Assino este ensaio como sociólogo que pensa o Brasil a partir de suas fraturas históricas, de suas ambiguidades raciais e de suas promessas não cumpridas. O artigo de Muniz Sodré, “Ninguém aqui é mestiço”, é intelectualmente sofisticado, provocador e coerente com uma tradição crítica que denuncia o uso ideológico da raça como instrumento de dominação. No entanto, justamente por sua força, exige resposta. Não para negá-lo, mas para tensioná-lo. Não para refutá-lo, mas para recolocar o problema no terreno histórico, sociológico e político em que ele se constitui.
Começo por uma concordância fundamental. Raça não existe como dado biológico. É uma ficção histórica mobilizada pelo poder. A crítica de Sodré à naturalização da mestiçagem como mistura de raças é correta. Também é correta sua denúncia do luso-tropicalismo e da romantização freyriana da violência colonial. Darcy Ribeiro, aliás, já havia feito essa crítica com clareza exemplar. Nunca houve cordialidade fundadora. Houve estupro, genocídio, escravidão e dominação. A mestiçagem brasileira nasce do trauma, não da conciliação.
O ponto de divergência surge quando Sodré conclui que, por ser a raça uma ficção, o mestiço também o seria. Aqui, o argumento escorrega. Não porque a mestiçagem seja biológica, mas porque ela é histórica, social, cultural e política. Darcy Ribeiro jamais tratou o mestiço como categoria racial. O mestiço, em sua obra, é uma condição civilizatória. É o resultado de um processo violento de etnogênese. É um sujeito histórico produzido pela destruição de povos originários, pela escravidão africana e pela imposição de um modelo colonial de sociedade.
Negar a existência do mestiço como experiência social concreta equivale a apagar uma das formas centrais pelas quais o racismo opera no Brasil. Aqui, o preconceito não se organiza apenas pela oposição branco versus negro, mas por uma hierarquia cromática sofisticada, sinuosa e móvel. O pardo não é um artifício estatístico vazio. É um lugar social instável, ambíguo, atravessado por exclusões específicas. O IBGE não inventou o pardo. Ele registrou uma autodeclaração que corresponde a vivências reais de milhões de brasileiros.
Quando Sodré afirma que negro é pertencimento político-existencial, ele está correto. Mas isso não elimina o fato de que muitos sujeitos vivem uma experiência racializada que não se reconhece integralmente nem no polo da branquitude, nem no da negritude política organizada. Esses sujeitos existem. Trabalham. Sofrem discriminação. Morrem mais cedo. Recebem menos. São abordados pela polícia. E, ao mesmo tempo, são frequentemente interpelados como não negros o suficiente para falar, para reivindicar, para pertencer.
É nesse ponto que emerge o debate contemporâneo sobre Parditude. Não como identidade racial biológica. Não como substituição da luta negra. Mas como linguagem crítica de uma experiência silenciada. O movimento Parditude, articulado intelectualmente por Beatriz Bueno, não reivindica uma raça parda. Reivindica o direito de nomear uma vivência histórica específica produzida pela lógica colonial brasileira. A Parditude não nega a negritude. Ela revela zonas de fratura dentro da racialização.
Afirmar que ninguém é mestiço pode soar libertador no plano conceitual. No plano social, porém, pode operar como nova forma de apagamento. O mestiço de Darcy Ribeiro não é uma carapuça literária. É o povo que construiu o Brasil e foi sistematicamente excluído do poder. É o caboclo, o sertanejo, o crioulo, o caipira. É a base material da nação e o alvo permanente do desprezo das elites brancas.
O erro histórico das classes dominantes brasileiras não foi reconhecer a mestiçagem, mas instrumentalizá-la para negar o racismo. O erro político contemporâneo seria jogar fora o conceito de mestiçagem junto com sua manipulação ideológica. O desafio é outro. É disputar o sentido da mestiçagem. Retirá-la do mito e recolocá-la no conflito.
Somos mestiços mesmo nos declarando negros porque a negritude no Brasil não elimina a história da mistura forçada, da violência sexual colonial e da diluição identitária imposta. Declarar-se negro é um ato político necessário. Mas isso não apaga a memória social da mestiçagem nem as marcas específicas que ela imprime nos corpos, nos territórios e nas trajetórias.
O Brasil não é uma sociedade binária. É uma sociedade de gradações, de zonas cinzentas e de classificações móveis. O racismo brasileiro opera por ambiguidade. Por isso mesmo, exige categorias analíticas capazes de dar conta dessa complexidade. A Parditude, nesse sentido, não é um retrocesso. É sintoma. É resposta. É tentativa de elaboração coletiva de uma ferida histórica que nunca foi tratada com honestidade.
Darcy Ribeiro apostava no povo mestiço como potência civilizatória. Não por ingenuidade, mas por rigor sociológico. O problema do Brasil nunca foi o povo. Foi a elite que se recusou a reconhecê-lo como sujeito histórico. Muniz Sodré tem razão ao denunciar a farsa da raça. Mas é preciso cuidado para não transformar essa crítica em nova abstração que desconsidera experiências concretas de subalternização.
O que está em jogo não é afirmar uma identidade parda como essência. É reconhecer que a luta antirracista no Brasil precisa lidar com a especificidade de um país formado pela mistura violenta, pela negação da origem e pela hierarquização da cor. Ignorar isso é importar modelos analíticos que não dão conta da nossa formação social.
Somos mestiços mesmo nos declarando negros porque a mestiçagem não é escolha individual. É herança histórica. É estrutura. É marca social. E, enquanto ela continuar organizando desigualdades, silenciamentos e exclusões, continuará exigindo nome, análise e disputa política. Não para dividir, mas para compreender. Não para enfraquecer a luta negra, mas para torná-la mais complexa, mais honesta e mais enraizada na realidade brasileira.
Assumo, portanto, esta resposta como parte de um debate necessário. O Brasil não será explicado nem transformado pela negação de suas contradições, mas pela coragem de enfrentá-las com rigor intelectual e compromisso político.
*Paulo Baía é sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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