A crise climática provocou 220 milhões de deslocamentos internos nos últimos dez anos, segundo relatório da Agência da ONU para Refugiados (Acnur), lançado na COP29 em Baku. Os números refletem a quantidade de pessoas que tiveram de deixar temporariamente suas casas devido a desastres naturais e eventos extremos.
A análise diferencia-se do cálculo da Organização Internacional para as Migrações (OIM), que mede o número de deslocados ao final de cada ano, considerando apenas os que não retornaram aos seus lares.
O relatório ressalta que a mudança climática não apenas aumenta o número de deslocamentos internos, mas também se soma a conflitos e agrava a vida de refugiados. Esses desastres aprisionam deslocados em ciclos contínuos de migração forçada, como visto nas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em maio, deixando 181 mortos e mais de 2 milhões de afetados, incluindo 43 mil refugiados de países como Venezuela, Haiti e Cuba.
Em 42 países houve deslocamentos devido a conflitos em 2023
Atualmente, 90 milhões dos 120 milhões de deslocados no mundo vivem em regiões vulneráveis aos impactos climáticos extremos. Em 42 dos 45 países que registraram deslocamentos devido a conflitos em 2023, também houve migração forçada por desastres naturais, comprometendo ainda mais os esforços dos Estados em investir em adaptação e resiliência.
O estudo da Acnur alerta que a crise climática atinge com mais força comunidades que historicamente têm baixa responsabilidade na emissão de gases de efeito estufa, configurando uma “crescente injustiça”. A agência da ONU destaca que, embora os desastres climáticos afetem populações inteiras, a governança inadequada e o financiamento limitado dificultam medidas de adaptação e mitigação, ampliando a vulnerabilidade.
População vulnerável deverá triplicar até 2040
Com o aumento das temperaturas e a intensificação de eventos climáticos severos, a Acnur estima que até 2040 a exposição das populações vulneráveis a múltiplos riscos climáticos triplicará em regiões como as Américas, África Ocidental-Central e Sudeste Asiático. O número de países sujeitos a eventos extremos deve saltar de 3 para 65, incluindo o Brasil.
Diante desse cenário, a Acnur tem adaptado sua atuação. Em Moçambique, por exemplo, o campo de refugiados de Nampula está sendo transformado em uma “vila verde”, visando fortalecer a resiliência climática dos moradores. Além disso, apenas 24 dos 60 Planos Nacionais de Adaptação e 25 das 166 Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) incluem diretrizes para proteger deslocados por desastres climáticos.
No lançamento do relatório, o alto comissário Filippo Grandi destacou a urgência de integrar a questão dos deslocados pela crise climática em políticas globais e defendeu a criação de medidas de adaptação que protejam as populações vulneráveis.
Com informações da Folha de S.Paulo
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