Transplante de intestino inédito no Rio pelo SUS usa órgãos de doadora de 5 anos

Viviane de Freitas Vale recebeu intestinos delgado e grosso de uma doadora de 5 anos após dez anos de tratamento contra a doença de Crohn

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O Rio de Janeiro realizou pela primeira vez um transplante de intestino em uma paciente atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Viviane de Freitas Vale, de 40 anos, recebeu um novo intestino delgado e um novo intestino grosso no último sábado (5), em uma cirurgia que durou aproximadamente seis horas.

O procedimento foi realizado no Hospital Adventista Silvestre, no Cosme Velho, Zona Sul do Rio. Os órgãos vieram de uma menina de 5 anos que teve morte cerebral. A família da criança autorizou a doação.

Viviane completa 41 anos nesta quinta-feira (10) e chega ao aniversário em uma nova fase do tratamento. Segundo a equipe médica, os órgãos transplantados estão funcionando bem.

Dez anos de luta contra a doença de Crohn

Viviane convive há dez anos com a doença de Crohn, condição inflamatória que afeta o sistema digestivo. Durante esse período, passou por oito cirurgias para a retirada de partes do intestino.

Com o avanço da doença e as sucessivas intervenções, o intestino deixou de absorver adequadamente os nutrientes necessários ao organismo. Viviane passou, então, a depender de alimentação administrada diretamente pela veia.

A situação se tornou ainda mais delicada quando uma trombose comprometeu os acessos utilizados para a nutrição, inclusive no pescoço e nas pernas. Diante desse quadro, o transplante passou a representar uma alternativa para a paciente.

“Eu estava muito cansada. Essa espera é muito longa, vai para um lado, vai para outro. Eu acordei para uma nova vida, para a Viviane desse tempo”, contou.

Doação de criança de 5 anos tornou cirurgia possível

A doadora estava internada no Hospital Adão Pereira Nunes, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Após a confirmação da morte cerebral, a família autorizou a doação dos órgãos.

A decisão permitiu que Viviane recebesse tanto o intestino delgado quanto o grosso.

“Meu muito obrigado, porque eles transformaram a dor em amor. O sim da família me deu esse poder de continuar”, afirmou Viviane.

A filha da paciente, Thayla Vale, acompanhou a espera pelo transplante e a recuperação da mãe. Para ela, o procedimento abre a possibilidade de Viviane retomar momentos da vida familiar que ficaram comprometidos durante os anos de tratamento.

“É uma alegria, uma emoção que não cabe dentro da gente. Ela pode voltar a ser minha mãe. Isso me deixa feliz: ver minha filha crescer, meu sobrinho, me ver formar”, disse Thayla.

Transplante intestinal chegou ao SUS em 2025

O transplante de intestino foi incorporado ao SUS em fevereiro do ano passado. Até então, pacientes brasileiros que necessitavam desse tipo de cirurgia dependiam de encaminhamento para tratamento fora do país.

O procedimento é considerado um dos mais complexos na área de transplantes. Além da estrutura hospitalar especializada, a operação depende de uma logística rigorosa entre a captação e o implante do órgão.

Segundo Eduardo Fernandes, chefe da equipe de transplantes do Hospital Adventista Silvestre, o caso de Viviane exigiu atenção especial porque envolveu dois órgãos com características distintas.

“Apesar de serem intestinos, eles se comportam de maneiras diferentes. O Rio de Janeiro é referência nacional, e a gente fica muito feliz por trazer essa inovação para o país”, afirmou.

Outro desafio foi encontrar uma doação compatível. Como Viviane tem estrutura física pequena, a equipe precisava de um doador também pequeno, o que tornou necessária a busca por um órgão pediátrico.

“No caso da paciente, nós fizemos dois transplantes: do intestino delgado e do grosso. São doadores restritos. Ela é pequena, então tinha que ser um doador pequeno, pediátrico, que é raro, e com uma isquemia curta. O órgão fica no gelo, e o ideal é que esse tempo seja o mais curto possível”, explicou Fernandes.

Recuperação exige acompanhamento contra rejeição

Superada a cirurgia, Viviane entrou em uma etapa igualmente importante do tratamento. A equipe médica acompanha o funcionamento dos novos órgãos e monitora possíveis sinais de rejeição.

O intestino apresenta uma taxa de rejeição mais elevada em comparação com outros órgãos transplantados. Por isso, a paciente precisa de acompanhamento contínuo e de medicamentos destinados a impedir que o sistema imunológico ataque os órgãos recebidos.

Até agora, de acordo com a equipe responsável pelo procedimento, a evolução é considerada positiva e o novo intestino está funcionando bem.

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