Foi em 15 de junho de 2014, no Maracanã, que a seleção da Bósnia e Herzegovina entrou pela primeira vez em campo na Copa do Mundo. Perdeu de virada para a Argentina de Messi por 2 a 1 e, ainda assim, cumpriu uma missão que havia levado mais de duas décadas, uma guerra sangrenta e o desmonte completo de um país para se tornar possível: disputar um Mundial como nação independente, apenas alguns dias depois de completar o aniversário de sua fundação como seleção, ocorrida em novembro de 1995, dias depois do fim da Guerra da Bósnia. Não é pouca coisa para um time que, décadas antes, nem existia oficialmente, porque seus melhores jogadores estavam ocupados jogando por um país do Bloco Soviético. 

A Bósnia não teve tempo de construir uma tradição futebolística devagar, como fizeram Inglaterra, Brasil ou Uruguai. Ela teve que construir um país primeiro, debaixo de bombardeio, e só depois pensar em escalação. O resultado é uma seleção cujo currículo cabe em um parágrafo, mas cuja biografia exigiria um livro. 

E para entender como um time consegue nascer de dentro de outro, no meio de uma guerra que ninguém queria admitir que estava acontecendo, é preciso voltar bem antes de 2014, antes até de Sarajevo ser sitiada, antes das limpezas étnicas, para um país que não existe mais, foi dividido em sete, e que, ironia das ironias, foi uma das maiores potências do futebol mundial.  

Um país chamado Iugoslávia. 

Belgrado, a antiga capital da Iugoslávia (Crédito: Reprodução)

Que visão é essa? 
 

É preciso aqui uma breve aulinha de história. A ideia de unir os povos eslavos do Sul em um único Estado é mais antiga do que qualquer bola rolando em campo, mas ganhou corpo depois da Primeira Guerra Mundial. Em 1919, ainda sob o pomposo nome de Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, foi fundada em Zagreb a federação de futebol que daria origem à seleção nacional, e o time estreou em competições internacionais nos Jogos Olímpicos de Antuérpia, em 1920, perdendo para a Tchecoslováquia.  

O reino reunia territórios que haviam pertencido a impérios diferentes (austro-húngaro e otomano, entre outros), e o futebol, sintomaticamente, já nascia dividido entre facções regionais antes mesmo de o país completar dez anos. 

Em 1929 o reino foi rebatizado de Iugoslávia, nome que significa, em tradução livre, “terra dos eslavos do sul”. Depois da Segunda Guerra Mundial, com a criação de um novo governo socialista, o futebol do país foi reorganizado e a federação nacional se tornou, em 1954, uma das fundadoras da Uefa. Ou seja, antes de a Iugoslávia virar sinônimo de conflito étnico nos noticiários dos anos 1990, ela era sinônimo de futebol bem jogado e ganhou até o apelido de: os “brasileiros da Europa”. 

Antiga bandeira do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos

Lá houve uma revolução socialista pra valer? 

Diferentemente do golpe de estado russo aplicado por Lenin e que o Stalin convenceu o mundo de que foi uma Revolução popular, a Iugoslávia socialista nasceu de uma guerra de resistência aos nazistas conduzida pelos partisans comunistas liderados pelo marechal Josip Broz  Tito, que, ao fim do conflito, assumiu o controle do país e implantou um regime socialista com identidade própria.  

Sob a liderança autoritária de Tito, o país adotou o socialismo, mas rompeu com a União Soviética de Stalin em 1948, traçando uma linha geopolítica independente e pioneira no Movimento Não Alinhado. Nem Moscou e menos ainda Washington. A República Socialista Federativa da Iugoslávia, uma nação que agrupava seis diferentes países: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Montenegro, Macedônia e Bósnia e Herzegovina. 

O truque de Tito foi segurar, no mesmo balaio, povos com línguas, religiões e memórias históricas de conflito entre si. Funcionou, e funcionou bem, durante décadas. O problema é que regimes que seguram tensões à força costumam ter uma data de validade, e a da Iugoslávia venceu junto com a vida de seu criador. 

Marechal Tito e bandeira da Iugoslávia

O que aconteceu quando o Marechal Tito morreu? 

Tito morreu em 1980 e, com ele, morreu o único cimento que mantinha as repúblicas iugoslavas coladas. O país começou a se desfazer em meio a brigas políticas entre as repúblicas, e as diferenças de origem étnica explodiram em guerras. O nacionalismo, que havia sido reprimido durante décadas em nome da unidade socialista, voltou com força total, e cada república passou a olhar para as outras com desconfiança crescente. 

Com o colapso da União Soviética e o fim da influência soviética sobre a região, os movimentos de independência ganharam o impulso final de que precisavam. Eslovênia e Croácia declararam independência em 1991. O exército tentou impedir, mas o efeito dominó já não tinha mais como ser interrompido. A Bósnia, multiétnica como poucas repúblicas iugoslavas, seria a próxima da fila, e a mais castigada. 

Os países que formavam a Iugoslávia

Os “brasileiros da Europa” 

Antes de se desmilinguir, a Iugoslávia foi uma seleção respeitadíssima. Ao todo, disputou oito edições da Copa do Mundo entre 1930 e 1990. O melhor resultado veio logo na estreia, em 1930, no Uruguai, quando a Iugoslávia chegou às semifinais do primeiro Mundial da história, caindo diante do anfitrião e ficando em quarto lugar. 

A segunda melhor campanha repetiu o roteiro trinta e dois anos depois. Em 1962, no Chile, a seleção voltou a parar nas semifinais, perdendo a decisão pelo terceiro lugar e ficando novamente com a quarta colocação. Fora essas duas campanhas de destaque, a Iugoslávia foi presença frequente nas fases finais, incluindo a campanha de 1990, quando chegou às quartas de final antes de ser eliminada, numa geração recheada de talento que, ironia do destino, nunca chegaria a jogar outra Copa com a camisa que a revelou. 

A lista de ídolos iugoslavos é longa e atravessa gerações. Dragan Džajić é o jogador com mais partidas pela seleção, com 85 jogos entre 1964 e 1979, enquanto Stjepan Bobek é o maior artilheiro da história do time, com 38 gols marcados entre 1946 e 1956. Mais perto do fim, Darko Pančev, vencedor da Chuteira de Ouro europeia em 1991, defendeu a seleção de 1984 até a dissolução do país. 

Importante registrar que boa parte desse talento vinha justamente da Bósnia, muito antes de o país ter seleção própria. Vários jogadores bósnios integraram a icônica equipe de 1974, como o atacante Dušan Bajević marcando três gols na goleada histórica de 9 a 0 sobre o Zaire. E o maior craque bósnio de todos, o meia Safet Sušić, considerado o melhor jogador da história da Bósnia, e o segundo melhor jogador do Paris Saint-Germain, depois do brasileiro Raí, segundo uma pesquisa de 2020.  Ele defendeu a Iugoslávia na Copa de 1982, anos antes de voltar como técnico para comandar a própria seleção bósnia rumo à sua estreia mundial no Brasil em 2014. 

O meia Safet Sušić, considerado o melhor jogador da história da Bósnia, e o segundo melhor jogador do PSG (Crédito: Reprodução)

O que aconteceu com os países que nasceram da finada Iugoslávia? 
 

O desmembramento da Iugoslávia produziu seleções novas, e o desempenho de cada uma na Copa virou uma espécie de ranking informal de quem “ficou com a herança” do time antigo. A Croácia é, disparada, a mais bem-sucedida: chegou à final da Copa de 2018 e terminou em terceiro lugar em 1998, a melhor campanha entre todas as seleções nascidas da antiga Iugoslávia. A Sérvia, reconhecida por Fifa e Uefa como sucessora oficial da Iugoslávia, manteve o nome do país até 2003 e desde então já disputou quatro Copas do Mundo, sem repetir os grandes feitos do passado. 

Entre as demais seleções nascidas da fragmentação, a Eslovênia disputou duas Copas, assim como a própria Bósnia (contando a Copa deste ano), mas nenhuma das duas avançou além da fase de grupos. Quanto a craques, não faltam: a Croácia revelou Davor Šuker, Luka Modrić e Zlatko Dalić como treinador; a Sérvia formou nomes como Dušan Tadić; e seu ídolo maior, Safet Sušić. 

Quem nasceu onde e jogou por qual time ou seleção? 

Em função das guerras que veremos adiante, é praticamente impossível falar do futebol da região sem esbarrar em bósnios de nascimento que vestiram a camisa de outros países. O caso mais emblemático talvez seja o do zagueiro Vedran Ćorluka, nascido em Derventa, na Bósnia, que fugiu para a Zagreb ainda criança e se tornou um dos jogadores mais respeitados da seleção croata, disputando a final da Copa de 2018. 

Do lado sérvio, o zagueiro Neven Subotić, nascido em território bósnio, construiu carreira de destaque na Bundesliga alemã, enquanto Vladimir Petkovic, ex-treinador da seleção suíça, nasceu em Sarajevo e hoje comanda a Argélia. Outros como Sead Kolašinac, por exemplo, nasceu na Alemanha e defendeu as seleções de base alemãs antes de optar por jogar internacionalmente pela Bósnia. 

A diáspora bósnia é vasta, e o futebol é apenas um reflexo dela. 

O que foi a Guerra da Independência? 

Quando se fala em “Guerra da Independência” no contexto da ex-Iugoslávia, o termo costuma se referir ao ciclo de conflitos que acompanhou a saída das repúblicas do país desde 1991, começando pela breve Guerra dos Dez Dias, na Eslovênia, e seguindo pela muito mais longa e sangrenta Guerra da Croácia. Foi esse ciclo que abriu a rachadura definitiva na Iugoslávia e criou o precedente, e o clima de urgência, para que a Bósnia também buscasse sua separação. 

No caso bósnio especificamente, um referendo pela independência foi realizado entre 29 de fevereiro e 1 de março de 1992, com boicote quase total dos sérvios bósnios, resultando em uma participação de 63,4% dos eleitores e 99,7% dos votos favoráveis à separação.  O problema é que, diferentemente de outras repúblicas, a Bósnia tinha uma população extremamente misturada entre bosníacos, sérvios e croatas, o que transformou a declaração de independência não em um ponto final, mas no gatilho de uma guerra própria e ainda mais violenta. 

A Guerra da Bósnia 

A Guerra da Bósnia foi o conflito armado que se seguiu à declaração de independência do país, estendendo-se de abril de 1992 a dezembro de 1995, entre sérvios bósnios, croatas bósnios e bósnios muçulmanos, numa disputa territorial que rapidamente se transformou em um dos capítulos mais brutais da história europeia recente. O saldo estimado do conflito é de cerca de 100 mil mortos e mais de dois milhões de deslocados, praticamente metade da população do país antes da guerra. 

O episódio mais lembrado da guerra é o cerco a Sarajevo, capital bósnia, que ficou cercada por mais de três anos e meio, submetida a bombardeios e à ação de franco-atiradores contra civis. O conflito só terminou depois de uma intervenção da Otan e da assinatura, em dezembro de 1995, do Acordo de Dayton, negociado nos Estados Unidos. 

Soldados bosníacos comemoram o fim da guerra (Crédito: Reprodução)

O que foram as denúncias de “limpeza étnica”? 

Ao longo da guerra, forças sérvias e croatas foram acusadas de conduzir campanhas sistemáticas de expulsão e extermínio de populações de outras etnias em territórios que buscavam controlar, prática que passou a ser conhecida como “limpeza étnica”.  

De acordo com decisão do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, tanto forças sérvias quanto croatas realizaram essa limpeza étnica na Bósnia de forma planejada por suas lideranças políticas, com o objetivo de criar territórios etnicamente homogêneos, o que incluiu prisões em massa, destruição de patrimônio histórico e religioso e expulsões forçadas de civis. 

O ponto mais grave dessas denúncias foi o massacre de Srebrenica, em julho de 1995, quando forças sérvias tomaram uma área que havia sido declarada “zona segura” pela ONU. O massacre resultou na morte de mais de 8 mil homens e meninos bosníacos, considerado pela Justiça internacional como o único genocídio reconhecido na Europa depois da Segunda Guerra Mundial. 

Existe hoje uma Sérvia e Uma outra Sérvia dentro da Bósnia? 

Pare tudo o que está fazendo e tome um café antes de continuar. Porque aqui a história fica beeeeeem complicada. Essa curiosa e tensa realidade geográfica de fato existe. De acordo com o intrincado mapa de paz desenhado pelos Acordos de Dayton em 1995, a Bósnia-Herzegovina foi dividida em duas grandes partes autonômicas. 

Uma dessas metades é a Federação da Bósnia e Herzegovina, composta em sua maioria por cidadãos muçulmanos e croatas. A outra metade é a República Srpska, controlada e habitada predominantemente por sérvios bósnios. Ambas as entidades formam um único país oficial perante a comunidade internacional, mas operam com governos, forças policiais, parlamentos e orçamentos internos totalmente apartados. 

E para explodir de vez sua cabeça, ainda existiram mais duas Sérvias. Durante o caos das guerras dos Balcãs nos anos 1990, existiu ainda uma terceira: a República Sérvia da Krajina (Republika Srpska Krajina). Ela foi uma entidade autodeclarada por rebeldes sérvios dentro do território da Croácia entre 1991 e 1995. Os sérvios que moravam ali não aceitavam a independência da Croácia e tentaram criar o seu próprio Estado. Essa república acabou extinta em 1995, quando o exército croata retomou o controle da região na chamada Operação Tempestade.  

E para fechar (ufa!), entre 2003 e 2006, a União Européia, tentando evitar novas tretas nos balcãs, criou a República de Sérvia e Montenegro, funcionando como uma confederação altamente instável. Mas, pelo menos dessa vez, ninguém atirou em ninguém. Esse arranjo político, que muitos chamavam de “casamento de conveniência”, acabou de forma pacífica em junho de 2006, após um plebiscito oficial em que a população de Montenegro votou a favor da separação, motivada pelo desejo de buscar uma integração econômica no bloco europeu, sem ter de arrastar as correntes do fantasma do comunismo. 

Brasão da República Srpska

Mas voltando a falar em futebol… 

A campanha bósnia nos gramados brasileiros em 2014 foi repleta de dignidade e momentos de pura emoção. Sorteada no Grupo F, a equipe estreou na Copa logo no Maracanã e enfrentando a poderosa Argentina de Lionel Messi, sofrendo uma derrota apertada por 2 a 1, partida em que o atacante Vedad Ibišević teve a honra de marcar o primeiríssimo gol da história do país em Mundiais. 

O sonho de avançar de fase desmoronou no segundo confronto, quando os Dragões foram derrotados por 1 a 0 pela Nigéria em um jogo marcado por um erro gravíssimo da arbitragem, que anulou um gol completamente legítimo de Edin Džeko. Já matematicamente eliminada, a Bósnia despediu-se do público brasileiro mostrando bom futebol ao vencer o Irã por 3 a 1 em Salvador, gols anotados por Džeko, Pjanić e Vršajević. 

Mas para a orgulhosa Bósnia uma única Copa no histórico era muito pouco e ela resolveu dar as caras novamente em 2026, transformando a vida dos seus torcedores em um verdadeiro teste cardíaco balcânico até o jogo de hoje. Alternando entre momentos de pura magia técnica dignos dos “brasileiros da Europa” e apagões táticos que fazem parecer que os jogadores estão debatendo os Acordos de Dayton em pleno gramado, eles seguem vivos na competição na base do puro drama, provando que o importante não é a estabilidade tática, mas sim garantir que ninguém assista aos seus jogos sem um calmante do lado. 

Os “Dragões” ou “Lírios Dourados” na Copa de 2026 (Crédito : Reprodução)

E só pra fechar, a seleção não tem nenhum apelido? 

Chega a ser engraçado. Mas a Bósnia consegue arranjar encrenca até na hora de escolher um apelido para sua Seleção. Menos usado, mas muito presente, é o “Zlatni Ljiljani”, ou os “Lírios Dourados”, referência a um antigo símbolo do brasão bosníaco. Um nome que mete tanto medo nos adversários quanto, convenhamos, “Seleção Canarinho”. 

Mas a seleção prefere atender por “Zmajevi”, que significa “Dragões”. O apelido faz referência a Husein Gradaščević, figura histórica conhecida como o “Dragão da Bósnia”, e foi popularizado por um comentarista de televisão durante a campanha eliminatória para a Copa de 2010. Se é para acuar um adversário em seu campo de defesa, não sejamos hipócritas, é melhor um dragão que uma linda florzinha. 

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