As operações no Aeroporto Santos Dumont retomaram à normalidade nesta quarta-feira (1º), após um dia marcado por atrasos e cancelamentos provocados pelo vazamento de óleo na pista principal. Foram 164 voos cancelados e outros 14 redirecionados ao Galeão, em um episódio que afetou milhares de passageiros e evidenciou a vulnerabilidade de terminais a incidentes aparentemente simples.
Na madrugada de terça (30), cerca de 50 litros de óleo hidráulico vazaram de um caminhão de manutenção preventiva. O líquido se espalhou próximo à cabeceira da pista principal, um ponto considerado crítico por especialistas. A pista ficou interditada por quase 12 horas e só foi liberada às 17h25, após a aplicação de desengraxante biodegradável e a realização de testes de atrito.
Especialista explica porque óleo na pista é perigoso
O Agenda do Poder ouviu o piloto de caça e especialista em certificação militar de aviação Alexandre Fiorenzano, que explicou os riscos causados pelo derramamento de óleo na pista, situação que afeta a aderência da aeronave e inclusive causar a saída da área de operação. De acordo com o comandante, até mesmo pequenas manchas de óleo representam risco relevante para a segurança operacional.
“O risco é muito alto. O problema do óleo é que ele cria uma superfície escorregadia que reduz o atrito entre os pneus e o asfalto, afetando a superfície da pista. Isso afeta tanto a frenagem quanto a capacidade do piloto de manter o controle direcional da aeronave. Mesmo uma mancha pequena, se estiver no ponto de toque, pode comprometer a distância de pouso ou decolagem necessária”, detalha o especialista. “Em alguns casos, essa perda momentânea pode ser suficiente para o avião sair da pista”, completa.
O piloto explica ainda que, após uma ocorrência desse tipo, é obrigatório medir o coeficiente de atrito da área de operação. Apenas quando os níveis retornam ao mínimo exigido a pista pode ser reaberta.
Pista curta aumenta o risco
No caso do Aeroporto Santos Dumont, o risco é maior por conta do comprimento reduzido da pista. Com extensão de apenas 1.323 metros, a pista principal do aeroporto é uma das mais curtas do país para operações comerciais de grande porte. Isso faz com que as margens de segurança sejam menores em comparação a terminais com pistas mais longas, como o Galeão, que tem 4.000 metros.
“Se o óleo estiver justamente em áreas críticas de alta velocidade, a medida mais segura é fechar a pista completamente até que a limpeza seja feita e o coeficiente de atrito volte aos níveis seguros. Numa pista pequena, o mais correto é realmente paralisar a operação até que seja feita a descontaminação completa”, apontou Fiorenzano.
Segundo o comandante, as pistas não costumam ser usadas na totalidade, existindo uma margem de segurança para evitar possíveis imprevistos, como frenagem mais longa ou derrapagens. “Os critérios de segurança consideram uma gama de possíveis situações anormais para que a operação seja a mais segura”.
Procedimentos de segurança
Segundo a administração do aeroporto, a limpeza da pista foi feita com desengraxante biodegradável. Após a aplicação, foram realizados testes para avaliar a aderência, em um processo semelhante ao que ocorre em inspeções de rotina em dias de chuva intensa.
Esse tipo de protocolo é padrão internacional: pistas só podem ser liberadas quando os índices de atrito atingem níveis compatíveis com as normas de segurança. “Não se trata apenas de limpar visualmente a pista. É necessário garantir que o coeficiente de atrito seja suficiente para pousos e decolagens”, destaca Fiorenzano.
Impacto para os passageiros
Se na pista o foco era a segurança técnica, no terminal de passageiros o problema era a desassistência. Durante a paralisação, o cenário foi de filas, remarcações e correria nos balcões de atendimento.
Com voos cancelados ou transferidos para o dia seguinte, consumidores acionaram órgãos de fiscalização. A Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor (Sedcon) e o Procon-RJ receberam denúncias de que os passageiros não estavam sendo informados de forma clara sobre seus direitos em meio aos cancelamentos. Diante do cenário, equipes dos órgãos foram ao aeroporto e se reuniram com representantes das companhias aéreas, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e da Infraero.
“Buscamos garantir o direito fundamental de ir e vir dos consumidores, com foco na remarcação dos voos”, explicou o secretário Gutemberg Fonseca. “Para os casos em que o embarque foi reagendado para o dia seguinte […], exigimos das empresas a oferta de assistência material, incluindo alimentação, hospedagem e transporte”, declarou o secretário. A medida se apoia no Código de Defesa do Consumidor e em regras da Anac, que garantem suporte integral quando o problema não é causado por fatores meteorológicos, mas por falhas operacionais.
O Procon-RJ notificou a Infraero e as companhias Gol, Latam e Azul. De acordo com a autarquia, as informações coletadas serão usadas para apurar se houve falha no dever de assistência aos cerca de 16 mil passageiros afetados.
Operação retomada
Com a pista liberada no fim da tarde de ontem, os voos foram gradualmente retomados. Nesta quarta-feira, o Santos Dumont opera dentro da normalidade, sem registros de novos cancelamentos ou atrasos significativos.






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