Quando o calor se intensifica, os moradores do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, precisam usar a criatividade. Em alguns casos, um banho de mangueira ajuda a refrescar em meio a temperaturas acima de 40ºC. A situação é agravada por lajes, barracos uns sobre os outros e escassa vegetação nas favelas da região. Em outros, piscinas de plástico, baldes e até caixas d’água servem para atenuar a sensação de abafamento.

Mas nem sempre isso é possível. Moradores relatam falta de água e luz, impedindo o uso de ar-condicionado ou ventilador em algumas ocasiões. Os relatos fazem parte de um universo de 640 moradores entrevistados pelo Observatório do Calor, que monitora ilhas de calor extremo e parâmetros de qualidade do ar. A ação, desenvolvida em parceria entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (SMAC) e a ONG Voz das Comunidades, busca promover a educação ambiental.

Observatório do Calor faz pesquisa em favelas do Complexo do Alemão | Crédito: Vitória Pinheiro

Moradora do Complexo do Alemão, Kelly da Silva, 43, diz que é comum ver pessoas passando mal ou até desmaiando por causa do calor extremo na favela. “E, quando está muito calor, falta água e luz. A condição das famílias é precária, porque as telhas nos barracos esquentam muito. E nem todo mundo tem condição de ter um ventilador para se refrescar. Então, as pessoas acabam indo para a rua”.

A exposição prolongada ao calor extremo cobra um preço alto do organismo, com sintomas como tontura, desmaio e até colapso cardiovascular.

“O aumento da temperatura acelera os batimentos cardíacos e intensifica a perda de água pelo corpo. Além disso, a exposição direta aos raios ultravioleta pode causar queimaduras de primeiro grau e até lesões mais profundas na pele. E, com esse superaquecimento, o que a gente faz nas emergências é baixar fisicamente essa temperatura, com banho gelado”.

Médico Rinaldo Tavares, da Faculdade de Medicina da UFF

População do RJ sofre com onda de calor | Crédito: Tomaz Silva / Agência Brasil

O Rio vive em um cenário de alerta com a saúde da população em meio às altas temperaturas. Com sensação térmica de até 50ºC nas comunidades, a capital fluminense registrou nível 3 de calor, terceiro nível de cinco do Protocolo de Calor definido pelo Centro de Operações e Resiliência do Rio (COR-Rio). O estágio é identificado quando há previsão de persistência ou aumento por ao menos três dias seguidos.

“Há aumento na incidência das ondas de calor por conta da mudança do clima com as emissões de gases de efeito estufa. E, aliado a isso, uma urbanização sem planejamento, que não tem regiões com árvores que consigam prover sombra para a população. A realidade acaba amplificando duas vezes o sinal das ondas de calor”, complementa Márcio Cataldi, professor de Engenharia Agrícola e do Meio Ambiente da UFF.

Banho de mangueira nas favelas é opção para se refrescar

Nesse cenário, os moradores das favelas do Complexo do Alemão fazem o que podem para se refrescar. “Quando dá, as pessoas tomam banho de mangueira”, diz Esther Morais de Oliveira, há mais de 20 anos na região.

Outra alternativa é ainda mais improvisada, com uso de toalhas úmidas pelo corpo, como conta Jéssica dos Santos de Almeida, 27. “O calor tem provocado alterações na pressão de idosos, falta de ar, enjoos e dores de cabeça, levando a episódios de mal-estar. Diante do calor extremo, os moradores recorrem a alternativas improvisadas mesmo”, relata Jéssica.

A ausência de políticas públicas de planejamento urbano, como arborização, ventilação adequada, infraestrutura de moradia e acesso à água, faz com que o calor seja sentido de forma muito mais intensa. Isso é resultado de um projeto de cidade que não inclui as favelas”.

Jéssica dos Santos de Almeida, moradora do Alemão

A meteorologista Camilla Visibeli diz que favelas costumam ser mais afetadas pelo calor intenso devido à menor densidade de áreas verdes, que auxiliam na redução da temperatura. “Locais mais urbanizadas e regiões mais periféricas são mais afetadas, sendo propícias a se tornarem ilhas de calor. O Rio também sofre a influência de uma alta pressão, que vem impedindo a aproximação das frentes frias”, diz.

Simara Regina, uma das pesquisadoras do Observatório do Calor no Complexo do Alemão, concorda com a relação direta entre o calor extremo, a estrutura precária e as alternativas encontradas pelos próprios moradores para sobreviver. “Muitos moradores acabam cortando árvores para fazer um puxadinho, o que contribui para o aumento do calor. Vivemos em uma selva de concreto. ”, diz, com a percepção de quem entende que ainda há um longo caminho que precisa ser trilhado para atenuar a sensação de calor extremo nas favelas do Rio.

População busca alternativa para enfrentar o calor no Rio / Crédito: Divulgação

‘Até a sombra é dividida’

Idealizadora do Observatório do Calor no Complexo do Alemão, Gabriela Conc relaciona o calor nas favelas como consequência de um ambiente, que inclui alta densidade de moradias, pouca ventilação e materiais que acumulam calor, como as lajes, fazem parte desse cenário.

Sem áreas verdes e sem políticas públicas de climatização, a consequência é o calor extremo, como indica o cruzamento de dados da temperatura no Rio com estações locais.

O Calor 3 é o estágio que precede os dois níveis considerados mais críticos | Crédito: Agência Brasil

Nesse cenário desfavorável, como a população tenta atenuar a sensação de calor? Gabriela Conc ajuda a responder.

“Gambiarras elétricas ajudam a aliviar o calor, mas aumentam o risco de sobrecarga. Também é comum ver pessoas em áreas mais ventiladas, como portas de casa, becos e lajes. Existe muito cuidado coletivo, onde até a sombra é dividida, com atenção especial a crianças e idosos”.

Mas alerta: essas medidas não solucionam o problema. “São estratégias criadas pelos próprios moradores, quase sempre de forma improvisada, porque o Estado simplesmente não chega. Essas estratégias ajudam a sobreviver, não a enfrentar o calor extremo”.

Ela diz, ainda, que esse cenário precisa ser tratado como uma questão social, para que os moradores de favela não sejam os mais impactados.

Calor causa alta em atendimentos em unidades de Saúde do Rio

Pontos de distribuição de água gelada instalados para combater o calor extremo | Crédito: Secretaria estadual de Saúde

Em meio a esse cenário, também houve uma alta de atendimentos em unidades de Saúde a pessoas com problemas relacionados às altas temperaturas, como dor de cabeça, tontura, náusea, desidratação, insolação e até confusão mental.

Nas duas primeiras semanas do ano, mais de 2 mil pessoas foram atendidas nas UPAs com sintomas ligados às altas temperaturas, aumento de 7,3% em comparação ao mesmo período do ano anterior. Já a rede municipal registrou 3.119 atendimentos entre os dias 9 e 13 de janeiro, alta de 26,9% em relação à média histórica para o período.

Dados do Monitora RJ indicam que as temperaturas neste ano estão mais elevadas do que no mesmo período de 2025, quando não houve registro de calor extremo ou severo nas primeiras semanas de janeiro. Para minimizar riscos à saúde, a Secretaria estadual da Saúde disponibilizou pontos de hidratação em todas as UPAs. Além disso, o Samu reforçou o atendimento com veículos de intervenção rápida em áreas estratégicas da capital.

Agenda do Poder entrevista

Secretária municipal de Meio Ambiente e Clima, Tainá de Paula fala sobre o projeto e sobre a busca por soluções para minimizar o impacto do calor extremo nas favelas do Rio.

Agenda do Poder – Como está sendo feita a metodologia da pesquisa?

Foram selecionados pesquisadores que moram no Alemão para aferir dados meteorológicos e de qualidade de ar com um equipamento portátil. A medição é feita em três momentos do dia para uma cobertura mais abrangente do território. Eles vão em áreas no topo, mais próximas ao asfalto e em áreas mais cinzas. Além das aferições, a pesquisa também realiza entrevistas com moradores, buscando compreender as percepções sobre o calor e como as ondas de calor extremo afetam as rotinas.

Agenda do Poder – Quais os locais mais afetados pelo calor extremo?

Na cidade do Rio, os locais mais quentes incluem porções da Zona Norte, mais adensadas, com destaque ao Complexo do Alemão. Por isso, a escolha de receber o piloto do Observatório do Calor. Outros bairros do Rio, como Bangu, Guaratiba e Santa Cruz, na Zona Oeste, são famosos por serem muito quentes e isso se confirma nas aferições. Além do adensamento populacional, essas regiões já são mais quentes por ficarem em um vale que retém os ventos úmidos e frescos vindos do mar. No Alemão, a pesquisa indicou a região do Morro do Adeus como a mais quente entre as analisadas, com maior número de dias tendo a temperatura mais alta aferida, com recorrência de temperaturas acima de 40ºC durante o dia e 30ºC à noite, indicando forte retenção térmica.

Agenda do Poder – Quais medidas podem ser adotadas para atenuar o problema?

A Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) é uma política que pode ajudar também no enfrentamento aos impactos do calor, como ao promover a readequação de habitações que garanta maior conforto térmico, principalmente para quem vive nas áreas mais quentes. Também auxilia no processo linhas de crédito para linha branca eficiente. Ou seja, que funciona bem e que gasta pouca energia elétrica. Por fim, ações como telhados verdes ou brancos também podem ser incentivadas, o que, em adição a outras políticas públicas, também contribui para diminuir as temperaturas nas residências em maior vulnerabilidade.

Agenda do Poder – O problema envolvendo o calor extremo no Rio pode se agravar?

A ciência já mostrou que, se não limitarmos o aumento da temperatura média do planeta em relação à média pré-industrial a 1.5ºC, como propõe o Acordo de Paris, teremos efeitos muito graves em diversas áreas. O ano de 2024 foi o mais quente já registrado, ultrapassando 1,6°C acima dos níveis pré-industriais, e 2023 foi o segundo mais quente, e 2025 foi o terceiro.

Com o aquecimento do planeta, eventos climáticos extremos se tornarão cada vez mais frequentes e cada vez mais intensos.

É o caso de como ondas de calor extremo, secas, alagamentos, ciclones. Então, a tendência é que tenhamos cada vez mais dias quentes e que esses dias sejam muito mais quentes.

Agenda do Poder – É possível traçar um paralelo entre essas áreas e outras regiões no mundo?

As ondas de calor extremo começaram a se tornar notícia quando atingiam cidades europeias, que viram populações desacostumadas às elevadas temperaturas perecerem e, em muitos casos, viram óbitos. Em países do Sul Global, em sua maioria localizados nas faixas tropicais, o calor sempre foi realidade e não era visto como problema de saúde pública.

Com o aumento das ondas de calor extremo decorrente das mudanças do clima, o mundo passou a olhar para cidades tradicionalmente mais quentes que agora pereciam diante do extremo.

Como o racismo e a desigualdade social, ainda é uma dificuldade a compreensão de que as áreas mais afetadas são aquelas onde habitam as pessoas em maior vulnerabilidade socioeconômica. O que, no caso do Brasil, coincide com uma população majoritariamente negra.

Vemos casos de favelas na Índia e na África Subsaariana que repetem o que vemos no Alemão: temperaturas acima da média de outros pontos da cidade, população vivendo em casas de estrutura precária e sem o menor conforto térmico, maior impacto na saúde dessa população.

Agenda do Poder – O que as pessoas podem fazer para atenuar o problema em meio a esse cenário adverso de calor extremo?

É fundamental que a população siga as orientações dos serviços de saúde, para prevenir doenças relacionadas ao calor e para evitar o agravamento de casos.

A realidade meteorológica do planeta é outra e temos que nos acostumar.

Tem se tornado cada vez mais importante respeitar algumas informações que já recebemos há décadas, como a de evitar o sol das 10h às 15h. Além disso, é importante que empresas que prestam serviços em áreas externas tenham protocolos que considerem os dias de calor extremo, de modo a preservar a saúde de seus funcionários.

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