A abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, realizada nesta terça-feira (23) em Nova York, foi marcada por um discurso contundente do secretário-geral António Guterres. Em tom de alerta, ele afirmou que o mundo corre o risco de mergulhar em um período de caos, criticou a escalada de conflitos e pediu um cessar-fogo imediato em Gaza.
Reforma da ONU em meio a boicote de Trump
No momento em que Guterres falava, o presidente dos EUA Donald Trump não estava no prédio da ONU, num gesto interpretado como boicote ao discurso. Trump suspendeu repasses financeiros à entidade e tem atacado a relevância da organização.
Para tentar preservar a instituição, o secretário-geral apresentou a proposta de uma reforma considerada a mais ampla desde a fundação da ONU, com redução da estrutura e transferência de parte das atividades para fora de Nova York.
Em sua fala, o português lembrou a origem da entidade no pós-Segunda Guerra. “Há oitenta anos, em um mundo devastado pela guerra, líderes fizeram uma escolha: cooperação em vez do caos, lei em vez da ilegalidade, paz em vez do conflito, e essa escolha deu origem às Nações Unidas, não como um sonho de perfeição, mas como uma estratégia prática para a sobrevivência da humanidade”.
“Os pilares da paz estão cedendo”
Guterres alertou que os princípios da ONU estão sob ataque. “Entramos em uma era de perturbação imprudente e sofrimento humano implacável. Olhem ao redor, os princípios das Nações Unidas que vocês estabeleceram estão sitiados. Ouçam, os pilares da paz e do progresso estão cedendo sob o peso da impunidade, da desigualdade e da indiferença”.
O secretário-geral listou os sinais de alerta: “Nações soberanas invadidas, fome transformada em arma, verdade silenciada, fumaça subindo de cidades bombardeadas, raiva crescente em sociedades fragmentadas, elevação do nível do mar, litorais inundados. Cada um deles, um aviso. Cada um, uma pergunta: que tipo de mundo escolheremos?”.
Cessar-fogo em Gaza e críticas a Israel
Em uma das passagens mais fortes de seu discurso, Guterres afirmou que a situação em Gaza é “além de qualquer outro conflito nos meus anos como secretário-geral” e descreveu a guerra como um “terceiro ano monstruoso”.
“Nada pode justificar os horríveis ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro e a tomada de reféns, ambos os quais condenei repetidamente. E nada pode justificar a punição coletiva do povo palestino e a destruição sistemática de Gaza”, afirmou.
Ele pediu medidas urgentes: “Sabemos o que é necessário: cessar-fogo permanente agora. Todos os reféns libertados agora. Acesso humanitário total agora. E não devemos ceder na única resposta viável para uma paz sustentável no Oriente Médio: uma solução de dois estados”.
A delegação de Israel não estava presente durante a fala.
Recado indireto aos Estados Unidos
Sem mencionar diretamente Trump, Guterres criticou a postura dos EUA ao suspender o financiamento da ONU. “Que tipo de mundo escolhemos construir juntos, excelências? Temos muito trabalho pela frente, pois nossa capacidade de realizá-lo está sendo cortada de nós”, disse.
Ele reforçou que o poder real não está na agressividade de governos, mas na habilidade de construir soluções coletivas. E concluiu com uma nota pessoal, relembrando sua juventude em Portugal sob a ditadura de Salazar: “Nunca vou desistir”, afirmou, prometendo resistir às tentativas de enfraquecer a ONU.
Multipolaridade e risco de instabilidade
Ao longo da fala, Guterres ainda destacou que o mundo caminha para um sistema multipolar, mas advertiu que, sem instituições sólidas, essa nova ordem pode gerar caos. Ele comparou o cenário atual à Europa dos anos 1930, período que precedeu a Segunda Guerra Mundial.
O discurso do secretário-geral abriu uma Assembleia que já é considerada uma das mais tensas das últimas décadas, refletindo não apenas os conflitos armados, mas também o enfraquecimento das instituições multilaterais diante de pressões políticas e cortes de financiamento.






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