Rio concentra 71% dos incidentes com helicópteros registrados em todo o país, diz Sipaer

Crescimento da frota e do tráfego intensifica debate sobre fiscalização de pilotos, monitoramento do espaço aéreo e adoção de novas regras operacionais

O avanço da circulação de helicópteros no céu do Rio de Janeiro tem sido acompanhado por um aumento expressivo no número de ocorrências envolvendo esse tipo de aeronave, informa o jornal O Globo. Dados do Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Sipaer) mostram que o estado concentra atualmente a maior parte dos incidentes registrados no país, superando com ampla margem São Paulo, que possui a maior frota de helicópteros do Brasil.

Somente no ano passado, foram contabilizados 142 incidentes no território fluminense, o equivalente a uma ocorrência a cada três dias. No mesmo período, São Paulo registrou apenas 11 casos. Os números colocam o Rio como responsável por 71% de todos os registros envolvendo helicópteros no país.

As ocorrências incluem desde falhas técnicas e mau funcionamento de componentes até colisões com aves, incursões em pista e quedas. Em 2026, o cenário continua chamando a atenção: até agora, foram registrados 61 incidentes no Rio de Janeiro, enquanto São Paulo contabilizou apenas seis.

O crescimento das operações aéreas e a elevada movimentação de helicópteros levaram especialistas a defender mudanças na forma de monitoramento do espaço aéreo fluminense e uma fiscalização mais rigorosa sobre a atuação dos pilotos.

Crescimento da frota amplia desafios

De acordo com dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o Estado do Rio possui atualmente 319 helicópteros registrados. Em 2023, eram 247 aeronaves. O crescimento de aproximadamente 29% em três anos reflete o aumento da demanda por esse tipo de transporte, especialmente em áreas urbanas e corporativas.

Embora São Paulo ainda mantenha a maior frota do país, com mais de 400 helicópteros registrados, o Rio lidera o volume operacional em determinados pontos. O Aeroporto de Jacarepaguá, por exemplo, registrou 7.903 pousos e decolagens em maio, tornando-se o terminal com maior movimentação de helicópteros do Brasil. O Aeroporto Campo de Marte, na capital paulista, aparece em seguida, com 2.642 operações no mesmo período.

O aumento da circulação aérea tem levado especialistas a discutir medidas capazes de reduzir riscos em uma malha aérea cada vez mais movimentada.

Transponder obrigatório entra no debate

Entre as propostas defendidas por especialistas está a ampliação da obrigatoriedade do uso do transponder, equipamento que transmite automaticamente informações de identificação e posição da aeronave aos radares e sistemas de monitoramento.

O perito aeronáutico Daniel Calazans considera que a exigência deveria ser ampliada, principalmente em regiões metropolitanas com intenso fluxo de helicópteros.

Atualmente, a obrigatoriedade do equipamento está restrita a determinadas rotas e espaços aéreos. Em grande parte das operações urbanas, os pilotos dependem da comunicação por rádio e da observação visual para evitar conflitos entre aeronaves.

No modelo atual, os helicópteros seguem corredores previamente definidos. Cabe aos pilotos manter a separação segura entre as aeronaves, informando constantemente pelo rádio o prefixo da aeronave, a altitude, a direção de voo e eventuais mudanças de rota.

Falha humana preocupa especialistas

Para Calazans, o principal fator de risco não está necessariamente na quantidade de helicópteros em operação, mas no comportamento de parte dos profissionais responsáveis pelos voos.

“O maior problema são os profissionais que deixam de ligar o transponder ou de realizar a comunicação adequada. As regras funcionam da forma como foram estabelecidas. A questão é saber se as pessoas estão seguindo essas regras. A conduta só vai ser sanada se houver fiscalização acompanhada da devida punição aos infratores”, diz o especialista ao Globo.

Segundo Calazans, acidentes envolvendo colisões entre helicópteros são raros. No entanto, situações de aproximação perigosa entre aeronaves acontecem com frequência maior do que os registros oficiais sugerem.

Ele destaca que muitos desses episódios estão ligados ao descumprimento de protocolos básicos de comunicação, especialmente em áreas onde não há monitoramento permanente por controladores de tráfego aéreo.

Fiscalização limitada em áreas não controladas

Outro desafio apontado por especialistas está relacionado à dificuldade de fiscalizar infrações em espaços aéreos não controlados.

Enquanto em áreas monitoradas os controladores conseguem identificar desvios operacionais e possíveis irregularidades, em regiões onde a separação entre aeronaves depende exclusivamente dos pilotos a identificação de infrações torna-se mais complexa.

“O que acontece, às vezes, é uma denúncia de morador relatando que a aeronave passou muito próxima de uma residência, ou até de outro piloto que identificou uma manobra perigosa ou a falta de comunicação. Se não houver denúncia, em espaço aéreo não controlado, praticamente não há como fiscalizar. E isso é um problema”, diz.

Controle semelhante ao de São Paulo

Outra proposta em discussão envolve a ampliação da atuação do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) em regiões de grande concentração de helicópteros.

A possibilidade de instalação de estruturas de controle semelhantes às existentes em São Paulo é vista por especialistas como uma alternativa para reduzir riscos e aumentar a segurança operacional.

Diretor técnico da Associação Brasileira de Aviação Geral (Abag), Raul Marinho considera que o tema merece análise por parte das autoridades aeronáuticas.

“Essa é uma possibilidade em razão da densidade do tráfego de helicópteros no Rio, que aumentou muito nos últimos anos. Cabe ao Decea avaliar se isso é conveniente e necessário, além de verificar se há recursos, pessoal e equipamentos disponíveis para a implantação do sistema”, conclui.

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