Polícia investiga se tráfico invadiu casarões históricos na Lapa para instalar comércios clandestinos

Casarão que abrigou boate foi alvo de reintegração de posse; imóveis eram usados por bares, salões e depósitos sem autorização

A poucos metros dos Arcos da Lapa e do Circo Voador, casarões históricos localizados na Travessa do Mosqueira, no Centro do Rio, foram invadidos e transformados em comércios clandestinos. A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga se essas ocupações irregulares foram realizadas a mando da facção criminosa Comando Vermelho (CV), que domina o tráfico de drogas na região.

Segundo informações do jornal O GLOBO, a 5ª DP (Mem de Sá) prendeu, no mês passado, quatro pessoas em flagrante que operavam estabelecimentos ilegais nos imóveis invadidos. Entre os comércios, funcionavam bares, distribuidoras de bebidas e gelo, uma confecção e até um salão de beleza. Um dos prédios tomados já foi endereço da tradicional boate Asa Branca e da antiga Pizzaria Guanabara, dois marcos da vida noturna carioca.

Na última sexta-feira, a Justiça do Rio determinou a reintegração de posse de um desses imóveis, pertencente à família Recarey. Os proprietários já encomendaram um estudo para avaliar a viabilidade econômica de um novo empreendimento no local, como uma casa de eventos ou restaurante. Entretanto, a iniciativa depende da revitalização da área, atualmente marcada pela insegurança e ocupações ilegais. Estão previstas obras de restauração na fachada do prédio.

O casarão alvo da reintegração está localizado a poucos metros de um ponto estratégico do tráfico: um “bunker” instalado entre a Rua Joaquim Silva e a Travessa do Mosqueira. Descoberto e fechado pela polícia em operação realizada em 30 de março, o imóvel possuía portas de aço, passagem secreta e cômodos reforçados. Segundo os agentes, o espaço era usado como ponto de venda de drogas e base operacional do Comando Vermelho.

As investigações agora tentam identificar quem lucra com os aluguéis cobrados pelos imóveis invadidos e se os responsáveis pelos estabelecimentos clandestinos pagam taxas ao tráfico para manterem seus negócios. Os policiais também apuram possíveis vínculos com Wilton Carlos Rabello Quintanilha, conhecido como Abelha, um dos chefes da facção criminosa.

Além da relação com o tráfico, outras irregularidades são alvo da investigação. Os estabelecimentos funcionavam sem alvará, com furtos de água e energia elétrica — conhecidos como “gatos” — diretamente ligados à rede pública. Um dos pontos comerciais vendia botijões de gás sem a autorização da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o que representa grave risco à segurança dos frequentadores e moradores da região.

Memória da boemia carioca

Inaugurada em 1983, a boate Asa Branca foi um dos mais luxuosos pontos da vida noturna do Rio. Frequentada pela elite carioca, a gafieira chegou a ter mais de 200 funcionários, orquestra própria, mil cadeiras e camarotes. Na noite de estreia, o espaço recebeu um jantar em homenagem ao rei Juan Carlos e à rainha Sofia, da Espanha, com apresentação de Luiz Gonzaga. O espaço encerrou suas atividades nos anos 2010.

Hoje, o mesmo local vive uma realidade oposta. Comerciantes e trabalhadores da área preferem o silêncio. Um deles resumiu a situação dizendo que ali é um “campo minado”. Durante a apuração, a reportagem observou quatro homens fazendo vigília constante na porta do imóvel. Em alguns dias, a calçada se transforma em salão improvisado, com serviços de manicure, pedicure e corte de cabelo. Segundo relatos, o interior do casarão já foi usado como depósito clandestino e galpão.

Do outro lado da rua, há uma base do Segurança Presente, e a apenas 280 metros dali, fica o Quartel General da Polícia Militar, na Rua Evaristo da Veiga — o que não tem sido suficiente para coibir o avanço das ocupações ilegais e da atuação do crime organizado na região.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading