Apesar de uma retomada gradual nas coberturas vacinais desde 2022, o Brasil ainda enfrenta um cenário preocupante: cerca de 80% da população vive em municípios que não atingiram, em 2023, as metas estipuladas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI). Os dados são do novo Anuário VacinaBR 2025, lançado nesta terça-feira (18) pelo Instituto Questão de Ciência (IQC), em parceria com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) e o Unicef, e reportado pelo jornal O GLOBO.
O levantamento mostra que, entre 13 vacinas avaliadas, nove não alcançaram 95% de cobertura — meta preconizada pelo Ministério da Saúde. Em âmbito nacional, nenhum dos imunizantes atingiu esse patamar no ano passado. Um dos piores desempenhos foi o da vacina contra varicela, que protege contra a catapora: apenas 3% dos brasileiros viviam em cidades que atingiram a meta, o menor índice desde o início da vacinação contra a doença, em 2013.
O anuário analisa dados de 2000 a 2023 e evidencia uma queda sustentada nas coberturas vacinais a partir de 2015 — considerada pelos especialistas uma das maiores crises da saúde pública brasileira desde a criação do PNI, em 1973. Apesar da piora acentuada em 2020, causada pela pandemia de covid-19, os números começaram a se recuperar em 2022. No entanto, a cobertura ainda está distante dos níveis observados na década anterior.
Algumas vacinas são apontadas como críticas: poliomielite, meningococo C, Haemophilus influenzae tipo b (Hib) e varicela não atingiram a meta em nenhum dos 26 estados nem no Distrito Federal. O caso da meningocócica C é especialmente grave: nenhum estado brasileiro cumpriu a meta entre 2021 e 2023. No último ano, quase 90% da população residia em municípios que não alcançaram o objetivo — em contraste com 2011, quando esse número era de apenas 25%.
Sinais de melhora e novos dados de 2024
Apesar do cenário desafiador, os especialistas observam avanços. Dados mais recentes do Ministério da Saúde — ainda não incluídos no anuário — apontam que, em 2024, duas vacinas já ultrapassaram a meta de 95%: a BCG (95,85%) e a primeira dose da tríplice viral (95,5%). A vacina contra hepatite B também teve desempenho expressivo, com 94,04% de cobertura no público-alvo.
Luciana Phebo, chefe de Saúde do Unicef no Brasil, avalia os dados com otimismo: “Após anos de queda nas coberturas vacinais infantis, o Brasil tem avançado na retomada da vacinação, com importantes conquistas em diversas regiões do país.”
A diretora da SBIm, Isabella Ballalai, destaca que o país vem mobilizando esforços em múltiplas frentes. “Ainda temos muito a fazer, mas melhorou bastante. Tivemos várias ações, desde busca ativa das pessoas, estratégias locais, campanhas em escolas. Acredito que o grande desafio hoje é a informação. Nem todo mundo sabe onde vacinar ou fica sabendo de uma eventual campanha.”
Segundo Ballalai, a hesitação vacinal no Brasil está mais ligada à conveniência do que à desinformação. “A desinformação sempre foi muito mais forte no exterior, nos Estados Unidos e na Europa. Aqui, entraves maiores vão desde acesso até conveniência. Quando se tem uma percepção alta de risco, a vacinação acontece. Mas só dizer que a doença é grave não adianta. Se a pessoa não consegue enxergar o risco, é difícil de ela tomar uma atitude.”
Abandono de esquemas e desigualdades internas
O relatório alerta também para a elevada taxa de abandono em vacinas que exigem múltiplas doses. Um dos casos mais críticos é o da tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), cuja segunda dose é aplicada aos 15 meses. Em 2023, embora quatro estados (Mato Grosso do Sul, Tocantins, Rondônia e Santa Catarina) tenham alcançado a meta com a primeira aplicação, nenhum deles atingiu 95% com a segunda. Em 14 estados, a cobertura com a dose final não passou de 50%. Mesmo em São Paulo, estado com melhor desempenho, apenas 70% das crianças completaram o esquema.
Em estados como o Mato Grosso do Sul, a taxa de abandono foi de 63,1%. Para os responsáveis pelo anuário, essa lacuna compromete a imunização coletiva e expõe a população à reintrodução de doenças erradicadas, como o sarampo.
“Isso talvez seja o mais difícil hoje. A pessoa relaxa, tem a percepção de que já deu uma dose então não está totalmente desprotegida. Isso é maior entre adolescentes e adultos”, afirma Ballalai.
Outros destaques: pólio, HPV e desigualdades regionais
A cobertura contra a poliomielite continua abaixo da meta nacional desde 2016. Em 2023, menos de 20% da população brasileira vivia em municípios que atingiram os 95% exigidos. A situação é igualmente preocupante com o HPV: menos de 80% das meninas foram vacinadas, e a cobertura entre meninos ficou abaixo de 50%, mesmo com o vírus sendo associado a vários tipos de câncer em ambos os sexos.
A análise regional aponta que a região Norte segue como a mais vulnerável. Estados como Amazonas, Pará e Maranhão apresentam os menores índices de cobertura para diversas vacinas, incluindo sarampo, poliomielite e varicela. Mas a preocupação se estende a estados mais ricos. No Rio de Janeiro, nenhuma das metas foi atingida em 2023. A segunda dose da tríplice viral, por exemplo, teve apenas 36,9% de cobertura.
O anuário também chama atenção para as grandes disparidades internas. Em estados como Rio Grande do Sul e Pará, municípios vizinhos apresentam diferenças extremas de cobertura vacinal — de mais de 95% para menos de 50%. Esse fenômeno cria “bolsões de baixa cobertura”, que ameaçam a eficácia da imunização coletiva.
Paulo Almeida, diretor executivo do IQC e coordenador do relatório, defende que a análise anual pode ser uma ferramenta para embasar políticas públicas. “Nosso objetivo é qualificar o debate público e apoiar a criação e a gestão de políticas públicas de imunização baseadas em evidências.”
O anuário utilizou dados oficiais de plataformas como DataSUS, InfoMS, IBGE e Sinasc, considerando a taxa de doses aplicadas, o abandono e a homogeneidade da cobertura vacinal infantil e da vacina contra o HPV em adolescentes. A próxima edição deve incluir os dados consolidados de 2024, já indicando a tendência mais robusta da recuperação da imunização no Brasil.





