Reviver Centro impulsiona moradias no Rio, mas leilão na Pedra do Sal expõe entraves da revitalização

Programa da Prefeitura já licenciou mais de 7,8 mil unidades habitacionais no Centro do Rio, enquanto imóveis históricos ainda enfrentam burocracia, degradação e desafios urbanísticos

Criado para estimular a ocupação residencial do Centro do Rio de Janeiro, o programa Reviver Centro já ultrapassou a marca de 7,8 mil unidades habitacionais licenciadas desde sua implementação, em 2021, informa o portal g1. Os números atualizados pela Prefeitura do Rio, referentes a março de 2026, apontam um avanço significativo da transformação urbana da região central, sobretudo por meio da conversão de antigos prédios comerciais em empreendimentos residenciais.

O balanço municipal mostra que o programa soma 74 licenças emitidas, totalizando 7.818 unidades aprovadas, das quais 7.733 são residenciais. Ao todo, mais de 451 mil metros quadrados foram licenciados dentro do projeto.

Os dados também revelam uma aceleração recente do mercado imobiliário no Centro. O ano de 2025 concentrou o maior volume de aprovações desde a criação do programa, com 22 licenças emitidas e 3.202 unidades autorizadas, o equivalente a quase 41% de tudo o que foi licenciado desde o lançamento do Reviver Centro.

Transformação de prédios antigos domina projetos

A proposta do Reviver Centro surgiu a partir de uma tentativa da Prefeitura do Rio de reocupar áreas esvaziadas do Centro histórico e da região portuária, que perderam moradores e atividade econômica ao longo das últimas décadas.

A legislação, aprovada pela Câmara de Vereadores e sancionada em 2021, criou incentivos fiscais e flexibilizações urbanísticas voltadas à recuperação de imóveis antigos, projetos de retrofit e empreendimentos de uso misto.

Desde então, o mercado imobiliário passou a direcionar investimentos para edifícios históricos e comerciais que permaneceram subutilizados na região central.

“O Centro tem todas as características para ser uma das regiões mais valorizadas da cidade porque tem transporte de massa instalado, funcionando e em ótimas condições, além de ser próximo a áreas de lazer, centros culturais e museus que vamos voltar a utilizar”, afirmou ao g1 o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Cláudio Hermolin.

Os dados da prefeitura indicam que a maior parte dos projetos envolve justamente a adaptação de imóveis já existentes. Das 74 licenças emitidas, 59 correspondem à transformação de uso de edifícios antigos, enquanto apenas 15 dizem respeito a novas construções.

A predominância residencial também aparece de forma expressiva no levantamento municipal. Das 7.818 unidades aprovadas, apenas 85 possuem finalidade não residencial.

Outro indicador considerado estratégico pela prefeitura é o avanço das obras concluídas. Segundo o painel do programa, 24 empreendimentos já receberam habite-se ou aceitação de obras, liberando 1.891 unidades habitacionais.

Edifício A Noite simboliza nova fase do Centro

Entre os empreendimentos que simbolizam a nova fase imobiliária da região está o edifício A Noite, na Praça Mauá. Considerado o primeiro arranha-céu da América Latina, o prédio histórico será transformado em um complexo residencial após ter sido adquirido por um consórcio imobiliário em 2024.

O projeto prevê 447 apartamentos, além de lojas e um centro cultural, reforçando a estratégia de reocupação do Centro com moradia e serviços.

Na avaliação da prefeitura e do setor imobiliário, a infraestrutura já instalada é um dos principais atrativos para os novos empreendimentos. O Centro reúne linhas de metrô, VLT, corredores de ônibus, equipamentos culturais, serviços públicos e proximidade com áreas turísticas da cidade.

Leilão na Pedra do Sal revela obstáculos

Apesar do avanço do Reviver Centro, um leilão de imóveis históricos na região da Pedra do Sal evidenciou as dificuldades ainda existentes para a recuperação urbanística da área portuária.

O certame reúne 73 imóveis residenciais e comerciais distribuídos em nove lotes, com expectativa de arrecadação superior a R$ 33 milhões. Os imóveis ficam em uma das áreas mais emblemáticas da herança afro-brasileira no Rio, entre a Pedra do Sal, o Largo São Francisco da Prainha e a Pequena África.

Os valores iniciais variam bastante. O menor lance parte de R$ 103 mil, referente a uma casa localizada na Freguesia de Santa Rita, no bairro da Saúde. Já o lote mais caro, composto por 14 imóveis residenciais e comerciais, tem valor inicial de R$ 9 milhões.

Os editais, porém, revelam uma série de entraves para possíveis investidores.

Os imóveis estão submetidos às regras de preservação histórica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de restrições ligadas à Área de Proteção Ambiental (APA) criada pela legislação municipal para proteger o patrimônio cultural da região.

Além disso, os compradores assumem responsabilidades relacionadas à regularização física e documental dos imóveis, incluindo divergências de metragem, pendências cartoriais e adequações junto à prefeitura e aos registros imobiliários.

Em um imóvel localizado na Rua Camerino, por exemplo, há registro de usufruto em favor de terceiros. Outro imóvel, situado na Rua Sacadura Cabral, possui penhora vinculada a uma execução fiscal em tramitação no Tribunal de Justiça do Rio.

Os editais também mencionam imóveis ocupados, contratos de locação ainda ativos e possíveis custos de desocupação que poderão ser assumidos pelos compradores.

As regras do leilão estabelecem ainda que os imóveis serão vendidos “no estado em que se encontram”, tanto física quanto documentalmente, além de prever multas para arrematantes que desistirem após a apresentação dos lances.

Imagens divulgadas no site do leilão mostram casarões deteriorados, fachadas desgastadas, pichações e imóveis aparentemente abandonados ou subutilizados, cenário que evidencia a necessidade de investimentos elevados em recuperação estrutural e retrofit.

Especialistas alertam para desafios urbanos

Apesar dos resultados positivos apresentados pelo Reviver Centro, urbanistas e pesquisadores avaliam que a revitalização da região ainda enfrenta desafios importantes relacionados ao perfil da ocupação e à adaptação da infraestrutura urbana.

A professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, Laisa Ströher, afirma que parte dos empreendimentos vem sendo direcionada para o mercado de hospedagem temporária.

“Esses novos empreendimentos tão muito ligados ao mercado de aluguel de curta temporada (…) tá mais incentivando a hospedagem do que a moradia em si”, afirmou.

Moradores também relatam preocupações ligadas à segurança pública, limpeza urbana, oferta de serviços e adaptação do bairro ao aumento da população residente.

“A região é muito boa, mas ela precisa se tornar residencial, não apenas comercial”, afirmou a moradora Verônica Souza, residente de um dos empreendimentos ligados ao Reviver Centro.

O arquiteto e urbanista Fernando Costa avalia que o Centro passa por um período de transição e adaptação ao novo perfil urbano.

“Assim como os moradores fixos, os turistas que estão num curto período também precisam ser abastecidos de comércio, limpeza urbana, cuidado com lixo, com as calçadas, vias, até com o controle do trânsito. Por mais que a gente tenha nesse momento alguns tropeços, acho que as vitórias, os ganhos, estão sendo superiores aos tropeços.”

Especialistas apontam ainda que os imóveis históricos da região portuária exigem investimentos elevados e processos burocráticos complexos, especialmente nas áreas submetidas à proteção patrimonial.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading