Trump diz que Rússia é ‘tigre de papel’ e Kremlin reage: ‘Somos urso de verdade’

Porta-voz do Kremlin ironiza declaração do presidente dos EUA e reforça que guerra atende às necessidades estratégicas russas

A Rússia reagiu nesta quarta-feira (24) às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chamou o país de “tigre de papel” ao comentar a guerra contra a Ucrânia. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a comparação é equivocada e que Moscou está mais próxima de ser “um urso de verdade”.

“A Rússia definitivamente não é um tigre. Afinal, a Rússia é mais frequentemente comparada a um urso. Não existem ‘ursos de papel’ e a Rússia é um urso de verdade”, disse Peskov em entrevista à emissora russa RBC.

Conflito de narrativas

As falas do porta-voz foram uma resposta direta às declarações de Trump, que no dia anterior, após encontro com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em Nova York, adotou um novo tom em relação ao conflito. O presidente dos EUA afirmou acreditar que Kiev poderá recuperar todos os territórios perdidos desde a invasão russa, há mais de três anos e meio.

Trump acrescentou que, diante dos “problemas econômicos que isso está causando à Rússia”, este seria “o momento para agir”. O republicano afirmou ainda que “uma potência militar de verdade teria vencido em menos de uma semana” e que a demora de Moscou no campo de batalha a faz parecer “um tigre de papel”.

Rússia reforça posição sobre a guerra

Na coletiva desta quarta-feira no Kremlin, Peskov rejeitou categoricamente a possibilidade de a Ucrânia reverter os ganhos territoriais da Rússia. “A ideia de que a Ucrânia possa recuperar algo na guerra é profundamente equivocada”, disse o porta-voz.

Ele também destacou que a economia russa consegue atender plenamente às necessidades das Forças Armadas e reforçou que o conflito “não é uma guerra sem propósito”.

Termo histórico e disputa simbólica

O uso da expressão “tigre de papel” por Trump trouxe à tona um termo carregado de simbolismo. A expressão foi popularizada pelo líder chinês Mao Tse-tung para descrever forças que aparentam ser poderosas, mas que, na prática, seriam frágeis. Ao aplicá-la à Rússia, o presidente dos EUA buscou questionar a capacidade real de Moscou de sustentar a guerra.

A reação de Peskov, recorrendo à imagem do urso, tradicionalmente associado ao país, buscou reafirmar a força e a resiliência da Rússia no cenário internacional.

Escalada na Otan e episódios recentes

Trump também defendeu, em sua fala, que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) derrube aeronaves militares russas que invadirem o espaço aéreo da aliança. Questionado por jornalistas se apoiaria essa medida, respondeu: “Sim, eu apoio”.

Indagado sobre se os EUA participariam diretamente de tais ações, disse que isso “dependeria” das circunstâncias.

Nos últimos dias, uma série de episódios envolvendo supostas violações aéreas russas aumentou a tensão na Europa:

  • 22 de setembro: drones sobrevoaram a região de Copenhague, na Dinamarca, interrompendo voos por quase quatro horas.
  • 19 de setembro: a Estônia acusou a Rússia de violar seu espaço aéreo com três jatos de combate.
  • 13 de setembro: a Romênia enviou caças à fronteira após drones russos invadirem o país.
  • 9 de setembro: a Polônia anunciou ter abatido drones que cruzaram sua fronteira a partir da Ucrânia.

Mudança de tom de Trump

A postura mais dura de Trump surpreendeu aliados e analistas, já que até recentemente ele defendia que Kiev cedesse parte de seu território para encerrar a guerra. A mudança de discurso, feita após encontro com Zelensky, sinaliza uma possível reorientação da política estadunidense diante do prolongamento do conflito e do desgaste russo no cenário econômico.

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