* Paulo Baía
Observo o cenário eleitoral fluminense como quem acompanha uma mudança silenciosa de governo com fortalecimento das instituições locais e estaduais como a ALERJ, o TJRJ e as relações com as instituições da União dos três poderes da república. A eleição de 2026 no estado do Rio de Janeiro não nasce da disputa entre projetos nacionais. Nasce do medo das rupturas e da necessidade de proteção das localidades de poder. É uma ação preventiva das elites políticas fluminenses e cariocas, uma engenharia construída para evitar que a guerra simbólica nacional desorganize a governabilidade local.
A operação política já está efetivada no estado do Rio de Janeiro. Trata-se da formação de uma chapa majoritária ampla, capaz de diluir simultaneamente as restrições de campanha associadas a Lula e a Flávio Bolsonaro. Os principais articuladores desse desenho são Gilberto Kassab, Michel Temer e Eduardo Paes. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes e Washington Reis avançaram nessa direção. A composição tende a favorecer Cláudio Castro e Benedita da Silva para o Senado Federal, com Jane Reis, advogada, liderança evangélica e irmã de Washington Reis, indicada como vice de Eduardo Paes. Esse arranjo expressa a estratégia de escolha integrada de governador, vice-governador e das duas vagas ao Senado.
Sim, isso já estava no radar desde quando o ministro Luiz Fux pediu vistas do processo que poderia devolver a elegibilidade a Washington Reis. Logo depois, o próprio Washington disse que não seria candidato a governador, mas que entraria na campanha como cabo eleitoral, com intensidade. Em seguida, teve uma longa conversa com Eduardo Paes. A política do Rio não se move por improvisos, move-se por antecipação.
Mas a novidade não está apenas nos nomes. Está na natureza sociológica da aliança.
A chapa de Eduardo Paes nasce para ser simultaneamente lulista e bolsonarista. Não por convicção ideológica, mas por racionalidade local. Haverá uma banda pró Lula e uma banda pró Flávio Bolsonaro. Quem apoiará cada lado dependerá da localidade, da igreja, do bairro, da memória política do município, das redes de sociabilidade que estruturam o cotidiano eleitoral fluminense. O palanque se fragmenta sem romper. Cada região ouvirá a mensagem que precisa ouvir para manter estabilidade.
Para Paes, essa aproximação é estratégica. Ele vê na aliança com Washington Reis um ponto de apoio importante para enfrentar uma candidatura que não una o campo bolsonarista. Ao mesmo tempo, sabe que terá o respaldo dos partidos da esquerda institucional e do campo lulista, independentemente dos acordos necessários para viabilizar sua candidatura ao governo do Estado.
O objetivo não é vencer a polarização nacional. É neutralizá-la dentro do estado.
A aliança entre MDB e Eduardo Paes simboliza a união do Rio e ao mesmo tempo divide o palanque presidencial. A contradição não é erro. É método. O eleitor poderá votar em Lula na capital e em Flávio Bolsonaro na Baixada sem produzir crise interna na chapa estadual. A engenharia permite múltiplas identidades eleitorais sob o mesmo guarda chuva institucional.
Washington Reis atravessa todas as regiões do Estado do Rio de Janeiro. Sua presença política conecta municípios, lideranças locais e bases sociais diversas, sobretudo na Região Metropolitana. Uma eventual chapa de Eduardo Paes com a irmã de Washington Reis produz uma composição singular. Uma espécie de combinação entre Lula e Flávio Bolsonaro dentro do mesmo arranjo político.
Vejo aqui uma transformação histórica da tradição inaugurada por Sérgio Cabral. O cabralismo construiu um pacto vertical de poder baseado na integração federativa e na centralização administrativa, depois continuado por Luiz Fernando Pezão. O modelo atual preserva o formato do grande acordo, porém altera o conteúdo. Antes era uma coalizão alinhada nacionalmente. Agora é uma coalizão que aceita a divergência nacional como condição de sobrevivência local.
Não se trata de conciliação ideológica. Trata-se de administração de conflitos sociais permanentes.
O Rio de Janeiro sempre funcionou por equilíbrios delicados entre instituições formais, lideranças locais e representações simbólicas de autoridade. A chapa ampla opera como um sistema de contenção de choques. Ela busca fortalecer prefeitos, câmaras municipais, lideranças regionais e redes políticas locais. O foco não é a Presidência da República. O foco é garantir que cada município preserve seu próprio arranjo de poder sem interferência destrutiva da disputa nacional.
Nesse sentido, a eleição estadual deixa de ser uma batalha por projeto de país e passa a ser um pacto de autopreservação do sistema político fluminense. Política também é localidade. Quem ocupa os caminhos e quem ocupa as localidades acaba ocupando o futuro.
Eduardo Paes torna-se o eixo agregador. Washington Reis representa a capilaridade municipal. Cláudio Castro e Benedita da Silva ocupam o Senado como ponte institucional plural. Jane Reis simboliza a conexão local da Baixada e a interlocução religiosa. Cada nome cumpre função de equilíbrio simbólico para públicos distintos. Não se pede convergência. Pede-se coexistência.
A política do Rio não abandona Lula nem Flávio Bolsonaro. Também não escolhe entre eles. Cria um espaço onde ambos cabem sem que o estado se parta ao meio.
É uma solução pragmática e ao mesmo tempo um alerta histórico. O Rio de Janeiro institucionaliza a convivência de antagonismos dentro da mesma estrutura eleitoral. A governabilidade passa a anteceder a escolha ideológica. O voto continua livre, mas o sistema reduz a possibilidade de ruptura.
A eleição de 2026 no Rio não será um plebiscito nacional. Será um acordo local.
E talvez seja esse o recado silencioso das elites políticas fluminenses e cariocas. Não se busca decidir quem governa o Brasil. Busca-se garantir que o Rio continue governável qualquer que seja o vencedor nacional.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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