Saia Justa no Jockey! Mulheres desafiam homens e ganham espaço como proprietárias de cavalos de corrida

Formado por 17 cotistas, o Stud Saia Justa desafia a tradição masculina do turfe com paixão

No Hipódromo da Gávea, no Rio de Janeiro, uma cena vem destoando do ambiente tradicionalmente masculino das tribunas: faixas coloridas, gritos de incentivo e um grupo de mulheres reunidas em torno da égua Opus Dei — ou, carinhosamente, “Pupu”.

A matéria é do jornal O Globo e destaca o protagonismo do Stud Saia Justa, coletivo fundado em 2024 por 17 mulheres apaixonadas pelo turfe que decidiram se unir como cotistas na compra e manutenção de cavalos de corrida.

A iniciativa busca não apenas democratizar o acesso ao esporte, mas também fortalecer a presença feminina em um universo historicamente dominado por homens. “O coletivo é o proprietário do animal e tem foco em trazer mais mulheres para esse mundo majoritariamente masculino”, explica Livia Bittencourt, superintendente do Jockey Club Brasileiro (JCB), joqueta amadora e integrante do grupo.

O custo mensal para cuidar de um cavalo gira entre R$ 2,5 mil e R$ 3 mil, valor inviável para muitos indivíduos, o que reforça a lógica das cotas. Segundo Livia, a divisão dos custos amplia o acesso e torna o turfe mais inclusivo: “Decidimos criar um sistema para dividir tanto o valor de compra quanto os cuidados com o animal”.

Entre as integrantes do grupo, há especialistas no setor e mulheres que chegaram por caminhos alternativos. A fisioterapeuta Mariana Leite, por exemplo, se aproximou do Jockey por meio da hipoterapia — tratamento com cavalos voltado a crianças com deficiência. “Trabalho com hipoterapia e estudei a vida inteira aqui dentro. Quando começou o projeto, logo quis entrar. A gente aqui fala de amor pelo animal”, afirma.

A treinadora do grupo, Victoria Mota, é ex-joqueta e filha de ex-atletas do turfe. Com apenas 26 anos, ela cuida não apenas de Opus Dei, mas também de Tabaozeppe, um puro-sangue do qual divide a propriedade com outras 26 pessoas. Grávida e prestes a entrar de licença-maternidade, Victoria mantém o rigor técnico ao lado do carinho com os animais. Em um dos episódios recentes, às vésperas de uma corrida, ela detectou um incômodo na ferradura de Opus Dei e sugeriu poupá-la da prova. “Foi unânime a decisão de priorizar o bem-estar, mesmo com o prejuízo do valor arcado com o registro”, relata.

A jornalista Marcella Sobral, de 50 anos, é uma das cotistas do grupo e destaca o custo-benefício do modelo coletivo: “Tenho mais gastos com meu cachorro do que com minha égua. Os valores mais baixos, que começam em R$ 10, melhoram as possibilidades de acesso. E não importa se alguém tem uma ou dez cotas, a decisão de cada um tem o mesmo peso”.

Apesar da visão sensível e participativa, as cotistas também são rigorosas com a disciplina do esporte. “Meu pai dizia: ‘a gente também não pode amar demais. O cavalo tem que saber que não é pet’. E é verdade. O animal tem que entender que o foco no páreo é importante”, afirma Victoria Mota, ressaltando que o cuidado com o cavalo não exclui a seriedade da competição.

O turfe já teve seu auge no Brasil nos anos 1920, com status comparável ao futebol e presença frequente da elite política e social. Hoje, a modalidade sobrevive apoiada por iniciativas como a do Stud Saia Justa, que não apenas renovam seu público, mas desafiam costumes cristalizados. Em um ambiente onde antes a presença feminina era majoritariamente decorativa, as mulheres agora tomam as rédeas — literalmente — e conduzem uma nova era no Jockey Club Brasileiro.

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