O verão no Rio de Janeiro ficou mais quente. Mas, para muita gente, o calor não é só desconforto. Todos os dias, milhares de trabalhadores enfrentam horas de sol e altas temperaturas, com o corpo no limite para garantir a própria sobrevivência.

Na segunda-feira (12), a capital carioca atingiu 40°C às 13h. A medição foi registrada na região da Marambaia, na Zona Oeste, e marca o dia mais quente do verão até agora na capital fluminense. No domingo (11), o município já havia enfrentado temperaturas extremas, com máxima de 39,7°C.

Rio chegou a ficar no nível 3 do Protocolo de Calor | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Por esse motivo, a cidade entrou no nível 3 do Protocolo de Calor, estágio acionado quando as temperaturas variam entre 36°C e 40°C por pelo menos três dias consecutivos. O nível antecede os dois estágios considerados mais críticos e serve de alerta para reforço dos cuidados com a saúde.

Nas ruas, nas praias e nos bairros da cidade, ambulantes, vendedores de praia, garis e feirantes seguem trabalhando mesmo quando os termômetros disparam. Para quem depende do rendimento diário, parar não é uma opção.

O feirante Filipe Bitencourt, de 26 anos, trabalha na Praça Edmundo Bittencourt, em Copacabana, na Zona Sul. Ele vende queijos há 2 anos na região e conta que, com as temperaturas elevadas, precisa se adaptar para cuidar da saúde e dos alimentos que comercializa.

“Tem que procurar sempre um local mais fresquinho. As barracas que ficam no sol acabam esquentando demais por causa da lona, que fica muito tempo no sol e parece que estamos sendo cozinhados vivos. Eu trabalho com queijo, que precisa ser resfriado. Então, tenho que me virar para proteger a mercadoria. Domingo agora fez 39ºC, isso é muita coisa para quem trabalha em uma feira toda tapada por lona”, desabafa o trabalhador.

O corpo sob pressão

A exposição prolongada ao calor extremo cobra um preço alto do organismo. Segundo o médico Rinaldo Tavares, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF), os riscos vão muito além do cansaço e podem afetar até mesmo a saúde cardiovascular. 

Feirante Filipe Bitencourt, de 26 anos, trabalha na Praça Edmundo Bittencourt | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

“O aumento da temperatura acelera os batimentos cardíacos e intensifica a perda de água pelo corpo. Além disso, a exposição direta aos raios ultravioleta pode causar queimaduras de primeiro grau e até lesões mais profundas na pele, a alterações, que a gente chama de pele espessada, muitas vezes a precipitação de câncer de pele”, destaca.

O calor extremo não afeta todas as pessoas da mesma forma. Segundo o médico, alguns grupos apresentam risco maior de sofrer descompensações quando expostos a altas temperaturas, especialmente em jornadas prolongadas de trabalho ao ar livre.

Entre os mais vulneráveis estão:

  • crianças;
  • idosos, especialmente aqueles com múltiplas comorbidades;
  • pessoas com doenças cardiovasculares;
  • pessoas obesas, que têm mais dificuldade de regular a temperatura corporal;
  • e pacientes que fazem uso contínuo de medicamentos que aumentam a perda de líquidos, como os diuréticos. 

Por que está tão quente?

O calor intenso que atinge o Rio não é fruto do acaso ou da estação veranil. De acordo com a meteorologista Camilla Visibeli, um sistema de alta pressão atmosférica tem atuado de forma persistente sobre a região.

“O que vem acontecendo no Rio de Janeiro é a influência de uma alta pressão, que costuma ficar mais deslocada para o oceano e agora está um pouco mais próxima da Costa. Com isso, ela vem impedindo que sistemas frontais, como as frentes frias e outros sistemas que podem diminuir um pouco a temperatura, avancem sobre o estado”, explica.

Além disso, os modelos climáticos indicam que episódios como esse tendem a se tornar mais frequentes. Chamados de bloqueio atmosféricos, esses sistemas funcionam como massas de ar seco, explica o professor Márcio Cataldi, do Departamento de Engenharia Agrícola e do Meio Ambiente da UFF. 

“Esses bloqueios aconteciam, em média, entre cinco a oito dias por cada mês de verão. Hoje, passamos a ter, praticamente, entre três e 15 dias. Ou seja, a partir de 2013 temos quase metade dos dias de cada mês do verão com condições de bloqueio”, completa.

Quando o corpo não consegue mais se resfriar

Tavares aponta que o risco da exposição ao sol aumenta quando a temperatura do ambiente se aproxima, ou ultrapassa, a temperatura corporal. Nessas condições, os mecanismos naturais de resfriamento deixam de funcionar adequadamente.

“O corpo funciona em uma temperatura entre 36º C e 37º C. Quando a temperatura ambiente começa a chegar próxima à temperatura corporal, você passa a não conseguir perder calor para o ambiente. Mesmo com a sudorese, com a vasodilatação cutânea, que é o mecanismo que o organismo lança mão para tentar controlar, ele (corpo) não consegue diminuir e acaba evoluindo com o aumento da temperatura corporal”, diz Tavares.

Com essa elevação progressiva da temperatura corporal, o médico explica que organismo entra em um estado de sobrecarga que pode comprometer funções vitais. Os sinais iniciais de alerta são: tontura, sensação de desmaio, síncope, que é próprio desmaio. E, às vezes, até um colapso cardiovascular. 

“E, com esse superaquecimento, o que a gente faz nas emergências é baixar fisicamente essa temperatura: um banho gelado, compressas geladas. Mas o que funciona mais é a prevenção”, reforça o médico.

Trabalhar mesmo sob risco

Mesmo diante dos alertas médicos e do calor cada vez mais intenso, muitos trabalhadores seguem na rua porque não têm alternativa. Para quem depende do movimento do dia para garantir o sustento, enfrentar o sol forte e as altas temperaturas virou parte da rotina, mesmo com o corpo dando sinais de exaustão.

Cleyton percebe uma queda no movimento e nas vendas por causa do calor | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Nas feiras livres, a tentativa é sobreviver entre sombras improvisadas e pausas rápidas para se hidratar.

“Estamos tendo que nos hidratar muito, procurar a sombra mais próxima que tiver e ficar debaixo dela, para poder conseguir resistir a esse clima que está bem difícil para todo mundo. A lona protege do sol, mas absorve o calor e traz uma temperatura mais alta. Tem muito idoso na feira que tem passado mal. É notório que as pessoas estão se resguardando mais nas residências e não comparecendo a feira”, relata Cleyton da Silva, 39, feirante que percebe uma queda no movimento e nas vendas.

Maria do Livramento, 40, vendedora de água de coco, conta que já precisou socorrer uma amiga de trabalho. Ela repete a fala dos colegas: “Tá sendo muito difícil, está muito quente”.

“Mas a gente tem que trabalhar, mesmo com essa correria o dia todo. Tem estado muito calor, tomo água, passo protetor solar, bebo água de coco e fico na sombra”

Maria do Livramento, vendedora de água de coco

Entre quem trabalha com alimentação, o cuidado precisa ser redobrado tanto com a própria saúde quanto com os produtos. 

“Eu costumo vir trabalhar de tênis, mas tenho optado pelo chinelo. É muita água para hidratar, protetor solar, chapéu, mas o calor está cada vez mais forte. Tem dias que a gente não consegue trabalhar com o guarda-sol, e costumo chegar aqui às 10h30, saindo às 14h30’’, relata Fabio Guimarães, de 45 anos, vendedor de quentinhas.

Com a sucessão de dias quentes, o vendedor também chegou a sofrer diversas vezes com pressão alta, intensificada pelo calor. 

“É tanto suor que a água não dá nem vazão. Isso tudo faz o nosso movimento de vendas cair. É preciso ter cuidado com a comida, deixar o ar-condicionado do carro ligado, comida sempre fresca”, afirma. 

Vendedor de quentinhas trabalha com auxílio de um chapéu e guarda-sol | Crédito: Manuela Carvalho / Agenda do Poder

Sinais de alerta 

A pressão alta, inclusive, é um dos claros sinais que o corpo dá para avisar que está entrando em exaustão térmica. Segundo Rinaldo Tavares, reconhecer esses sintomas é fundamental para evitar complicações.

“Os sinais de que o organismo está entrando em exaustão térmica seria a ocorrência de fraqueza muscular, câimbras e sudorese excessiva. Persistindo, normalmente existe a taquicardia: aumento da frequência cardíaca, alterações pressóricas, inicialmente a pressão arterial tende a elevar. E com o progresso, pode tender a diminuição da pressão, a quadros de síncope (desmaios) e desorientação’’. 

Nessa linha, a confusão mental também é muito comum, principalmente em idosos, afirma o especialista. Seguindo a desidratação e até mesmo uma hipertermia. Diante desses sintomas, a interrupção imediata da atividade é essencial.

“É sinal que tem que de imediato parar, se refrescar, baixar a temperatura, a ingesta hídrica. Tem que ser feita alguma coisa antes que entrem em colapso cardiovascular’’, acrescenta.

Ondas de calor mais frequentes e intensas

Por trás do calor extremo que castiga o Rio, há fatores que vão além do verão e ajudam a explicar por que as temperaturas parecem cada vez mais insuportáveis.

O Calor 3 é o estágio que precede os dois níveis considerados mais críticos | Crédito: Agência Brasil

“Tem o aumento na incidência das ondas de calor, em frequência e intensidade, por conta da mudança do clima, das nossas emissões de gases de efeito estufa. E, aliado a isso, a gente já tem a questão da urbanização. Uma urbanização não planejada, que não tem corredores verdes, regiões com árvores que consigam prover sombra para a população. A realidade acaba amplificando duas vezes o sinal das ondas de calor”, explica Márcio Cataldi.

Essa amplificação citada pelo pesquisador é sentida de forma desigual dentro das cidades. A meteorologista Camilla Visibeli destaca que a própria forma como o espaço urbano foi ocupado contribui para agravar o calor em determinadas regiões.

“Locais mais urbanizadas e regiões mais periféricas são mais afetadas, sendo propícias a se tornarem ilhas de calor, pela menor densidade de áreas verdes que auxiliam na redução de temperaturas e no conforto térmico”, afirma.

Existem soluções?

No pacote de soluções para quem precisa lidar com a rotina no dias quentes, os especialistas apontam que existem medidas como ajustes de jornada, pausas regulares, hidratação e protocolos específicos em dias de calor extremo. No entanto, na prática, essas ações nem sempre alcançam quem está na ponta, especialmente trabalhadores informais.

“Eles têm que tomar muito cuidado. Primeiro, na exposição solar: chapéu, óculos de sol, uma roupa adequada, que tenha proteção dos raios ultravioleta preferencialmente, e que seja ventilada. Procurar abrigos, tendas, guarda-sol, qualquer tipo de amparo que possa diminuir a exposição direta ao sol”, lista Tavares.

Segundo o médico, evitar quadros graves passa por atenção constante a três fatores principais durante o trabalho em dias de calor intenso.

“Há todo um cuidado que se tem que ter para se evitar os principais efeitos: a exposição com efeito direto na pele, a desidratação pela sudorese, e a intermação, que é a elevação da temperatura corporal. Tem que ficar de olho nessas três coisas.”

Rinaldo Tavares, médico

Para o professor Márcio Cataldi é fundamental usar a previsão meteorológica como ferramenta de prevenção e reorganizar a rotina de trabalho dessa população em dias de calor intenso. Em outros países, como a Espanha, a dinâmica desses serviços segue as necessidades ditadas pelas condições meteorológicas. 

“Se há uma previsão de onda de calor, você tem que tirar esses trabalhadores, durante algumas horas do dia, do trabalho exposto ao sol. Passei um tempo na Espanha, e durante o verão, eles tiram. As pessoas trabalham até 10h, 11h, param e depois voltam para trabalhar às 16h”, diz.

Um problema nacional, com impactos desiguais

Embora o Rio viva episódios extremos, o fenômeno se espalha por outras regiões do país, atingindo de forma mais severa áreas já marcadas por vulnerabilidade social e ambiental.

O pesquisador ressalta que os efeitos das mudanças climáticas não se distribuem de forma homogênea: regiões com menos infraestrutura e menos capacidade de adaptação sofrem mais e têm menos ferramentas para enfrentar o calor extremo.

População do RJ sofre com onda de calor | Crédito: Tomaz Silva / Agência Brasil

“As ondas de calor estão aumentando de forma muito intensa, principalmente na região Norte. Porque é uma região onde a gente tem um desmatamento extremamente acelerado, muito intenso também, onde as ondas de calor estão aumentando muito e a população é muito vulnerável”, alerta Cataldi.

Apesar das previsões e alertas científicos já existirem há anos, ele aponta que o Brasil ainda reage de forma tardia aos impactos do clima extremo.

“No Brasil, de uma maneira geral, as políticas públicas só são realizadas depois que a gente tem alguma catástrofe, que morrem pessoas ou que alguma coisa acontece, uma perda de bens materiais, de vidas humanas, e só depois disso é que as pessoas começam a tomar alguma atitude. A gente já tem essas previsões de que a temperatura vai aumentar, que as ondas de calor vão ser mais intensas, mais frequentes, há bastante tempo, e pouca coisa foi feita”, critica o professor.

Medidas paliativas e soluções estruturais

Para lidar com esse novo cenário, Cataldi defende que as respostas precisam ir além de ações emergenciais. Enfrentar o calor extremo exige uma mudança profunda de mentalidade.

“Uma reurbanização, uma reestruturação, um modo diferente de pensar, onde a gente precisa entender, por exemplo, o papel importantíssimo que as árvores têm, que os parques têm na refrigeração. Essa é uma mudança de paradigma e de pensamento que está muito ligada à educação ambiental”.

Medidas no Rio

Diante do avanço das ondas de calor e da exposição diária ao sol, a Comlurb afirma ter adotado medidas para reduzir os riscos enfrentados pelos garis que atuam nas ruas da cidade. 

Segundo a companhia, todos os profissionais, independentemente da função, recebem protetor solar em sachê e boné ou chapéu legionário, com proteção UV 50, que cobre cabeça, orelhas e pescoço. Os garis que trabalham nas praias também utilizam óculos de sol com proteção contra raios ultravioleta.

A empresa informa ainda que todas as gerências dispõem de bebedouros e que os trabalhadores das praias recebem copos de água mineral durante a jornada, além de serem incentivados a levar garrafinhas fornecidas pela própria companhia para os serviços ao ar livre.

Em resposta às temperaturas extremas registradas na cidade, a Companhia passou a adotar a camiseta laranja de tecido dry fit, mais leve, para os profissionais que trabalham ao ar livre, como os de varrição, coleta e limpeza de praia.

As calças compridas e camisas possuem proteção UV e faixas refletivas, essenciais para reduzir o risco de atropelamentos e proteger os trabalhadores do contato com materiais descartados de forma irregular, como vidros e objetos perfurantes.

Por determinação de segurança do trabalho, o uso do borzeguim — calçado de segurança com palmilha antiperfurante e material hidrorrepelente — e de luvas é obrigatório para todos os garis, inclusive os que atuam na orla.

Distribuição de água

O Governo do Estado iniciou uma operação emergencial para manter pontos de hidratação em áreas de grande circulação, com distribuição gratuita de água potável.

A secretaria de Saúde instalou diversos pontos de distribuição de água gelada no estado para combater o calor extremo | Crédito: Secretaria estadual de Saúde

 A iniciativa, realizada por meio da Secretaria de Estado de Saúde e da Cedae, também prevê apoio a banhistas, pessoas em situação de rua e pacientes atendidos nas Unidades de Pronto Atendimento (Upas) estaduais, como forma de minimizar os impactos das altas temperaturas registradas nos últimos dias.

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