Criminosos de outros estados — como Goiás, Ceará, Espírito Santo e Amazonas — que usam a Rocinha para se esconder pagam taxas que podem chegar a R$ 100 mil por mês a traficantes locais. O dado faz parte de um levantamento feito pelo jornal O GLOBO com investigadores da Polícia Civil, que estimam que os criminosos da favela estejam faturando até R$ 12 milhões mensais, sendo mais com extorsões do que com a venda de drogas.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, a taxa de “hospedagem” imposta aos bandidos de fora do Rio varia entre R$ 50 mil e R$ 100 mil e seria cobrada por Delson Manoel, conhecido como Salomão, um dos chefes do Complexo do Alemão, favela também dominada pelo Comando Vermelho. No ano passado, a polícia identificou dois traficantes que estariam escondidos na Rocinha: Anastácio Paiva Pereira, conhecido como Paizão, Doze ou Paulinho Maluco, de 33 anos, é do Ceará. Já Kaio César Alves Ferreira, que tem como apelidos Barney, Tio K e Heisenberg, também de 33, é de Goiás.
De acordo com a Subsecretaria de Inteligência da Polícia Militar, Pereira comanda o tráfico de drogas no sertão do Ceará, nos municípios de Santa Quitéria, Hidrolândia, Varjota, Reriutaba, Ipu, Ipueira e Guaraciaba do Norte. Já Ferreira é acusado de chefiar uma quadrilha que trafica drogas e comete assassinatos de integrantes de grupos rivais em Goiânia. De acordo com informações levantadas pela polícia, eles estariam controlando suas bases e o tráfico de drogas diretamente da Rocinha (em alguns casos, de outros esconderijos da facção criminosa na Zona Sul do Rio).
De acordo com as investigações da polícia, traficantes da Rocinha estão indo além das cobranças ilegais: eles já estariam assumindo alguns negócios legais, como bares, restaurantes, lojas de roupas, locais de festas e salões de beleza dentro do morro.
Com sobrepreço para garantir a propina exigida pelos criminosos, um botijão de gás custa R$ 140 na Rocinha. O mesmo produto pode ser comprado a R$ 100 no Engenho Novo, na Zona Norte do Rio, e a R$ 110, para ser entregue em Ipanema, na Zona Sul. O sinal clandestino de TV a cabo, o gatonet, recebido por 70% das casas, sai a R$ 100 mensais por família. E os planos mais baratos de internet custam R$ 99. De acordo com o Censo 2022, do IBGE, na Rocinha moram 67.199 pessoas, 2,8% abaixo da população registrada em 2010.
— As taxas aumentaram em cerca de 20%, de 2023 para 2024 — diz uma fonte, com a garantia do anonimato.
Um morador que não quis se identificar conta que, por medo, ele e os vizinhos sequer cogitam comprar botijões fora da comunidade.
— E sabemos que o motorista de van ou o mototáxi que não pagar as taxas é impedido de trabalhar. Para circular, é preciso fazer um cadastro e, com isso, eles têm todo o controle — acrescenta.
O receio de represálias também coíbe as denúncias: em todo o ano passado, foram apenas 11 registros de extorsão na área da 11ª DP (Rocinha). Desde 2014, quando começou a série história, foram 38 casos na região.
As extorsões a mototaxistas e motoristas de vans e a exploração de gatonet, por exemplo, são práticas antigas na Rocinha. Mas os negócios se expandiram, e os valores foram ficando cada vez mais altos, estrangulando o orçamento das famílias. A estimativa dos investigadores é que o faturamento da quadrilha na favela, com todas as atividades ilegais, oscile entre R$ 10 milhões e R$ 12 milhões por mês, incluindo a venda de armas e a “hospedagem” de bandidos de outros estados. Desse total, de R$ 2 milhões a R$ 3 milhões seriam com venda de drogas — no máximo 25%.
Hoje, a Rocinha é controlada por John Wallace da Silva Viana, o Johny Bravo, do Comando Vermelho. Ele é braço direito de Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, chefe do Vidigal e da Rocinha, que está cumprindo pena em presídio federal. Outro homem considerado poderoso e temido na Rocinha é conhecido como Goiabada. O traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, da facção Amigo dos Amigos (ADA), que controlava a Rocinha antes de Rogério 157, está preso desde 2011 e não tem mais poder algum na comunidade.
As polícias do Rio reforçam a necessidade de que denúncias sejam registradas para ajudar nas investigações e na análise das manchas criminais. É possível fazer denúncias pela Central 190, pelo aplicativo RJ 190 ou pelo Disque-Denúncia (onde o anonimato é garantido). Em nota, a Polícia Civil afirma que a 11ª DP (Rocinha) tomou conhecimento das denúncias de extorsão nas redes sociais e vai analisar os fatos para responsabilizar os envolvidos.
Com informações do GLOBO.
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