* Paulo Baía
Há eleições que se anunciam como simples rubricas administrativas na contabilidade periódica da República, ritos previsíveis de uma liturgia institucional que se repete com a regularidade dos calendários. Outras, entretanto, pertencem à ordem dos fenômenos históricos que se antecipam ao próprio tempo formal, infiltram-se nas capilaridades da vida social e passam a reorganizar, com uma discrição apenas aparente, as estruturas profundas da dominação. A disputa de 2026 no estado do Rio de Janeiro inscreve-se, com nitidez sociológica, nessa segunda tradição. Não aguarda o futuro. Já habita o presente como atmosfera difusa, como horizonte de expectativa coletiva e como campo de forças permanentemente submetido a rearranjos, tensões e recomposições.
O relatório elaborado pelo Lappcom da UFRJ, o Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada, nasce precisamente desse imperativo intelectual: produzir inteligibilidade política em meio a um cenário marcado pela complexidade estrutural e pela densidade histórica. A plataforma de dados e o projeto de acompanhamento do processo eleitoral configuram iniciativas complementares que, articuladas, ampliam a capacidade de interpretação da política fluminense. Uma opera como infraestrutura de visualização territorial; a outra se oferece como instrumento analítico de interpretação rigorosa e de divulgação científica das dinâmicas eleitorais que atravessam o estado.
A articulação entre essas duas dimensões permite descrever, com sistematicidade metodológica, os padrões eleitorais e compreender os mecanismos territoriais de formação das elites políticas fluminenses, inclusive o papel estratégico dos brokers territoriais. Essas lideranças locais, firmemente ancoradas em bases geográficas específicas, funcionam como mediadoras entre eleitores, máquinas municipais e candidaturas majoritárias. Convertem poder local em capital político de alcance estadual e, por vezes, nacional. Mais do que intermediários, são tradutores sociais da política, operadores de uma gramática relacional sem a qual o poder permaneceria abstrato.
Ao integrar análise política, recorte espacial e inovação metodológica, o trabalho reafirma a centralidade da dimensão territorial para a compreensão das eleições de 2026 no Rio de Janeiro. Não se trata apenas de mapear votos, mas de revelar as arquiteturas invisíveis que sustentam a reprodução do poder. Com isso, contribui para elevar o nível do debate público e da produção acadêmica sobre a política fluminense, devolvendo à sociologia seu papel clássico: iluminar aquilo que o senso comum tende a naturalizar.
O Lappcom encontra-se vinculado ao Departamento de Ciência Política e ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro, bem como ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Seu Grupo de Trabalho de Política Local investiga a dimensão subnacional por meio dos processos eleitorais e das relações de poder entre atores políticos, mobilizando metodologias qualitativas e quantitativas para monitorar a circulação de lideranças pelo território, a distribuição de votos e a alocação estratégica de recursos.
Tal empreendimento intelectual não surgiu do improviso nem da contingência. Nos últimos anos, a equipe produziu o dossiê sobre a Baixada Fluminense nas eleições de 2022, organizou o Guia das Eleições Municipais de 2024 em quatro volumes e lançou o boletim dedicado aos cem primeiros dias das gestões locais eleitas naquele ciclo. O monitoramento das eleições de 2026 prolonga essa trajetória e a densifica, identificando a movimentação dos atores políticos após o pleito municipal e seus impactos não apenas na escala estadual, mas também na política nacional, onde reverberam como ondas de média duração.
A proposta consiste em analisar como os resultados das eleições municipais se traduzem em arranjos de poder, estratégias de governo e reconfigurações partidárias nos municípios fluminenses. Parte-se do pressuposto de que o período imediatamente posterior às eleições locais constitui um tempo sociologicamente privilegiado para compreender a dinâmica da política territorial e a preparação dos atores para o ciclo eleitoral seguinte. É nesse intervalo que se decidem lealdades, se recompõem coalizões e se desenham futuros possíveis.
Aqui reencontramos uma das intuições mais elegantes da sociologia política clássica: o poder só se deixa compreender quando observado em sua duração. O instante eleitoral, tomado isoladamente, possui valor analítico limitado, quase ilusório. É no tempo que o antecede que se formam coalizões, se redefinem hierarquias e se sedimentam estratégias de permanência. O poder, afinal, é menos um evento do que um processo.
Quando examinada com rigor sociológico, a política deixa de ser espetáculo e revela sua natureza processual, lenta e cumulativa. O território abandona a condição de mero cenário e assume o estatuto de categoria explicativa fundamental. Redes urbanas, infraestruturas materiais, circuitos comunicacionais e desigualdades historicamente produzidas demonstram que o poder não se distribui aleatoriamente; ele se organiza, se reproduz e se defende com impressionante capacidade adaptativa.
Toda política é, em alguma medida, uma forma de geografia social. Ou, dito de maneira ainda mais enfática, toda geografia é também uma sedimentação de relações de poder.
Nesse horizonte analítico, a plataforma Cartpol adquire relevo singular. Trata-se de uma iniciativa voltada à sistematização e à análise territorializada dos dados eleitorais, capaz de oferecer visualizações por bairros e comparações longitudinais desde 2016 para todos os cargos eletivos. Essa arquitetura cognitiva permite identificar polos de força política, examinar sua estabilidade, perceber suas mutações e avaliar sua capacidade de projeção entre escalas distintas do poder.
Integrada ao Projeto Guia Lappcom – Eleições Gerais de 2026, essa infraestrutura possibilita reconhecer os nomes fortes em cada unidade territorial a partir dos resultados de 2022 e 2024, bem como observar de que maneira esses atores podem tornar-se forças determinantes na disputa vindoura. Mais do que antecipar cenários, trata-se de compreender as condições estruturais que os tornam plausíveis.
A política fluminense, vista desse ângulo, aparece como uma vasta cartografia de influências, uma constelação dinâmica na qual as certezas eleitorais revelam-se apenas equilíbrios transitórios. O que hoje parece previsível pode ser deslocado por eventos inesperados, pois a política carrega consigo uma abertura estrutural à contingência. Não há mapa definitivo onde a ação humana permanece viva.
O poder territorial, ainda que robusto, não se converte automaticamente em coordenação estadual. Vitórias disseminadas pelo mosaico municipal não asseguram hegemonia. Entre a força local e a liderança estadual existe um intervalo sociológico denso, repleto de mediações, disputas e tentativas de agregação. Esse intervalo é o espaço onde se decide quem apenas vence e quem, de fato, governa.
Sempre que um vazio articulatório se abre, a política se apressa em ocupá-lo, pois o poder abomina o vácuo com a mesma intensidade com que a natureza rejeita a ausência de forma.
O cenário pode ser interpretado a partir da interação de três campos estruturantes: territorial, ideológico e articulador. Não são compartimentos estanques. Interpenetram-se, produzem zonas híbridas e redefinem continuamente suas fronteiras, como placas tectônicas que se movem sob a superfície do cotidiano político.
O campo territorial repousa sobre formas clássicas de dominação local. Redes familiares, clãs políticos e máquinas administrativas constituem sua base material. Trata-se de um poder enraizado, dotado de grande capacidade de mobilização e sustentado por padrões concentrados de votação. Sua reprodução obedece a um circuito reconhecível: elegem-se representantes, direcionam-se emendas, irrigam-se redutos e a engrenagem se perpetua. O território, aqui, não é apenas espaço; é herança, memória e instrumento.
Ainda assim, densidade territorial não garante projeto abrangente. O local nem sempre escala, e a proximidade que fortalece pode também limitar o horizonte.
Como essas lideranças frequentemente se encontram dispersas, raramente disputam o mesmo eleitorado. Na ausência de uma autoridade hegemônica que as agregue, tendem a atuar como forças auxiliares de candidaturas majoritárias capazes de assegurar acesso à máquina pública e proteção de interesses. Formam, assim, uma ecologia de dependências recíprocas.
O capital político cresce em proporção direta ao peso demográfico dos municípios e à sua centralidade comunicacional. Cidades que concentram empregos, universidades, serviços especializados e meios de comunicação tornam-se emissoras privilegiadas de influência. A região metropolitana, nesse sentido, continua a funcionar como núcleo irradiador de protagonismos, reafirmando antigas assimetrias do desenvolvimento brasileiro.
O campo ideológico organiza-se segundo outra gramática. Mobiliza identidades, afetos e antagonismos morais. Produz pertencimento, mas também fronteiras simbólicas. Sua potência reside na capacidade de narrar conflitos; sua fragilidade costuma aparecer na dificuldade de institucionalização duradoura e de coordenação com elites locais. Ideologias inflamam; instituições estabilizam. Nem sempre caminham juntas.
Campos ideológicos raramente permanecem imóveis quando lideranças nacionais alteram o horizonte de expectativas. Basta uma inflexão no plano federal para que alianças se recomponham e estratégias sejam recalibradas. A política, afinal, é sensível às variações do clima histórico.
Há ainda atores que transitam entre território, ideologia e articulação. Essa plasticidade revela um traço decisivo da política contemporânea: a valorização de figuras capazes de habitar linguagens diversas do poder, traduzindo códigos distintos e costurando universos que, à primeira vista, pareceriam inconciliáveis.
O campo articulador aproxima-se do centro pragmático descrito pela teoria política. Seu eleitorado tende a ser mais urbano e orientado por opinião. Trata-se de uma liderança que costura alianças heterogêneas e constrói pontes onde outros erguem fronteiras. Se o territorial acumula raízes e o ideológico mobiliza crenças, o articulador produz conexões e administra diferenças.
Nesse contexto reaparece uma clivagem histórica persistente: capital versus interior. Mais do que divisão espacial, trata-se de uma memória política inscrita na formação do próprio estado, uma tensão que atravessa gerações e reorganiza disputas. O espaço guarda lembranças, e as lembranças votam.
Nenhuma eleição, contudo, pode ser compreendida apenas a partir de seus grandes personagens. A sociologia do voto ensina que a política nacional ganha densidade quando atravessa o cotidiano, quando desce das abstrações e se mistura às experiências ordinárias da vida social.
Em outubro de 2026, brasileiros escolherão representantes para cargos executivos e legislativos nos níveis estadual e nacional. As dinâmicas da política local importam decisivamente tanto para a decisão de voto quanto para as estratégias de candidatos e partidos, pois é no território que a democracia se torna tangível.
Deputados que disputam a reeleição não competem somente por votos; competem por territórios. Investem na relação com municípios e prefeitos, realizam visitas frequentes, canalizam emendas parlamentares e marcam presença em inaugurações e eventos, consolidando vínculos que sustentam suas bases eleitorais. Cada gesto público é também um ato de inscrição espacial.
Prefeitos tornam-se fiadores simbólicos da confiança política. Mesmo estratégias de aparência nacional dependem dessa mediação territorial. As redes digitais ampliam a circulação das mensagens, mas não substituem a densidade das alianças locais, onde a confiança se constrói na repetição do encontro.
A política só se torna inteligível ao eleitor quando se materializa em experiências concretas: obras, serviços, equipamentos públicos. Ainda assim, essa materialidade precisa ser narrada por mediadores que traduzem decisões distantes em benefícios perceptíveis. Sem tradução social, não há reconhecimento político.
As percepções sociais sobre os problemas do país são socialmente produzidas. Resultam de um intricado arranjo informacional, institucional e comunicacional que molda sensibilidades coletivas e orienta julgamentos.
No plano municipal, alianças frequentemente ignoram coerência partidária e reforçam lideranças personalistas. Partidos nacionais veem-se compelidos a adaptar-se a configurações locais sedimentadas ao longo do tempo. Eis uma das razões pelas quais legendas vigorosas no plano federal podem apresentar desempenho irregular no território. O Brasil político continua sendo, em larga medida, um arquipélago de realidades.
Grandes vitórias eleitorais nascem menos de discursos grandiosos e mais de uma constelação de microacordos, discretos e persistentes, que se acumulam até produzir maiorias.
Ignorar a política local significa obscurecer o funcionamento concreto da democracia. Prefeitos, vereadores e lideranças territoriais não são figurantes; são operadores cotidianos do poder, artesãos silenciosos da governabilidade.
Quando o olhar se amplia, o que emerge é um estado atravessado por uma longa fadiga institucional. Escândalos sucessivos, colapsos administrativos e erosão da confiança pública deixaram marcas persistentes na consciência coletiva. A democracia permanece de pé, mas revela sinais claros de desgaste histórico, como uma arquitetura que resiste, embora carregue fissuras.
Democracias fatigadas tendem a produzir eleitorados fatigados. O cansaço social não é apenas emoção; é também categoria política.
O pleito de 2026 será, simultaneamente, disputa de poder e expressão de humor coletivo. Mais do que cargos, estará em jogo a interpretação emocional de uma sociedade que oscila entre o desencanto e a expectativa cautelosa de reorganização. Espera-se menos a redenção do que a estabilidade possível.
A política já não se oferece como promessa redentora. Apresenta-se como administração do possível, como arte de gerir limites em um mundo saturado de frustrações acumuladas.
Tudo sugere que o desfecho eleitoral será menos produto de rupturas espetaculares e mais resultado da gestão paciente das continuidades. Ainda assim, nenhuma continuidade é absoluta. Toda estrutura guarda fissuras, e as fissuras são convites à transformação.
É precisamente por essas frestas que a história encontra, mais uma vez, a sua passagem. Porque, mesmo quando parece imóvel, o social jamais deixa de mover-se.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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