O TikTok acompanha o comportamento dos usuários dentro do aplicativo. O que nem todos sabem é que o alcance da plataforma vai além da rede social. Segundo reportagem da BBC News Brasil, a empresa utiliza uma ferramenta chamada “pixel”, instalada em milhares de sites, que permite monitorar atividades na internet — inclusive de pessoas que nunca criaram uma conta na plataforma.
No início de fevereiro, análises independentes identificaram websites enviando ao TikTok dados relacionados a diagnósticos de câncer, exames de fertilidade e até buscas por ajuda em crises de saúde mental. As informações fazem parte de um sistema de rastreamento que, segundo especialistas, tem se expandido silenciosamente.
Como funciona o pixel
O pixel é uma tecnologia amplamente utilizada na indústria da publicidade digital. Trata-se de um código invisível incorporado em páginas da web que coleta dados sobre a navegação dos visitantes.
Empresas utilizam essa ferramenta para medir a eficácia de anúncios e direcionar publicidade personalizada. Google e Meta, por exemplo, empregam mecanismos semelhantes há anos.
No caso do TikTok, o pixel permite que a plataforma identifique se uma pessoa visualizou um anúncio e depois realizou uma compra em outro site. Com isso, anunciantes conseguem medir resultados e ajustar campanhas.
Segundo análise realizada pela empresa de cibersegurança Disconnect, o pixel atualizado do TikTok coleta dados de maneira considerada incomum quando comparada a concorrentes.
“Ele é extremamente invasivo”, afirma o chefe de tecnologia da Disconnect, Patrick Jackson. “Ele ampliou o compartilhamento de dados.”
“Quando você analisa o código real do pixel, você observa coisas que parecem muito ruins.”
A empresa alega que o código atualizado passou a interceptar automaticamente informações que os sites enviam a outras plataformas, como o Google, o que pode ampliar o volume de dados captados.
Coleta de informações sensíveis
Em testes realizados, a Disconnect identificou que, ao interagir com determinados formulários em sites de saúde, informações sobre condição médica e endereço de e-mail foram repassadas ao TikTok.
Segundo especialistas, mesmo pessoas que nunca utilizaram o aplicativo podem ter dados coletados se visitarem sites que utilizam o pixel.
Um porta-voz do TikTok afirmou que os usuários são informados sobre as práticas de coleta de dados nas políticas de privacidade e que a empresa oferece configurações para controle das informações.
“O TikTok empodera os usuários com informações transparentes sobre suas práticas de privacidade e oferece diversas ferramentas para customizar sua experiência”, declarou.
A empresa também afirma que os sites parceiros são responsáveis por cumprir leis de privacidade e que é proibido compartilhar dados sensíveis, como informações de saúde.
Expansão do sistema após mudança nos EUA
Em 22 de janeiro de 2026, após mudanças na estrutura operacional do TikTok nos Estados Unidos, os usuários passaram a aceitar novas diretrizes de coleta de dados. Entre as novidades está a ampliação da rede publicitária da plataforma.
O pixel, que antes servia principalmente para medir resultados de anúncios dentro do aplicativo, agora auxilia no acompanhamento de usuários fora da plataforma, em sites de terceiros.
Segundo Arielle Garcia, do grupo Check My Ads, isso tende a aumentar o alcance do rastreamento.
“Naturalmente, estas ferramentas tornam a plataforma mais atraente para os anunciantes — e é isso, em última análise, que faz com que as plataformas de anúncios cresçam”, explica Garcia.
A empresa DuckDuckGo aponta que o TikTok mantém rastreadores em cerca de 5% dos principais sites do mundo. Em comparação, o Google aparece em aproximadamente 72% e a Meta em cerca de 21%.
“Esta é literalmente a cartilha empregada pela Google e pela Meta há anos”, afirma o diretor-executivo de produtos da DuckDuckGo, Peter Dolanjski.
Segundo ele, o acúmulo de dados permite a criação de perfis detalhados, que podem ser usados para influenciar decisões de consumo, campanhas políticas ou até práticas de discriminação de preços.
“Os algoritmos podem usar esses dados para explorar você”, explica. “Pode ser coerção para que você compre alguma coisa, podem ser campanhas políticas, pode ser discriminação de preços.”
Como se proteger
A boa notícia, segundo especialistas, é que existem medidas simples para reduzir o rastreamento. A principal recomendação é utilizar navegadores com foco em privacidade, como DuckDuckGo ou Brave. Firefox e Safari também oferecem proteção superior à do Google Chrome, que concentra cerca de 71% dos usuários e, segundo pesquisas preliminares, apresenta maior exposição de dados.
Outra alternativa é instalar extensões bloqueadoras de rastreamento, como as oferecidas pela própria Disconnect, DuckDuckGo, Privacy Badger ou Ghostery. Alguns bloqueadores de anúncios também reduzem a coleta de dados.
No entanto, especialistas alertam que o bloqueio de pixels não elimina totalmente o rastreamento. Empresas também utilizam outros métodos, como o compartilhamento direto de dados entre servidores.
“É uma caixinha de surpresas”, explica Dolanjski. “Não sei dizer com que frequência ela é utilizada, pois tudo acontece nos bastidores.”
Para ele, a proteção individual ajuda, mas não resolve o problema estrutural.
“É muito mais difícil se proteger contra isso. Sua única defesa real é não usar as mesmas informações pessoais em vários serviços”, afirma.
Garcia reforça que a solução mais ampla depende de regulamentação.
“Este problema não se limita a uma plataforma”, explica ela. “É todo um ecossistema de tecnologia de publicidade que, em última análise, precisa ser combatido com regulamentações mais fortes.”
“A única medida que realmente trará mudanças virá quando as pessoas fizerem suas vozes serem ouvidas junto aos legisladores, deixando claro que sua privacidade é algo que realmente as preocupa.”






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