A busca por experiências improváveis diante de vistas paradisíacas do Rio, o intuito de reocupação histórica e a atração por agitos em cantos discretos da cidade têm levado cariocas e turistas a explorarem novos points. Praça da Pira, no Largo da Candelária (Centro); Rua Morais e Vale, na Lapa; Mirante do Pedrão, entre Botafogo e Laranjeiras; e a Rua Umari, no mesmo bairro, viraram cenário de concorridas festas.
— O carioca se sente atraído pelo que é diferente, né? E a galera mais velha ou que já frequentou muito casas de show e bares pode ter se cansado deles — diz Leão Brito, produtor cultural há 12 anos.
Mirante alternativo ao do Dona Marta, o do Pedrão tem como cartão de visita uma vista de tirar o fôlego para Baía de Guanabara, Enseada de Botafogo… No belvedere, aqueles mesmos jovens que no carnaval mobilizam blocos secretos fazem aniversários e eventos com algumas dezenas de convidados. Cristian dos Santos, de 31 anos, morador da região, diz que até atores de novela já confraternizaram ali este ano:
— É um espaço público usado por quem mora perto. E, às vezes, isso se estende com o boca a boca. Mas o número não costuma chegar a cem pessoas.
De acordo com a prefeitura, eventos de médio e grande porte exigem pedido de autorização para que sejam mobilizadas equipes de trânsito, guardas, atendimento da Comlurb. No site do município há formulários digitais de requerimento e informações para quem quer checar a necessidade de alvará. No site do governo do estado se encontra o programa Rio Mais Fácil Eventos, com descrições de atividades que não precisam de autorização. Entre elas, estão as de pequeno porte que incluem “passeatas políticas, celebrações religiosas, sessões fotográficas e festas não comerciais em residências”.
E foi com um início como festa de garagem que o happy hour na Umari, uma ruazinha sem saída de Laranjeiras, começou. Pausados na pandemia por conta da quarentena, os encontros reacendem como fogueira de São João. A ponto de quem chega tarde pensar: acabou o milho, acabou a pipoca.
— Soube por amigos que ia ter uma festa junina com comidinhas diferentes. Estava cheio, tinha bastante gente bonita, projeção nas paredes das casas. Deu a impressão de que os organizadores moram ali. Pena que, pouco depois das 21h, salsichão, cachorro-quente, caldo verde e muitas bebidas já tinham acabado — diz Carol Lopes, jornalista de 42 anos.
E na luz da inspiração centenária, a Rua Morais e Vale se recolore. Décadas e décadas depois de ter servido de passeio para Chiquinha Gonzaga, Manuel Bandeira e Madame Satã, célebres figuras dos séculos XIX e XX que ali viviam, ela vira alvo de caçadores de aventuras das noites cariocas. Há um mês, ganhou, ainda, representação junto aos bairros centrais com a criação da Associação Baixo Lapa de Arte, Cultura e Turismo. Alexandre Rangel, um dos seus integrantes, explica:
— Demos um gás na legalização do registro para que todo o entorno se torne um polo cultural e artístico. Há uma semana, fizemos nosso arraial, o maior evento pós-pandemia, a ponto de as comidas das barraquinhas esgotarem. E em julho o cronograma aumentará. Dia 8, uma exposição de arte será aberta. E como aqui tem galerias de arquitetura e de artes, entre elas a do Flavio Papi e a do Paulo Branquinho, a gente acredita que o público seguirá atraído. Há, ainda, a Casa Otelo, Patrimônio Preservado da cidade, o Beco do Rato.
A estreita rua vizinha à Joaquim Silva foi revitalizada há quatro meses dentro do projeto Reviver Centro, da prefeitura do Rio, e ganhou nova rede de drenagem para eliminar os alagamentos.
— Todos ganham: os comerciantes, os moradores, que têm uma nova opção de lazer, os artistas — frisa Rangel.
Ali os coletivos de manifestações do folclore brasileiro promovem, no bom sentido, uma confusão de damas e cavalheiros no salão. Nas festas mais recentes, apresentaram-se grupos de maracatu e de forró. A designer Emanuelle Conrado, de 28 anos, chegou cedo para prestigiar o evento com o namorado, o militar Wallace Wang, de 30:
— Vim tocar xequerê no ABCToca. E aproveitamos para, antes, dar uma volta.
Legado olímpico, a Praça da Pira tem sido palco de grandes feiras culturais e gastronômicas. No último fim de semana, mais de 40 mil pessoas circularam por lá para curtir a Feira das Yabás, que anunciou a exposição de Heitor dos Prazeres no Centro Cultural Banco do Brasil. O público relaxou em cangas no gramado e sambou à beira do palco.
Marquinhos de Oswaldo Cruz, cantor e criador da feira da Zona Norte, tem sua opinião sobre a chegada do público ao Largo da Candelária:
— O Rio foi a cidade que mais recebeu negros escravizados. E as reformas que embelezaram tinham também o objetivo de tirar essa população mais pobre, negra, da região central. Estar aqui de volta, fazendo alguma coisa no Centro com a alma de Madureira, uma das regiões que mais receberam pessoas nessa diáspora, tem um significado ainda mais especial. A prefeitura explica como pedir autorização para realizar eventos: o produtor deve preencher requerimento solicitando autorização no site da prefeitura (na aba Licenciamento de Eventos); o protocolo se inicia pelo preenchimento do formulário e na Consulta Prévia de Eventos; importante saber que evento de porte mínimo tem até 300 pessoas; pequeno porte, entre 301 e 2 mil; médio, entre 2.001 e 10 mil; e grande, entre 10.001 e 50 mil; e a partir do médio porte, é preciso informar necessidade de palco, tablado, assentos, grades, geração de energia própria e muito mais.
Com informações de O Globo.





