Guibsom Romão
Abrindo a última noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro, o Paraíso do Tuiuti fez um desfile competente, com canto alto e intérprete espetacular.
O Paraíso do Tuiuti, com o enredo Lonã Ifá Lokumi, de autoria do carnavalesco Jack Vasconcelos, levou para a Sapucaí a jornada do oráculo Ifá, a religiosidade afro-cubana e sua conexão com a resistência iorubá, destacando a diáspora e a preservação cultural em Cuba, com toques de comparação ao candomblé brasileiro.
O enredo “Lonã Ifá Lucumí – O Caminho do Ifá Lucumí” apresentou ao público o Ifá como um sistema divinatório e filosofia ancestral da tradição iorubá, surgido na África Ocidental, que orienta os seres humanos por meio dos ensinamentos do orixá Orunmila, divindade da sabedoria e do destino. Mais do que religião, o Ifá foi retratado como um código ético transmitido oralmente, baseado no autoconhecimento, no equilíbrio e na responsabilidade individual diante do próprio caminho.
Ao adaptar o livro Ifá Lucumí – o resgate da tradição, de Nei Lopes, presente no desfile, o enredo transformou o desfile em uma jornada histórica e espiritual que explicou como esse conhecimento atravessou continentes, resistiu à escravidão e chegou ao Brasil como herança viva da diáspora africana.
Dividido em seis setores, o desfile organizou essa trajetória em etapas simbólicas: o primeiro apresentou a criação do Ifá e sua missão divina de guiar a humanidade; o segundo mostrou sua expansão a partir de Ilé Ifé para outras civilizações africanas; o terceiro encenou a travessia atlântica durante a diáspora, sob o domínio marítimo de Olokun; o quarto destacou o florescimento do Ifá entre os Lucumís em Cuba, símbolo de resistência cultural; o quinto detalhou a consolidação do Ifá cubano e seus desdobramentos na Santería; e o sexto concluiu com a chegada do Ifá Lucumí ao Brasil pelas mãos do babalawo Rafael Zamora Díaz, reafirmando o país como nova comunidade de difusão da palavra de Orunmila.
Com um samba-enredo muito elogiado no pré-carnaval, a escola teve uma condução magistral do intérprete Pixulé no comando do microfone principal que, em uma noite de gala, fez sua voz imperar pela Sapucaí e merece receber todos os prêmios do ano na sua categoria.
A comissão de frente, coreografada por David Lima e intitulada ‘O caminho se abre – Um canto para Orunmila’, representou, de maneira simbólica e pedagógica, o ponto de partida do enredo: a criação do universo segundo a cosmologia iorubá e o nascimento do destino humano. A apresentação contou com um tripé e efeitos especiais de iluminação que criaram um belíssimo impacto visual.
Vinicius Antunes e Rebeca Tito, casal de mestre-sala e porta-bandeira da escola, representaram o orixá Orunmila e a porta-bandeira dá vida ao Oponifá, a peça mestra do ritual de consulta a Ifá. Nas fantasias predominam tons de branco e prata, cores ligadas aos orixás primordiais. O casal apresentou um bailado com imenso vigor, demonstrando classe e elegância a cada módulo de jurados que eles passaram.
O grande destaque, impossível de não mencionar, foi a rainha de bateria Mayara Lima que, com fantasia inspirada nas sementes do dendê sagrado, provocou frisson nas frisas e arquibancadas à medida que a Super Som avançava pela Avenida. Diante dos módulos dos jurados, apresentou-se ao som dos atabaques e arrancou aplausos de pé, confirmando seu brilho e sua força na condução da bateria.
O abre-alas ‘Ilé-Ifé’ explicou, de forma visual e acessível, como nasceu e se espalhou o conhecimento de Ifá. A alegoria partiu da cidade sagrada de Ifé, considerada o berço da civilização iorubá, onde Orunmila, orixá da sabedoria e do destino, ensinou os fundamentos do oráculo aos dois primeiros sacerdotes, dando origem aos babalawos, responsáveis por interpretar os caminhos da vida.
Os elefantes da alegoria simbolizaram força e ancestralidade, enquanto os tons de branco e prata remeteram aos orixás primordiais. Na segunda parte do conjunto, a “barca” de sacerdotes representou a expansão desse saber para o mundo, e o grande Oponifá girando no centro sintetizou a ideia de que a sabedoria de Ifá passou a orientar toda a humanidade. O carro abriu o desfile com imensa imponência.
Quando ecoava o refrão “Canta, Tuiuti”, a Sapucaí virou um só coro. A arquibancada cantou em plenos pulmões, provando que o samba-enredo já era do povo.
A escola abriu um buraco no segundo módulo de jurados, justamente no setor que concentra duas cabines de avaliação, um incidente que pode comprometer a nota no quesito Evolução na apuração da Quarta-feira de Cinzas.
No conjunto, o Paraíso do Tuiuti apresentou um desfile sólido, conceitualmente bem amarrado e conduzido com segurança do início ao fim, transformando a Sapucaí em espaço de celebração da ancestralidade iorubá e da resistência cultural afro-diaspórica. Com um samba que ganhou a voz do público, interpretações marcantes e alegorias de forte impacto simbólico, a escola reafirmou sua vocação para enredos de densidade histórica e espiritual.
Resta saber se o pequeno deslize na Evolução terá peso decisivo na apuração, mas, em termos de narrativa e presença cênica, a Tuiuti cumpriu com competência a missão de abrir a última noite do Grupo Especial.






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