Reduto da boemia carioca e palco de marcos como os Arcos da Lapa e a Escadaria Selarón, o bairro da Lapa, na zona central do Rio, viu parte de seus antigos casarões ganhar um novo papel dentro da dinâmica do crime. Nos últimos meses, operações da Polícia Civil localizaram diversos imóveis usados como depósitos por facções criminosas para abastecer a venda de drogas na região.
A atuação do tráfico não é novidade na Lapa. A diferença é que parte da dinâmica, antes abastecida de forma itinerante nas ruas, passou a ocupar antigos casarões da região. Mas qual é a função desses imóveis, que ao longo de mais de dois séculos tiveram diferentes usos, dentro da logística do crime organizado?
Os investigadores chamam essas estruturas de “bunkers” — no contexto policial, o termo não se refere às fortificações militares surgidas na Primeira Guerra, mas a imóveis adaptados para funcionar como bases operacionais dos bandidos. São casarões antigos que, por trás da aparência desgastada pelo tempo, escondem uma estrutura preparada para dificultar o avanço de agentes. O delegado Niandro Ferreira, titular da 5ª DP (Lapa), definiu esses locais como verdadeiros “labirintos”, em entrevista à Agenda do Poder.
Segundo ele, o tamanho dos imóveis e o estado de conservação favorecem esse tipo de uso.
“A principal questão é o espaço. Muitos desses casarões são imóveis muito grandes e, em vários casos, estão em mau estado de conservação. Eles acabam se transformando em verdadeiros labirintos, o que dificulta a progressão da polícia”.
Somente neste ano, ações da polícia identificaram imóveis com essas características na Rua General Caldwell, transversal à movimentada Avenida Presidente Vargas, e na Travessa Mosqueira, entre a Escadaria Selarón e os Arcos da Lapa, além de outras operações que resultaram em prisões e apreensões.

Além das portas de metal maciço para retardar a entrada de policiais, os criminosos modificam a estrutura interna dos espaços com obras engenhosas. “Eles tentam dificultar o avanço da polícia com portas de ferro e, às vezes, até levantam paredes internas para desviar o caminho e dificultar o acesso dos agentes”, revela Niandro.
Ainda segundo o delegado, as investigações mais recentes buscam identificar os proprietários dos imóveis abandonados e apurar se eles tinham conhecimento da atividade criminosa. “O desmembramento dessa investigação é justamente identificar quem são os proprietários desses imóveis e se eles tinham conhecimento do que estava sendo realizado ali.”
Nesse momento, a apuração esbarra na documentação dos imóveis abandonados da Lapa, realidade comum em uma região que teve diferentes tipos de ocupação ao longo dos séculos. Por isso, o trabalho de investigação é conduzido em parceria com cartórios.
“Tudo é feito por meio de um trabalho de inteligência. A gente também atua junto aos cartórios, que fornecem informações sobre esses imóveis. É um trabalho para entender a documentação, quem é o proprietário, a situação jurídica do imóvel, se há desapropriação ou outras questões relacionadas. A partir daí, a investigação consegue avançar.”
Niandro Ferreira, delegado titular da 5ª DP (Mem de Sá)
Das ‘esticas’ ao mercado consumidor
Embora a venda de drogas na Lapa seja antiga, a Polícia Civil avalia que a estrutura utilizada atualmente apresenta diferenças em relação a outros territórios dominados por facções. Segundo Niandro Ferreira, a região funciona por meio das chamadas “esticas” — uma espécie de extensão operacional ligada a comunidades próximas.

“Aqui funciona de forma muito diferente das áreas conflagradas. A gente não vê tiroteios constantes, colocação de barricadas ou esse tipo de situação que existe em outras regiões. Normalmente, o tráfico funciona por meio das chamadas ‘esticas’, ligadas a comunidades próximas, que abastecem essa região do Centro para facilitar a venda de drogas. Eles aproveitam justamente a boemia, que é histórica na Lapa”, enfatiza Ferreira.
Esse mercado consumidor é uma dinâmica própria da Lapa. A concentração de bares, restaurantes, festas e casas de shows, como a Fundição Progresso e o Circo Voador, cria uma demanda constante por drogas. É o que explica a socióloga Carolina Grillo, pesquisadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni / UFF).
“É uma região estratégica porque reúne um importante mercado consumidor, tanto formado por turistas e frequentadores da vida noturna quanto por pessoas em situação de rua ou de moradia precária que ocupam esses espaços. A existência desses pontos de abastecimento é estratégica para evitar que pequenas quantidades de drogas precisem ser transportadas de locais mais distantes. É uma questão de logística.”
Segundo a pesquisadora, o Comando Vermelho (CV) é hoje a facção predominante na região, embora o Terceiro Comando Puro (TCP) também tenha presença em parte do Centro.
Em março deste ano, a Polícia Civil realizou uma operação contra o tráfico de drogas na Lapa, e as investigações apontaram que os traficantes Wilton Carlos Rabello Quintanilha, o Abelha, e Anderson Venâncio Nobre de Souza, o Piu ou Português, comandavam os pontos que funcionavam dentro de casarões abandonados. Ambos são ligados ao CV.

Mas a atuação das facções nos casarões não se limita ao controle e abastecimento dos pontos de drogas. Segundo o delegado, esses depósitos também servem para armazenar outros materiais ilícitos. “A gente já fez apreensões em casarões de produtos falsificados, como roupas, peças de computador e outros itens, que também são fonte de renda desses grupos criminosos.”
Dos casarões aristocráticos aos ‘bunkers‘
Antes de entrarem na rota do crime, esses casarões resistiram ao tempo e acumularam diferentes usos ao longo da história da cidade. Conforme a historiadora Luciene Carris, autora do livro De colina sagrada a dente cariado: a modernidade carioca e o desmonte do Morro do Castelo (1822-1922), a ocupação da Lapa acompanha a própria expansão do Rio de Janeiro.
“O centro da cidade, no período colonial, ficava entre os morros do Castelo, Santo Antônio e São Bento. Até o século XVIII, essa área era pouco edificada. A ocupação mesmo vai se intensificar já no final do século XVIII e início do século XIX, com a chegada da família portuguesa em 1808.”

A chegada da família real e a proximidade do bairro com o Centro do Rio, núcleo administrativo da capital na época, favoreceram o surgimento de sobrados ocupados por comerciantes, militares e famílias ligadas à aristocracia.
“Os casarões mais antigos datam do final do século XVIII e início do século XIX, especialmente nas ruas do Lavradio, do Riachuelo, que era uma importante via de passagem, e também na Rua do Senado. Essas áreas passaram a receber sobrados que serviam de residência para famílias mais abastadas, autoridades, militares e comerciantes”, lembra a historiadora.
Algumas dessas construções, de acordo com Luciene, funcionavam com áreas de serviço, dependências destinadas aos trabalhadores escravizados, pátios internos e espaços voltados para a recepção de convidados. Ao longo do século XIX, com o surgimento dos sobrados mistos, os casarões passaram a ter outro tipo de uso. Ou seja, passaram a reunir comércio no térreo e moradia nos andares superiores.
“Era muito comum que as pessoas morassem na parte de cima e trabalhassem na parte de baixo, mantendo ainda uma área mais reservada aos fundos para uso da família. Esses imóveis também passaram a funcionar como pensões para estudantes e trabalhadores de menor renda, além de hotéis, escolas, repartições públicas e associações.”
Ao longo da segunda metade do século XX, a transferência da capital para Brasília, a expansão da cidade e o esvaziamento gradual do Centro deixaram parte desses imóveis vazios ou subutilizados. Hoje, ao andar pelas ruas da Lapa, é possível perceber que alguns casarões funcionam apenas com comércio na região do térreo.

“Muitos desses casarões foram subdivididos, alugados e transformados em pensões, casas de cômodos e cortiços. Isso aconteceu porque parte da população de maior renda passou a se deslocar para bairros da Zona Sul”, diz a historiadora.
Segundo o arquiteto Carlos Eduardo Nunes Ferreira, vice-diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU-UFRJ), o deslocamento populacional em direção à Zona Sudoeste também contribuiu para o esvaziamento do Centro. “A cidade que está sendo construída no final do século XX e início do século XXI se deslocou no sentido oeste, esvaziando as áreas mais a leste, mais próximas da Baía de Guanabara e do centro histórico.”
Para o arquiteto, essas sucessivas transformações fazem da Lapa um espaço onde diferentes períodos da história da cidade convivem no mesmo local. “Se por um lado a Lapa acaba não configurando um conjunto coeso referente a uma única época, por outro lado ela é rica nessa superposição de períodos históricos”, explica.
O lucro da precariedade
Esse movimento de recuperação, no entanto, também está relacionado a questões estruturais, pontua a historiadora. Segundo ela, os casarões antigos exigem obras caras para atender às normas atuais de segurança e acessibilidade. Alguns dos imóveis pertencem a famílias numerosas, possuem diversos herdeiros e ainda enfrentam inventários não concluídos, fatores que dificultam reformas e novos usos.
“Outra questão é que os imóveis antigos pertencem, muitas vezes, a vários herdeiros. Aí a gente vai ter inventários que não são concluídos, dívidas tributárias enormes e documentação irregular, com muitos imóveis nessa região. Então vender, alugar ou aprovar uma reforma junto à prefeitura passa por um processo dificultoso”.
Essa dificuldade de desapropriação abre espaço para a atuação das facções e ajuda a explicar a mudança nas ocupações dos casarões ao longo do tempo. Segundo Carolina Grillo, ao longo das últimas duas décadas, grupos criminosos passaram a controlar imóveis antes ocupados por movimentos de luta por moradia.

“Antes, os movimentos de luta por moradia organizavam essas ocupações de imóveis abandonados para reivindicar posteriormente a desapropriação e o cumprimento da função social da propriedade. Mas as facções entram, passam a cobrar das famílias e todo esse movimento acaba sendo desfeito, porque não interessa que essas pessoas tenham acesso à moradia. Elas lucram com a precariedade.”
A Polícia Civil informou que também investiga denúncias de cobrança de taxas impostas por criminosos a moradores desses imóveis. “Isso faz parte da investigação. Ainda não conseguimos conversar com pessoas que corroborem essa informação, mas ela integra o conjunto de fatos que estamos apurando”, afirmou o delegado Niandro Ferreira.
Aliada às investigações da Polícia Civil, a Polícia Militar mantém patrulhamento na região por meio do 5º BPM (Praça da Harmonia) e conta com o apoio do Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (BPTur).
Segundo a corporação, entre julho de 2025 e julho de 2026, o 5º BPM registrou 13 ocorrências relacionadas ao tráfico de drogas, com seis presos, dois adolescentes apreendidos e dois autuados. A PM informou ainda que o patrulhamento é reforçado com base em análises criminais e informações de inteligência.
Apesar desse cenário, a Lapa permanece como um dos principais símbolos da vida cultural do Rio de Janeiro, com espaço na memória afetiva dos cariocas. Para o arquiteto e urbanista Carlos Eduardo Nunes Ferreira, é justamente essa sobreposição de usos e de períodos históricos que explica a importância do bairro.
“A Lapa tem um destaque em relação ao restante da cidade pelo espaço que ela ocupa no campo simbólico, tanto dos cariocas quanto dos visitantes, como um lugar de encontros, de intercâmbios culturais, da boemia carioca, da cultura. É um bairro que ocupa um lugar especial no imaginário e no afeto das pessoas”, conclui.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes


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