Serviço que recebe denúncias de violência contra a mulher realiza 2.000 atendimentos por dia no Brasil

Programa passou por reestruturação e, além de denúncias, oferece informação e auxílio a vítimas

O Ligue 180, serviço que recebe denúncias de violência contra a mulher, teve mais de 750 mil atendimentos em 2024, uma média de 2.000 por dia — nem todo atendimento gera uma denúncia, já que a central telefônica também serve para orientação e acolhimento.

O número representa 7,8% mais do registrado em 2023, ano que o programa iniciou uma reformulação e passou a deixar de ser um um canal apenas para denúncias de violências.

Além disso, a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) havia unificado o Disque 100, voltado para denúncias de direitos humanos de múltiplos segmentos do país, com o Ligue 180. Para a atual governo Lula (PT), a medida foi um erro por misturar diferentes públicos e situações.

Agora, o Ligue 180 é independente da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos e atende apenas situações de violência contra mulheres.

Para a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, um dos grandes desafios é que a vítima tenha acesso à informação. “Muitas vezes, ela não deixa o agressor porque acha que vai perder a casa, a guarda dos filhos. Então, elas podem ligar para receber esse tipo de informação”, diz.

O ministério atribui o aumento na procura a uma maior confiança no canal. Ao todo, houve um aumento de 15% nas denúncias. Segundo os dados do ministério, das 132 mil queixas, 83 mil foram feitas pela própria vítima, 48 mil por terceiros e 156 pelo próprio agressor.

Os dados demonstram que os agressores, na maioria das vezes, são os companheiros ou ex-companheiros das mulheres e que a faixa etária que mais busca o serviço é de 40 a 44 anos.

É nessa fase que as mulheres estão, em geral, saindo do período reprodutivo e entrando na menopausa, sendo por isso de críticas dos parceiros.

“Uma mulher acima de 40 anos já passa a ser vista como velha, como se não tivesse mais utilidade. Mas também são mulheres que, em geral, estão em graus mais elevados do mercado de trabalho e têm acesso a mais informações”, diz Cida.

O local mais comum em que as violências acontecem ainda é o ambiente doméstico. Nas ligações, aparecem principalmente como a “casa da vítima” (53.019), “casa onde reside a vítima e o suspeito” (43.097) e “casa do suspeito” (7.006). A pasta também destaca que o ambiente virtual aparece em quase 7.000 dos casos.

Entre os tipos de violência mais frequentes está a psicológica, que aparece em mais de 100 mil dos casos; patrimonial (19.095); sexual (10.203), violência moral (9.180) e cárcere privado (3.027). Porém, é comum que uma denúncia contenha mais de um tipo de violação de direitos das mulheres.

Os dados da pasta também demonstram que as mulheres vivenciam situações de violência por anos e diariamente. Ao todo, mais de 32 mil denúncias são de agressões que acontecem há mais de um ano e 18 mil indicam que começaram há um mês. Quase metade das mulheres (46,4%) reporta agressões diárias, e “ocasionalmente” foi a segunda categoria mais frequente.

Sobre esse dado, a ministra avalia que a mulher, em geral, demora para buscar ajuda e houve casos em que a vítima procurou denunciar o suspeito 20 anos depois. “Eles vão perceber que estão sofrendo violência bem mais na frente e, na maioria das vezes, é quando a violência chega nas crianças, no limite máximo, que ela busca ajuda.”

Para a ministra, além da informação, é preciso que o governo federal consiga fazer um trabalho articulado com governos estaduais e municípios para garantir o atendimento das vítimas. “É preciso garantir que a maioria dos municípios tenha um serviço de atendimento ou uma equipe que tenha condições de fazer o atendimento a comunidades de situação de violência”, diz a ministra.

Em meio a pesquisas que indicam que o Brasil segue batendo recordes de violência contra a mulher, Cida lembra que a polarização e o ódio também influenciam índices. “O ódio que acontece nas ruas, no trânsito, no trabalho, vai se repetir dentro de casa”, diz.

Com informações da Folha de S. Paulo.

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