Luiz Oliveira, dono da Vírur Bier, primeira cervejaria da Carioca — Foto
O primeiro brinde já foi erguido. Com uma festa de inauguração na quinta-feira da semana passada, que reuniu cerca de 400 pessoas — o dobro do público esperado —, a Virus Bier, que fica no número 55 da Rua da Carioca, deu o pontapé inicial no projeto que pretende transformar o local na “rua da cerveja”. Foi só um teste, com direito a novas rodadas, como a que acontece de quarta-feira até amanhã, a partir das 14h. As portas se abrem para valer no dia 9, às 10h. O horário da saideira ainda não está definido. Vai depender da demanda e da sede do público.
Além dessa, mais oito cervejarias vão se instalar até o final do primeiro semestre do ano que vem na Rua da Carioca. A segunda, com as obras bem adiantadas, já tem previsão de abrir até o final deste mês, nos números 74 e 76, quase na Praça Tiradentes. Em janeiro, chega mais uma. A iniciativa é parte de um projeto da prefeitura de transformar a via, que entrou em decadência nos últimos anos e teve dezenas de lojas fechadas, num polo cervejeiro, com capacidade não só de atrair moradores como também turistas.
O nome da cervejaria pioneira, surgida no bairro de Jacarepaguá, na Zona Oeste, é uma brincadeira com a onda de dengue, zika e chikungunya, que assolou o país, em 2018, ano de sua criação, e bem antes da chegada do vírus da Covid-19, que deixou um rastro de mortes. Enquanto pilota uma das seis torneiras — em breve serão entre 15 e 25 — com capacidade para fazer jorrar 3,5 mil litros da bebida por mês, Luiz Oliveira, dono do negócio, avalia a responsabilidade de chegar na frente da concorrência.
—É muro baixo e sarrafo alto. A gente vira uma vitrine de erros e acertos. É bacana porque acaba contribuindo com as outras cervejarias. Mas, ao mesmo tempo, é uma responsabilidade muito grande. Porém, estou preparado. Sou confiante — garante.
O Reviver Rua da Carioca é um dos dois projetos da prefeitura para incentivar a ocupação dos imóveis que estavam fechados no Centro do Rio. O outro é o Reviver Cultural, voltado para iniciativas nas áreas de arte e cultura, que já conta com 15 em funcionamento em sobrados que estavam fechados. Juntos eles somam investimentos na ordem de R$ 30 milhões, incluindo incentivo financeiro para obras e subsídios para despesas pensais, como aluguel, pelo prazo de 30 meses. No total, nove marcas vão ocupar dez dos 36 imóveis que estavam fechados naquela via.
Existe ainda a possibilidade de uma das cervejarias habilitadas ocupar o endereço onde funcionou o Cine Ideal que foi construído em 1909, funcionou até 1961 no número 62 da rua e depois se transformou em boate com festas de house music. O local é conhecido pela icônica cúpula de ferro retrátil que adorna o salão central do casarão, projetada por Gustave Eiffel.
— A abertura desses estabelecimentos vai enriquecer a vida cultural do Centro novamente, sendo mais uma opção para turistas, cariocas e para os novos moradores da região. Só no Reviver Centro, programa de incentivos urbanísticos e tributários da Prefeitura, foram concedidas 40 licenças, que irão criar 3.967 novas unidades residenciais — afirma Chicão Bulhões, secretário municipal de Desenvolvimento Urbano e Econômico.
O dono da Vírus Bier conta que para abrir o empreendimento investiu perto de R$ 250 mil, sendo R$ 170 mil da prefeitura. O estabelecimento ocupa apenas o térreo de um prédio de quatro andares, que ao contrário de outros na região, não estava muito deteriorado. Ele precisou basicamente fazer algumas adaptações no local, que antes de sua chegada abrigou uma gráfica. Pelo menos nessa fase de testes quem quiser experimentar os diversos tipos de cerveja — Pilsen, Weiss, Rade Ale, Ipa, Sour e Stout —, paga preços que variam de R$ 10 a R$ 21. Há também opções de petiscos entre R$15 (azeitonas temperadas) a R$ 45 (costelinha suína a passarinho).

A próxima cervejaria que deverá abrir é resultado de uma parceria entre as marcas Piedade e Martelo Pagão, que vão ocupar de forma compartilhada os números 74 e 76, onde antes nos três andares do endereço funcionou uma boate. O térreo vai abrigar um bar e restaurante, além dos tanques fermentadores. Haverá ainda uma câmara refrigerada, com capacidade para 50 barris e um paredão com 30 torneiras por onde sairá a cerveja.
O mezanino terá de um lado pequeno palco para apresentações musicais e de DJs e no outro, uma lojinha de souvenirs voltado para o público cervejeiro. No segundo andar vai ser instalada a fábrica com capacidade diária para produzir 2 mil litros de cerveja. Já o terraço será construído um Biergarten, espaço ao ar livre com mesinhas e cadeiras, onde também haverá uma tabacaria. A ideia é que o local possa ser usado para festas e eventos. A decoração dos ambientes terá uma pegada medieval.
—A ideia é fazer um atendimento compartilhado num espaço em que as pessoas possam se sentir como se estivessem num shopping da cerveja — compara René Saleme, dono da Piedade, que entrou no negócio com Allam Finamor, da Martelo Pagão.

A ocupação dos números 15 e 17 também será resultado de uma associação dos empresários Luiz Rogério Rodrigues e Eduardo Pontes, donos respectivamente das marcas Búzios e Tio Ruy com Raphael Vidal, um dos principais nomes por trás da retomada do Largo da Prainha, na Saúde, e da anunciada revitalização do tradicional Beco das Sardinhas, no Centro. Vidal comandará o bar Cotovelo, que será abastecido pelas duas cervejarias. A decoração vai remeter à história do prédio, datado de 1877, mas em vez de recorrer a recursos cenográficos, a intenção é resgatar elementos da própria construção, como o piso de ladrilho hidráulico original que estava escondido sob a camada de ladrilho comum e foi descoberto durante as obras.
—Vamos trazer o charme da volta ao passado — aponta Vidal, relembrando de dois ícones da Rua da Carioca, o Bar Luiz, fechado em 2021, depois de mais de 130 anos de funcionamento, e o Zicartola, lendária casa aberta pelo casal Cartola e Dona Zica no começo dos anos 1960, que sobreviveu apenas 20 meses, mas entrou para a história, entre outras coisas, por ter revelado o então jovem Paulinho da Viola, que recebeu lá seu primeiro cachê.
Os dois mezaninos do futuro bar vão abrigar as cervejarias que abastecerão o estabelecimento. No segundo andar, Vidal pensa instalar uma gafieira. O telhado foi todo recuperado e a ideia é manter o imóvel bem próximo do que ele era originalmente. Eduardo Pontes está confiante no sucesso de projeto e diz que o apoio da prefeitura é fundamental para a “rua da cerveja” vingue.
—Apesar das dificuldades, o local tem potencialidades que precisam ser trabalhadas. Acho que tem tudo para dar certo se a prefeitura continuar caminhando com a gente — afirma Pontes.

A transformação da Rua da Carioca em polo cervejeiro, além de revitalizar a via que entrou em decadência em meio ao abandono e fechamento de lojas nos últimos anos, vai se beneficiar do movimento da vizinha Praça Tiradentes, onde são realizadas animadas rodas de samba, como a Pede Teresa, sempre na primeira e terceira sexta-feira do mês e o Pagode da Garagem, que acontece às terças-feiras, no sobrado do número 81 da praça. Lá também estão localizados dois dos mais importantes teatros da cidade, os centenários Carlos Gomes, reaberto em julho, após dois anos de obras, e João Caetano, que está passando por uma grande reforma será entregue em novembro.
Numa das extremidades da praça está o Centro Sebrae e Referência do Artesanato Brasileiro (Crab), atualmente em cartaz com a exposição “Dona Izabel: 100 anos da Mestra do Vale do Jequitinhonha”. Perto dali fica também a Rua do Lavradio, que aos sábados abriga uma movimentada feira que reúne antiguidades, artesanato e muita boemia. A própria Rua da Carioca, abriga a Casa do Choro, que tem uma programação constante com shows nas noites de quarta e quinta-feira, que privilegia o gênero que dá nome ao estabelecimento.
A “rua da cerveja” vai se juntar outros projetos com pegada gastronômica no Centro, como a revitalização do Beco das Sardinhas, o Terreirão do Samba, que passou por uma licitação recente e vai ganhar bares e restaurantes; e o Edifício Touring, da Praça Mauá, que tem projeto de virar um projeto gastronômico. Até a Praça Quinze poderá ganhar um novo mercado com restaurantes e bares, como noticiou o colunista Ancelmo Gois, de O GLOBO.
— Acreditamos que todos os projetos que buscam fomentar o turismo através da boa gastronomia são sempre muito bem-vindos. E ainda ganha sabor especial quando se trata de revitalizar uma região que sempre foi famosa pela sua boemia — avalia Fernando Blower, presidente do Sindicato de Bares e restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio).
Com informações de O Globo





