberão placas comemorativas de reconhecimento cultural.
Segundo a prefeitura, o objetivo é incentivar a participação das comunidades, fortalecer o espírito esportivo e valorizar uma tradição popular que há décadas colore bairros cariocas durante os mundiais.
Enquanto a Seleção Brasileira busca o hexacampeonato, os preparativos seguem em andamento. Na Pereira Nunes ainda faltam bandeiras, novos elementos decorativos e os últimos retoques. Para Celso Mendes, o esforço vale a pena.
“Então é de quatro em quatro anos, mas também são 365 dias por ano lutando e brigando para manter essa tradição, que já tem 48 anos. E vamos seguir inspirando. Se Deus quiser, vamos para o hexa do Brasil e continuar fazendo história aqui na Pereira Nunes. Nós já comemoramos cinco títulos e queremos o sexto”, conclui, orgulhoso.
A Seleção Brasileira busca o hexacampeonato mundial. O Brasil conquistou os títulos de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 e sediou a competição em 1950 e 2014 — nas duas ocasiões, a final foi realizada no estádio do Maracanã.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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