Uma escola pública da Maré, na Zona Norte do Rio, está entre as dez finalistas do World’s Best School Prizes 2026, conhecido como a “Copa do Mundo das Escolas”, na categoria Superação de Adversidade. Única unidade de ensino pública brasileira na disputa, o GET IV Centenário transformou o ensino na região, um dos territórios mais impactadas pela violência urbana na capital fluminense.
No GET IV Centenário, o dia não começa com o toque do sinal, como acontece na maioria das escolas. Antes das primeiras atividades, os alunos são recebidos com música e, já em sala de aula, encontram espaço para conversar sobre as próprias emoções. É justamente essa forma de ensinar que levou a unidade a alcançar resultados como 97% de alfabetização na idade adequada, frequência acima de 90% e zero evasão escolar.
Esse modelo, batizado de “A Fábrica dos Sonhos”, é perceptível já na entrada dos alunos. Às 8h, todos são recebidos diariamente pela diretora da escola, Alessandra Aguiar. Depois formam fila na área do pátio, enquanto são assistidos pelos pais, que aguardam a primeira programação do dia, o famoso “Café com Prosa”.

Nesse momento, os alunos se reúnem e cantam o hino da escola, uma música criada por eles mesmos com o auxílio da Inteligência Artificial. A equipe da Agenda do Poder acompanhou um dia na rotina dos estudantes da unidade, que atende do 1º ao 5º ano do ensino fundamental.
Da pandemia nasceu a Fábrica de Sonhos
Embora a tecnologia chame atenção, a diretora Alessandra Aguiar faz questão de dizer que esse não é o ponto de partida. Segundo ela, a transformação começou depois da pandemia, quando a equipe percebeu que era impossível ensinar da mesma forma crianças que convivem diariamente com perdas e com a insegurança provocada pelos confrontos armados na região.
“Em 2023 tivemos menos de 52 dias de aulas presenciais por causa da situação do território. Depois de uma operação policial, muitas vezes não era possível dar aula no dia seguinte. Entendemos que era preciso fazer uma virada de chave, valorizando o acolhimento e as emoções”, conta.
Ainda conforme Alessandra, o cenário das operações é mais regra do que exceção, o que pressionou o modelo educacional a pensar formas de mitigar os efeitos da violência no entorno.

Foi desse processo que nasceu a metodologia Fábrica de Sonhos, hoje responsável por orientar toda a rotina da escola. Ela se apoia em três pilares: vínculo com a família, acolhimento emocional e protagonismo estudantil.
Cada família participa de uma entrevista detalhada antes do início das aulas. A escola procura conhecer a trajetória da criança desde o nascimento, estabelece metas conjuntas e acompanha individualmente cada estudante ao longo do ano letivo.
“Tudo aqui é pensado e planejado para que essas crianças saiam da escola, ao final do quinto ano, sonhando com uma vida de possibilidades. A gente mostra para elas todos os dias que podem ser o que quiserem. O nosso lema é que o IV Centenário é forte porque possibilita sonhar.”
Aprender começa pela escuta
Todos os dias, cada uma das nove turmas dedica cerca de vinte minutos para conversar sobre como estão se sentindo antes das atividades programadas pelos professores. Alessandra ressalta que a prática da escuta emocional já é considerada pelos professores como parte da aula.
Para isso, as turmas contam com o chamado termômetro das emoções, ferramenta em que registram como estão se sentindo naquele dia. Ao término da conversa, avaliam a emoção predominante e atualizam o termômetro geral da escola por meio de uma placa de computação chamada Microbit.
Aos 10 anos, Júlia Thilot participa das atividades de programação e diz que aprender tecnologia passou a fazer parte da rotina.

“O microbit é uma placa. Para a gente conseguir programar ele, a gente entra na plataforma MakeCode e programa para o que a gente quer. Eles conseguem fazer várias coisas, como o carrinho das emoções. A gente aperta a setinha e ele passa para o lado. É ele que faz o estímulo”, explica.
Tecnologia como ferramenta
Depois de construir esse ambiente de confiança, entram em cena as ferramentas que tornaram o Ginásio Educacional Tecnológico (GET) uma referência em inovação. Como unidade do modelo GET, a escola conta com um laboratório conhecido como Colaboratório.
No Colaboratório — considerado pela equipe o coração da escola — impressoras 3D, canetas tridimensionais, placas de programação, robótica e realidade virtual fazem parte do cotidiano dos alunos. É nesse espaço que os estudantes investigam problemas da própria comunidade e pensam soluções.
Uma turma, por exemplo, desenvolveu um projeto sobre mobilidade depois de perceber as dificuldades enfrentadas por uma colega com deficiência visual nas ruas da Maré. Outra produziu mapas interativos sobre a história das comunidades do complexo.





“Hoje o colaboratório é o coração da escola. As salas de aula são como o corpo, e o laboratório é o coração que faz tudo pulsar. Eles começam a pensar no que os incomoda dentro da própria realidade”, conta Alessandra Aguiar, diretora do GET IV Centenário.
Para coordenar os trabalhos no laboratório e viabilizar a aprendizagem por meio do ensino tecnológico, a professora Gisele Duarte Coutinho teve que investir em cursos de capacitação e em uma pós-graduação.
“Eu lembro que falei para a diretora: ‘eu não sei muita coisa, mas estou disposta a aprender’. A partir daí comecei a estudar, fazer cursos, buscar informações sobre os conteúdos da sala para trazer também para o planejamento e para as atividades.”

Atualmente, ela coordena atividades com Microbit, impressoras 3D e robótica. “Esse dinamismo e essa interação tornam o processo de aprendizagem muito mais significativo, porque ele se torna real. A gente consegue visualizar, na prática, aquilo que é aprendido na teoria”, destaca.
Na prática, os equipamentos do Colaboratório ajudam os estudantes a se conectarem com a história do local onde vivem. Entre os projetos desenvolvidos está um mapa interativo que apresenta as 16 comunidades da Maré por meio da voz dos próprios alunos. Cada localidade ganhou um ponto de áudio gravado pelas crianças, que pesquisaram a origem de cada região e programaram o funcionamento da atividade.
Aluno do 3º ano, Heitor Côrrea explicou o projeto com a naturalidade de quem já incorporou a programação ao dia a dia. “As crianças gravaram a voz e colocaram no mapa. Aqui atrás tem o Makey Makey. É um joguinho com vários fios. A gente liga o cabo e, quando encosta, ele fecha o circuito e faz funcionar.”
O aprendizado, ele aponta, “foi tudo questão de experiência aqui na escola.”

Quatro décadas formando gerações
Essa facilidade com ferramentas tecnológicas é o que mobiliza diariamente a professora Silvia Gigante, 67, que sai de Jacarepaguá, na Zona Sudoeste da cidade, para dar aulas na Maré. Segundo ela, o reconhecimento internacional representa uma espécie de coroação da própria trajetória.
“Eu adoro estar aqui. Moro em Jacarepaguá e venho para cá com vontade, com prazer de trabalhar. Tenho muito prazer em fazer o que eu faço. Agora, com esse prêmio é como se estivesse coroando o meu trabalho. Porque, se a gente modifica a vida de uma pessoa, isso já é muito gratificante.”
Ao longo de 40 anos na escola, ela passou a lecionar para filhos de antigos alunos e afirma que o ensino na Maré desafia os próprios professores a acompanhar as mudanças.

“Em 40 anos de profissão, o que eu aprendi lá atrás não basta. Eu preciso me aperfeiçoar e aprender muita coisa. Na parte de tecnologia, parece que eles já vêm preparados. Não são mais aqueles alunos de antigamente que a gente precisava incentivar. Eles aprendem muito rápido e querem coisas modernas”.
Maré de Possibilidades
A escola começou a acompanhar o Prêmio Melhores Escolas do Mundo ainda em 2023. No ano seguinte, decidiu iniciar o processo de inscrição, que envolveu o envio de documentos, entrevistas, visitas técnicas e avaliações feitas por especialistas internacionais em educação. Entre dezenas de instituições de diferentes países, o GET IV Centenário avançou até chegar ao grupo das dez finalistas na categoria Superação de Adversidade.
“Para mim, como diretora, participar dessa disputa representa a realização de um sonho. É muito bom ver aquilo que sonhamos sendo concretizado. É a confirmação de que estamos no caminho certo”, enfatiza Alessandra.

Segundo ela, o maior reconhecimento é a possibilidade de mostrar que crianças da Maré podem sonhar com qualquer profissão.
“Tenho certeza de que essas crianças saem daqui diferentes. Saem acreditando que podem ser médicas, cozinheiras, bombeiras, mecânicas, donas de loja, o que quiserem. Elas saem cercadas por pessoas que acreditam nelas.”
Alessandra Aguiar, diretora do GET IV Centenário
Votação popular
A escolha das escolas vencedoras acontece em duas etapas. Além da avaliação técnica feita por especialistas internacionais, o prêmio conta com votação popular aberta ao público até 29 de outubro, no site oficial da premiação. Para votar, basta acessar este link. O resultado será divulgado em novembro.
As escolas finalistas também participarão da Cúpula Mundial das Escolas (World Schools Summit), em Londres, nos dias 16 e 17 de janeiro de 2027, evento que reunirá educadores e formuladores de políticas públicas de diversos países para compartilhar experiências e boas práticas em educação.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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