Réquiem a Francisco Dornelles, um liberal apaixonado pelo Fluminense e com simpatia por Lula

RICARDO BRUNO Francisco Dornelles pertencia a uma safra de políticos em extinção. Cordato no trato pessoal, conciliador nos embates políticos e com visão econômica absolutamente ortodoxa. Déficit público era sempre um mal a ser evitado sob qualquer argumento. Sua trajetória, contudo, não é a de um conservador contumaz. Em essência, foi um liberal, que em…

RICARDO BRUNO

Francisco Dornelles pertencia a uma safra de políticos em extinção. Cordato no trato pessoal, conciliador nos embates políticos e com visão econômica absolutamente ortodoxa. Déficit público era sempre um mal a ser evitado sob qualquer argumento. Sua trajetória, contudo, não é a de um conservador contumaz. Em essência, foi um liberal, que em vários momentos flertou com a esquerda.

A temperança era sua característica pessoal mais evidente, resultado talvez de sua singular árvore genealógica. Suas raízes estão deitadas na história contemporânea do Brasil: primo de Getúlio Vargas; sobrinho do general Ernesto Dornelles (ex-governador gaúcho) e também do ex-presidente Tancredo Neves, Dornelles era uma espécie de síntese da atuação desses personagens. De cada um, herdou predicados e defeitos, com base nos quais ergueu vitoriosa trajetória na vida pública nacional.

Ao longo da vida, trouxe símbolos e marcas de sua origem. Nasceu, cresceu e viveu por 88 anos em ambiente político. As negociações, os acordos, as vitórias e derrotas eleitorais, as escaramuças de campanha, os bastidores do Congresso Nacional, as conspirações palacianas constituem parte de sua vida. Independentemente do cargo que estivesse ocupando, ele vivia imerso neste mundo. O poder lhe era familiar. Mas o exerceu sempre com simplicidade, sem pompa ou afetações.

Mantive nas últimas décadas longa e afetuosa relação com Francisco Dornelles. Em 1992, ele resolveu disputar a prefeitura do Rio. Por sugestão de Luiz Erlanger, deixei a redação de O GLOBO para coordenar a assessoria de imprensa da campanha, cujo marqueteiro era Duda Mendonça. A moderação excessiva impedia o protagonismo necessário a uma campanha prenhe de craques e palanqueiros como Amaral Neto, César Maia, Benedita, Cidinha Campos e Sérgio Cabral.

Obteve a sétima posição e a certeza de que não deveria disputar eleições para o Executivo dado o comedimento excessivo de suas posições públicas. Ele recusava o embate e tentava conciliar mesmo diante de provocações do adversário – método que, convenhamos, não funciona na maioria das sempre atribuladas campanhas majoritárias no Brasil.

Falávamos com frequência. Em momentos de efervescência eleitoral, um pouco mais. Na última campanha presidencial, era raro o dia em que não trocávamos opinião. Sei, portanto, de suas posições mais íntimas, nem sempre externadas por conta dos compromissos partidários. Presidente de honra do PP, partido da base de Jair Bolsonaro, Dornelles não comungava de suas posições extremadas. Ao contrário, era um crítico contumaz do radicalismo descerebrado do ex-presidente.

Certo dia de 2020, logo após uma manifestação de bolsonaristas à porta do Supremo Tribunal Federal, açulada pelo presidente da República, ele me ligou indignado:

– Eu conheço bem o Jair. Foram anos lá no partido. É completamente maluco. Esse governo será um desastre – vaticinou.

Na campanha presidencial de 22, Dornelles  me confidenciou inúmeras vezes ter simpatia pela vitória de Lula. Ao término dos debates na televisão, eram minimamente 40 minutos de análise. Sempre com mesma opinião.

– O Jair é muito fraco. Lula vai ganhar de lavada – disse, traindo a torcida pelo candidato do PT.

Os rumores de inconformismo das tropas com vitória de Lula o fizeram se movimentar. Em conversas com interlocutores do petista, Dornelles rememorou um episódio da gênese da Nova República, narrando a história que resultou na escolha dos ministros militares de seu tio, o presidente Tancredo Neves. Aconselhou a Lula rapidez na indicação dos ministros militares para abortar o movimento de supostos insurretos.

 Lembrou que Tancredo escolheu a tríade de comandantes militares antes mesmo do resultado da eleição indireta ser proclamado. Desejava esvaziar  especialmente o ministro do Exército Walter Pires, que à  época dava sinais de descontentamento com a nova ordem vigente.

A despeito do poder que exercera, Dornelles era simples e detestava manifestações de arrogância. Nos jogos do Fluminense, batia ponto no Maracanã. Era um dos poucos momentos em que perdia compostura e moderação. Esbravejava contra o juiz como qualquer geraldino e arquibaldo. Talvez aquela fosse sua essência, que ao logo da vida acabou refreada pelas contingências das relações políticas.

Em abril, conversamos pela última vez. Convidei-o para mais  uma entrevista na televisão. Ele havia acabado de fazer uma pequena cirurgia para retirar um câncer de pele sem importância clínica. Queria melhorar a aparência e curar as  cicatrizes antes de gravar. Pediu-me um mês.

Em maio, ele voltaria a ser internado para tratar uma pneumonia, de cujas complicações viria a falecer.

Não houve tempo para a nossa última entrevista.

Para a história, ficaram os exemplos de vida de um democrata.

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading